28 de junho de 2026 16:56

Leandra Leal: ‘Meu trabalho é minha cura’

Leandra Leal cresceu sob os olhos do público. Filha de Ângela Leal, começou a atuar ainda menina, estourando com o filme A Ostra e Vento, em 1997. A adolescência foi marcada por muito trabalho – e muitas inseguranças e dúvidas sobre quem era. Atriz premiada, ela resolveu lançar um olhar sobre a época em A Vida Pela Frente, série em dez episódios do Globoplay, da qual também assumiu a direção, um sonho antigo. “Foi um grande processo de cura”, diz. Na trama, o foco principal é em seis dos adolescentes de uma escola fictícia da Zona Sul carioca, bem parecida com a que Leandra e as amigas Rita Toledo e Carol Benjamin, que criaram com a ela a série, estudaram. Temas como drogas, orientação sexual, responsabilidade afetiva e saúde mental são tratados sem julgamento ou paternalismo. A empatia é o olhar escolhido pela atriz de 40 anos, que dirigiu com Bruno Safadi um elenco jovem, que ela fez questão que vivesse uma boa experiência no set e tivesse amparo emocional.Dos atores, alguns com metade de sua idade, Leandra viu perplexidade com atitudes que era mais naturalizadas na virada do ano 2000, quando se passa a série. Se viu no papel de explicar que sua geração não tinha ainda repertório e ferramentas para identificar alguns dos erros da época. Deles, incorporou sugestões em alguns arcos – um exemplo é o da única aluna negra na escola. O tema é caro a Leandra, que mãe branca de uma filha negra, Júlia, hoje com 8 anos, que ela teve com o ex-marido, Alê Youssef, se educou, se instrumentalizou e entrou na luta antirracista pela menina e por um país melhor.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

“A Júlia recolocou meu olhar no mundo. A questão racial no Brasil se sobrepõe a qualquer outra. Ser filho de uma pessoa famosa, ter uma condição social boa, não isenta ninguém de sofrer racismo”, diz a atriz, que tem a luta antirracista como prioridade. “Não posso deixar que a Júlia confunda o racismo com alguma coisa com ela. Se sofrer racismo, ela tem que identificar que aquilo ali é um problema da pessoa que está praticando e que é um crime”, frisa Leandra, que pensa em aumentar a família com o marido, o fotógrafo e documentarista Guilherme Burgos – são deles as fotos que ilustram essa capa. Atuando ao lado da mãe em A Vida pela Frente, tem três projetos como atriz para estrear: Os Enforcados, filme em que é a mulher de um bicheiro, sem data de lançamento ainda; Justiça 2, série na qual volta como a ambiciosa Kellen e que chega ao público em outubro; e Betinho – No Fio da Navalha, que entra no Globoplay ainda este ano contando a trajetória do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que lutou pelo fim da fome no Brasil, em um movimento que deu origem ao Ação Cidadania.

“Quando soube do projeto, pensei ‘pelo amor de Deus, tenho que fazer parte dessa história’: anos 90, Rio de Janeiro, eu fazendo movimento estudantil, ele era uma figura muito importante”, diz Leandra, que também quer montar o documentário que fez com a mãe durante a pandemia. Já a o filme das Empreguetes a sequência da novela Cheias de Charme, pode demorar a virar realidade. “Queremos, mas não tem nada certo”, avisa. Otimista, mas realista, olha para o futuro com esperança. “Temos desafios sociais gigantescos, mas pelo menos temos agora um caminho democrático pela frente”, avalia, sobre a mudança política após quatro anos. “Temos agora um governo que vê a cultura como algo que realmente é muito importante para construir a identidade de um povo, a subjetividade, e o quanto ela pode ser aliada de vários outros setores, como a educação e a saúde”, afirma.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Como foi fazer A Vida pela Frente e revisitar, de certa forma, a jovenzinha que você foi?
A série foi feita por isso. Foi passar de novo por aqueles momentos como a adulta que sou hoje, olhando para esse momento do passado com tudo que a gente vai acumulando ao longo da vida. Com senso crítico e também com o ponto de vista de mãe, da minha personagem, Teresa, nessa fase. Foi um grande processo de cura, mesmo.

Cura do quê?
De todos os sentimentos e confusões que a gente tem na adolescência. É uma fase muito incrível, muito rica, com muitas descobertas, com muita intensidade. Mas também é um processo doloroso, de descoberta, onde você também é apresentado a vários sentimentos que vão te acompanhar ao longo da vida. E, às vezes, há experiências que são difíceis, que você não tem repertório suficiente ainda para viver e entender aquilo.

Quais são as mágoas, vamos dizer assim, que carrega daquela época?
Eu era muito intensa, e o fato de eu ter perdido meu pai quando eu tinha 12 anos [o advogado Julio Braz morreu em 1994 de complicações cardíacas], me fez viver a adolescência de uma forma muito específica, com muita intensidade. É o fator mais marcante dessa época.

Você tinha dificuldade de se encaixar?
Tinha, mas eu tive muita sorte de começar a trabalhar cedo. Rapidamente encontrei uma turma no trabalho com pessoas que tinham o mesmo interesse. A arte na minha adolescência foi uma ferramenta de cura muito grande, fez com que eu passasse por várias questões da época de uma forma mais leve e entendendo a ferramenta que meu trabalho também teria na minha vida: além de uma realização, é um lugar onde eu posso ressignificar essas experiências.

Naquele final da adolescência quem era você?
Era uma menina muito criativa, sempre [fui]. No final da adolescência que eu comecei a produzir, já tinha essa vontade dentro de mim de criar. Era muito inquieta, e trabalhava muito, fiz por um ano [a novela] O Cravo e a Rosa. Ao mesmo tempo eu curtia muito, era agregadora, estava sempre inventando projetos, festas. E eu tinha essa coisa de viver todas as experiências pela primeira vez com aquele sentimento de ‘ai, meu Deus, é a última [vez]’, porque aquilo nunca tinha acontecido antes e eu ainda não tinha como entender que ia se repetir, que iriam acontecer outras vezes.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

De onde veio esse desejo de falar sobre a adolescência?
Eu, a Rita Toledo e a Carol Benjamin, que são minhas sócias, temos memórias muito fortes desse período, do início da nossa amizade. Quando a gente é adolescente, forma uma [outra] família, aqueles amigos tomam importância muito grande. Queríamos muito falar sobre isso com verdade, sensibilidade e responsabilidade, do quanto é difícil