29 de junho de 2026 19:52

A IGREJA EM JERUSALÉM

Doutrina, Comunhão e Fé: A Base para o Crescimento da Igreja em meio às Perseguições
    O CARÁTER MISSIONÁRIO DA IGREJA DE JERUSALÉM

INTRODUÇÃO
A perseguição que dispersou os primeiros cristãos se tornou, ironicamente, o motor para a expansão do Evangelho. Anônimos e leigos cheios do Espírito levaram a mensagem de Jesus para além das fronteiras de Israel, alcançando cidades como a de Antioquia. Este estudo nos convida a refletir sobre a providência de Deus, que usou pessoas simples para realizar grandes feitos, e sobre a importância de sermos, hoje, uma igreja que age com a mesma coragem, fé e ousadia, disposta a levar as boas-novas a toda criatura, em qualquer tempo e circunstância. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.

TEXTO ÁUREO
Contudo, alguns dos discípulos que foram de Chipre e Cirene até Antioquia começaram a anunciar aos gentios as boas-novas a respeito do Senhor Jesus. (At 11.20 NVT).
Esse texto se insere em um contexto maior, no qual observamos o movimento do evangelho saindo de Jerusalém em direção aos confins da terra, conforme o plano estabelecido por Deus em Atos 1.8. Nesse percurso, a cidade de Antioquia ocupa um lugar especial na história da igreja, pois foi ali que o evangelho chegou pela primeira vez fora dos limites de Jerusalém, tornando-se um marco no avanço missionário. A partir desse ponto, a narrativa de Lucas nos mostra como Deus conduziu sua igreja a ultrapassar barreiras culturais e geográficas, abrindo caminho para a missão entre os gentios. Para compreender melhor essa transição e seu impacto, vejamos o esboço da passagem que será analisada:
1. O Evangelho se expande entre os judeus (At 11.19).
2. O Evangelho se expande entre os gentios (At 11.20,21).
3. O Evangelho se expande com o Ministério de Barnabé (At 11.22-24).
4. O Evangelho se expande com a ajuda de Saulo (At 11.25-26).

VERDADE PRÁTICA Faz parte da missão da Igreja a evangelização de povos não alcançados.
Texto bíblicos que demonstram, de forma clara, a missão da igreja.
Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos. (Mt 28.19-20 NAA). Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra. (At 1.8 NAA). Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestes brancas, com ramos de palmeira nas mãos. (Ap 7.9 NAA).

1. UMA IGREJA COM CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA
1.1 O Evangelho para além da fronteira de Israel.
A LIÇÃO DIZ: Lucas abre essa seção de seu livro fazendo referência aos cristãos, “os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia” (At 11.19). Observamos que essa passagem bíblica faz um paralelo com Atos 8.1-4 onde narra o início da perseguição em Jerusalém que gerou a dispersão cristã.
O texto bíblico diz:
Os que foram dispersos a partir da perseguição que começou com a morte de Estêvão se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a palavra a ninguém que não fosse judeu. (At 11.19 NAA).
1.1.1 “Os que foram dispersos”. A expressão não se refere aos apóstolos, mas majoritariamente aos judeus helenistas (como Estêvão), judeus da Diáspora, de língua grega e habituados ao convívio com gentios. Em contraste, os “hebreus” de Jerusalém eram, em geral, de língua aramaica e mais vinculados às tradições locais.
1.1.2 A perseguição como instrumento providencial. A perseguição posterior ao martírio de Estêvão catalisou a difusão do Evangelho (At 8.1), de modo que a igreja, ainda que dispersa, se espalhou e cresceu. A tradição cristã expressa essa dinâmica na máxima atribuída a Tertuliano: “o sangue dos mártires é semente”. Nesse sentido, o sofrimento contribuiu para a purificação e o amadurecimento da igreja, sem frustrar os desígnios de Deus.
1.1.3 Expansão geográfica. Os helenistas alcançaram regiões como Fenícia, Chipre e Antioquia. Sua formação e língua favoreceram a comunicação em centros helenizados, característica do mundo mediterrâneo do período, impulsionando o avanço para além da Judeia e de Samaria.
1.1.4 Limitação inicial da pregação. Apesar da expansão geográfica, Atos 11.19 observa que a mensagem era inicialmente anunciada “somente aos judeus”. Essa constatação prepara a transição para a evangelização dos gentios (cf. At 10; 11.20–26).
Implicações:
1.1.5 Devemos confiar na soberania de Deus, sabendo que, mesmo por meio de “caminhos tortos”, sofrimentos ou circunstâncias que parecem desfavoráveis, Ele está realizando Seus planos e propósitos.
1.2 Cristãos dispersados, mas conscientes de sua missão.
A LIÇÃO DIZ: Esses cristãos dispersados, após fugirem de uma perseguição feroz, não esconderam a sua fé. Aonde chegavam, anunciavam a Palavra de Deus (At 11.19,20). Foi assim que eles deram testemunho do Evangelho na Fenícia, Chipre e Antioquia. O que vemos são cristãos conscientes da missão de testemunhar de sua fé onde quer que estivessem. Vamos destacar alguns pontos importantes que devem ser aprofundados em classe:
1.2.1 Não negaram a fé diante do sofrimento. A figura mais injustiçada na igreja e no contexto cristão é Jesus. É mais frequente do imaginamos que, diante da adversidade, muitos crentes contemporâneos desertarem da fé que professam colocando a culpa no Senhor. Em outras situações, afastam-se de Cristo e da igreja porque não recebem oportunidades, ou por descontentamento com a liderança, seja por não apreciarem o dirigente, seja por não ocuparem tal função, chegando a abandonar o Senhor. Essa não era a postura dos cristãos perseguidos: mesmo enfrentando privações, perdendo bens e sendo compulsoriamente desalojados de seus lares, faziam questão de se identificarem como cristãos.
1.2.2 Anunciavam a Palavra de Deus. Há pelo menos duas formas de anunciar a Palavra de Deus. Em primeiro lugar, por meio da proclamação oral. Em segundo lugar, por meio do testemunho de vida. Fica nítido que os cristãos dispersos cumpriram bem essa missão de ambas as formas. Desse modo, é importante que todos façamos a seguinte reflexão: Tenho vivido o evangelho na prática? Meus amigos, minha família, meus filhos e cônjuge me veem como um cristão? Não menos importante, é a reflexão a respeito do que penso ser a mensagem do Evangelho. Você já refletiu sobre o que de fato entende por evangelho?
1.2.3 Consciência missionária. Devemos sempre nos perguntar o que ser um crente avivado? O que é uma igreja avivada? Você saberia responder a essas perguntas? Uma das grandes características de que esses crentes estavam desfrutando de um avivamento pentecostal genuíno era o desejo ardente compartilhar Jesus com todas as pessoas em todos os lugares.
1.3 Cristãos leigos, mas capacitados pelo Espírito.
A LIÇÃO DIZ: O texto deixa claro que foram esses cristãos “comuns” os fundadores da igreja de Antioquia, uma das mais relevantes e importantes do Novo Testamento (At 13.1-4). Eram cristãos anônimos e leigos. Eles não são contados entre os apóstolos, diáconos ou presbíteros. Contudo, eles foram usados por Deus para fundar aquele trabalho e foram bem-sucedidos porque “a mão do Senhor era com eles” (At 11.21), conforme Lucas destaca.
Michael Green destaca que:
Em Atos não foram os apóstolos que levaram o evangelho para todas as partes, mas, sim, os missionários “amadores”, as pessoas que foram expulsas de Jerusalém em decorrência da perseguição que começou após o martírio de Estêvão (At 8.4). Foram estes que avançaram pela planície costeira até a Fenícia, atravessaram o mar até Chipre, e chegaram até Antioquia, no norte (At 11.19-21). Eles eram tão evangelistas quanto qualquer apóstolo. Na verdade, foram eles que deram os dois passos revolucionários de pregar a gregos que não tinham vínculo com o judaísmo, e de iniciar a missão aos gentios, a partir de Antioquia. Não foi um esforço planejado. Foram expulsos de sua base em Jerusalém, e se espalharam por todas as terras difundindo as boas-novas que tinham lhes trazido alegria, descanso e uma vida nova. De modo geral, a pregação não deve ter sido formal, mas através da conversa informal com amigos e novos conhecidos, em casas e tavernas, nas ruas e ao redor das barracas do mercado. Eles foram por todos os lados falando do evangelho, de maneira espontânea, com o entusiasmo e a convicção de quem não recebe paga mento para dizer esse tipo de coisa. Em consequência, foram levados a sério, e o movimento se espalhou, principalmente entre as classes mais baixas.
Implicações:
1.3.1 Pare de esperar pelo momento “perfeito” ou pela oportunidade de fazer um grande sermão em um congresso ou cruzada. Em vez disso, seja intencional em suas conversas diárias. Viva uma vida de evangelista.
1.3.2 Deus usa quem está disponível, independentemente de seu status ou cargo na igreja. Portanto, destaca a importância dos leigos na missão de proclamar o evangelho.

2. UMA IGREJA COM VISÃO TRANSCULTURAL
2.1 A cultura grega (helênica).
A LIÇÃO DIZ: A Bíblia nos conta que alguns cristãos que tinham sido espalhados pelo mundo chegaram a “Antioquia, falaram aos gregos” (At 11.20). Essa expressão, “falaram aos gregos”, é muito importante. De acordo com estudiosos, ela explica que esse foi o primeiro momento em que cristãos judeus falaram de Jesus para pessoas que não eram judias, adoravam outros deuses e não seguiam o Judaísmo. Isso mostra que a igreja começou a levar a mensagem de Jesus para além das fronteiras da Palestina, chegando a um mundo totalmente diferente, onde as pessoas não conheciam a fé judaica.
O texto bíblico diz:
Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor. (At 11.21-22 NAA).
2.1.1 O Evangelho rompe barreiras culturais (v.20). Em contraste com os judeus que evangelizavam apenas outros judeus (v.19), alguns discípulos oriundos de Chipre e Cirene proclamam o evangelho a gregos, ou seja, gentios helenistas em Antioquia. Isso marcou uma mudança histórica, uma extensão intencional da missão para além do mundo judaico.
2.1.2 O centro da mensagem é o Senhor Jesus (v.20b). Já imaginou Paulo, Pedro ou João ouvindo as mensagens que são pregadas em nossas igrejas nos dias de hoje? Eles aprovariam? Jesus ou o homem é o centro? Agora, pense comigo: Embora os apóstolos não possam ouvir os sermões atuais, Jesus pode. Além ouvir cada palavra pronunciada pelos pregadores atuais, ele também sonda o coração. Meu Deus, tenha misericórdia de nós.
2.1.3 O sucesso da obra missionária depende da mão do Senhor (v.21). No Antigo Testamento, a expressão “a mão do Senhor” possui dois sentidos. Primeiro, refere-se ao poder de Deus manifestado em juízo (Êx 9.33; Dt 2.15; Js 4.24; 1Sm 5.6; 7.13). Também designa o poder de Deus expresso em bênção (Ed 7.9; 8.18; Ne 2.8, 18). Nesse caso, está associada à bênção divina, de modo que muitos se converteram ao Senhor. Novamente, como em quase todos os lugares onde Jesus Cristo era pregado, a resposta foi ampla (At 2.47; 4.4; 5.14; 6.1, 7; 9.31, 35, 42; 11.24; 14.1, 21; 16.5; 17.12). As pessoas não apenas criam intelectualmente, mas também se voltavam de seus pecados ao Senhor (1Ts 1.9). Como sempre, a fé é inseparável do arrependimento, evidenciado em uma vida transformada.
2.2. Contextualizando a mensagem.
A LIÇÃO DIZ: Podemos ver aqui um exemplo de como os primeiros cristãos adaptavam a mensagem ao contexto em que estavam. Lucas nos conta que eles “anunciavam o evangelho do Senhor Jesus” (At 11.20). O texto é curto e direto, mas esses cristãos estavam pregando para pessoas que não eram judias. Isso significa dizer que eles não podiam simplesmente usar o Antigo Testamento para provar que Jesus era o Messias prometido, porque isso não faria sentido para aquele público. Diferente dos judeus e samaritanos, que já esperavam um Messias (At 2.36; 5.42; 8.5; 9.22), os gentios não tinham essa mesma expectativa. Além disso, esses cristãos também não mencionam costumes judaicos, como a circuncisão, que Estêvão citou em seu discurso (At 7.51), porque isso não fazia parte da cultura dos gentios. Em vez de enfatizar que Jesus era o Messias, eles destacavam que Ele é o Senhor. Ou seja, estavam dizendo que os pagãos precisavam deixar seus falsos deuses e se voltar para o único e verdadeiro Senhor (At 14.15; 26.18,20).
O que é contextualizar? Adaptar linguagem, ponto de partida, exemplos e estrutura retórica ao público, preservando o conteúdo do evangelho. Muda-se a forma, não a essência. O núcleo permanece: pecado humano, morte e ressurreição de Jesus, chamado ao arrependimento e fé, senhorio de Cristo e graça de Deus. Exemplos:
• Paulo fala a judeus em Antioquia da Pisídia e começa pela história de Israel e pelas promessas de Davi. Cita as Escrituras que aquele público já respeitava e então apresenta Jesus como o cumprimento, com morte, ressurreição e perdão oferecido a quem crê (Atos 13.16 a 41). A forma foi judaica, o conteúdo foi o evangelho.
• Exemplo bíblico de contextualização no campo pagão. Em Listra o povo quer oferecer sacrifícios a Paulo e Barnabé. Paulo então não cita a Torá, fala do Deus Criador que manda chuva, dá colheita e enche de alegria os corações, e chama todos a deixarem os ídolos e se voltarem ao Deus vivo (Atos 14.15 a 17). A porta de entrada foi a criação e a providência, porque era o que eles viam todo dia. O chamado continua o mesmo: abandonar falsos deuses e entregar-se ao Senhor. O que é alterar a mensagem? Modificar o conteúdo do evangelho, acrescentando exigências soteriológicas estranhas (por exemplo, obras rituais) ou suprimindo elementos essenciais (por exemplo, ressurreição, exclusividade de Cristo, arrependimento). Aqui não é forma; é substância.
Exemplo bíblico de alteração da mensagem por acréscimo. Os judaizantes diziam que crer em Jesus não bastava, era preciso circuncidar-se para ser aceito por Deus.
• Exemplo bíblico de alteração da mensagem por subtração. Alguns em Corinto negavam a ressurreição. Paulo mostra que, se a ressurreição não existe, Cristo não ressuscitou e o evangelho desmorona. Cortar a ressurreição tira o coração da mensagem. Isso não é contextualizar, é esvaziar o que salva (1 Coríntios 15).

 

3. UMA IGREJA QUE FORMA DISCÍPULOS
3.1 A base do discipulado.
A LIÇÃO DIZ: Ao serem informados de que o Evangelho havia chegado a Antioquia (At 11.22), a partir de Jerusalém, os apóstolos enviaram Barnabé para lá. Chegando ali, Barnabé viu uma igreja viva e cheia da graça de Deus (At 11.23). Como um homem de bem e cheio do Espírito Santo, Barnabé os encorajou na fé (At 11.24). Contudo, logo se percebeu que aquela igreja precisava de mais instrução, ou seja, precisava ser discipulada. Com esse propósito, Barnabé foi em busca de Saulo para que o auxiliasse nesta missão. E assim foi feito: “E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente” (At 11.26).
Nem a salvação do eunuco etíope nem a de Cornélio e sua família preparou os crentes de Jerusalém para as conversões generalizadas de gentios em Antioquia. Quando a notícia sobre eles chegou aos ouvidos da igreja em Jerusalém, decidiram enviar um representante para investigar. Assim, enviaram Barnabé para Antioquia. Barnabé apareceu pela primeira vez em Atos 4, quando vendeu alguns bens para suprir as necessidades de outros crentes. Por sua influência, Paulo foi finalmente aceito pela igreja de Jerusalém (At 9.27). Ele era um líder e mestre na igreja, um homem bom, gentil e generoso, conforme seu nome, que significa “filho da exortação”. A escolha do representante foi crucial. O envio de alguém rigidamente legalista poderia ter sido desastroso. Barnabé, porém, tinha as qualificações necessárias para a missão. O versículo 24 o descreve como “homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé”. Ele possuía as qualidades espirituais indispensáveis para discernir o que estava acontecendo. Barnabé também era o homem certo porque, como alguns dos fundadores da igreja de Antioquia, era judeu cipriota (At 4.36–37). Não seria percebido como um estranho, mas como alguém “da casa”. A graça de Deus é invisível, mas seus efeitos são claramente perceptíveis. Quando Barnabé chegou a Antioquia e viu a graça de Deus, isto é, a evidência de sua obra salvadora entre eles, alegrou-se. Outros judeus poderiam ter se incomodado com a conversão de gentios, mas não Barnabé. Ver almas gentias perdidas sendo acrescentadas ao Reino trouxe-lhe imensa alegria. Em seguida, começou a exortá-los, a todos, a permanecerem fiéis ao Senhor com firmeza de coração. Essa exortação expressa a preocupação que todo pastor nutre pelos novos convertidos: que perseverem na fé. Em Atos 13.43, Paulo e Barnabé exortaram os novos crentes a “permanecer na graça de Deus”. Em 14.22, exortaram os cristãos de Listra, Icônio e Antioquia a “permanecer na fé”. A única maneira de permanecer fiel ao Senhor é continuar em sua Palavra, por meio da qual Ele se revela ao crente. O apóstolo João escreveu: “Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai” (1Jo 2.24). Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31). É pela Palavra que o Espírito Santo, o Mestre da verdade que habita em nós (1Jo 2.27), instrui os crentes. Mais uma vez, Lucas narra o progresso da igreja, sempre em expansão, atualizando seu crescimento. Por meio do ministério contínuo em Antioquia, um número considerável foi trazido ao Senhor. A colheita era grande demais para Barnabé lidar sozinho, então ele foi buscar ajuda. Pensou imediatamente no melhor homem para a tarefa e partiu para Tarso a fim de procurar Saulo. Não foi fácil encontrá-lo. Vários anos haviam se passado desde que Saulo fugira de Jerusalém para sua terra em Tarso (At 9.30). Ele aparentemente sofrera perdas por causa de sua fé (Fp 3.8), e pode ter sido forçado a se deslocar. O verbo grego anazēteō, “procurar”, sugere uma busca trabalhosa por parte de Barnabé. Por fim, Barnabé encontrou Saulo e o levou para Antioquia. Esses dois homens, ricamente dotados, formaram uma poderosa equipe de ministério. Diante do desafio de pastorear um grande número de novos crentes em um ambiente pagão hostil, a solução foi reunir-se com a igreja durante um ano inteiro, período no qual ensinaram muita gente. Ao contrário do que se vê em muitos contextos eclesiásticos atuais, eles sabiam que a necessidade mais urgente daqueles novos cristãos era ser instruídos na Palavra de Deus. Nas grandes reuniões dos crentes em Antioquia, Barnabé e Saulo fizeram exatamente isso. O exemplo deles é um passo importante para a igreja contemporânea. Ensinar a Palavra de Deus está no coração do ministério da igreja. Em Atos 6 fica claro que ensinar a Palavra é a prioridade maior dos líderes. Barnabé e Saulo cumpriram bem essa missão. Os líderes da igreja em Antioquia mencionados em Atos 13 foram, provavelmente, seus discípulos.

3.2 Denominados de “cristãos”.
A LIÇÃO DIZ: Os cristãos de Jerusalém haviam sido chamados na igreja de “irmãos” (At 1.16); “crentes” (At 2.44); “discípulos” (At 6.1) e “santos” (At 9.13). Também passaram a ser identificados tanto pelos de dentro da igreja como pelos de fora dela como aqueles que eram do “Caminho” (At 9.2; 19.9,23; 22.4; 24.14,22). Agora em Antioquia são chamados de “cristãos” (At 11.26). O termo “cristãos” tem o sentido de “pessoas de Cristo”. Lucas acrescenta, então, uma nota histórica: “Em Antioquia, os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez” (At 11.26). O termo significa “do partido de Cristo” e foi inicialmente usado em tom de escárnio. Pedro encorajou os que sofriam “como cristãos” a não se envergonhar, mas, nesse nome, glorificar a Deus (1Pe 4.16). O que começou como um apelido pejorativo tornou-se, em pouco tempo, uma honra para a igreja primitiva. O historiador Eusébio registra o relato do mártir Sanctus, que respondia a todas as perguntas de seus torturadores simplesmente: Eu sou um cristão” ( História Eclesiástica V, I [Grand Rapids: Baker, 1973], 172).
3.3 A identidade cristã.
A LIÇÃO DIZ: O que realmente define um cristão não é apenas um nome ou um rótulo, mas sim sua vida, sua fé e suas atitudes. Em nosso tempo, chamar-se cristão virou um rótulo cultural. Contudo, nome não salva. O Novo Testamento adverte que há quem confesse com os lábios e até exerça atividades religiosas, mas não faz a vontade do Pai. Jesus chama isso de autoengano: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor…” (Mt 7.21–23). O problema não é desconhecimento total do evangelho, mas falta de nova vida em Cristo. Há gente convencida que nunca foi convertida: conhece doutrina, canta, prega, frequenta os cultos, mas não nasceu do alto, não permanece em Cristo e não dá fruto digno de arrependimento (Jo 3.3–8; 5.1–8; Mt 3.8).
Quais são, então, as marcas que distinguem o cristão verdadeiro do mero frequentador de igreja? Em primeiro lugar, uma vida transformada, marcada por arrependimento contínuo e crescimento em santidade. Há luta real contra o pecado, mortificação do velho homem e revestimento do novo, criado segundo Deus em justiça e verdade (Rm 8.13; Cl 3.5–10; Ef 4.22–24). Em segundo lugar, uma fé obediente e perseverante, que submete pensamentos, afetos e decisões à Palavra de Deus, permanece na comunhão do corpo de Cristo, mesmo sob provações (At 2.42; Jo 14.21; Hb 10.23–25). Em terceiro lugar, atitudes que evidenciam o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. É por esses frutos, e não por títulos, que os discípulos são reconhecidos no mundo (Gl 5.22–23; Mt 7.16; Jo 13.35; 1Pe 2.12).
CONCLUSÃO
A perseguição não deteve a obra; Deus a converteu em impulso missionário. Em Antioquia, leigos cheios do Espírito anunciaram Cristo aos gentios e a mão do Senhor agiu, pois muitos creram e voltaram para o Senhor. A igreja de Jerusalém enviou Barnabé para investigar o que estava acontecendo. Barnabé chamou Saulo e juntos discipularam os novos convertidos. A missão da igreja continua: proclamar, acolher, ensinar e enviar, confiando na providência de Deus, até que povos, línguas e nações conheçam o Cordeiro de Deus.

REFERÊNCIAS
GONÇALVES, José. A igreja em Jerusalém: doutrina, comunhão e fé: a base para o crescimento da igreja em meio às perseguições. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.
ALISSON, Greg. Eclesiologia. São Paulo: Vida Nova, 2021.
OSBORNE, Grant. Atos dos Apóstolos. Natal, RN: Carisma, 2022.
LOPES, Hernandes Dias. Atos: a ação do Espírito Santo na vida da Igreja. São Paulo: Hagnos, 2012.
STOTT, Jonh. A mensagem de Atos: até os confins da terra. 1. ed. São Paulo: ABU Editora, 1994.
STAMPS, Donald C. (Org.). Bíblia de Estudo Pentecostal: Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, revista e corrigida. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
TENNEY, Merrill C. (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. Tradução de Luís Aron de Macedo e Degmar Ribas Júnior. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. São Paulo: Editora Vida, 1996.
KEENER, Craig S. Comentário Exegético Atos: introdução e 1.1–2.47. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2022.
MESQUITA, Antônio. Mensageiro da Paz: Os artigos que marcaram a história e a teologia do movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
NOTAS 01
GONÇALVES, José. A igreja em Jerusalém: doutrina, comunhão e fé: a base para o crescimento da igreja em meio às perseguições. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.
Talvez uma das maiores tragédias da igreja de hoje é que temos muitos cristãos, mas poucas testemunhas de Jesus. (GONÇALVES, 2025, p. 145).
Em segundo lugar, Lucas acrescenta no seu texto a informação de que “a mão do Senhor era com eles”. No contexto da teologia carismática de Lucas, essa observação é uma forma de referir-se à capacitação do Espírito Santo no testemunho daqueles crentes. A “mão do Senhor” aqui tem o mesmo peso da “mão do Senhor” que vinha sobre o profeta Ezequiel (Ez 3.22; 37.1). É uma referência à capacitação profética que estava sobre os primeiros missionários cristãos. (GONÇALVES, 2025, p. 146).

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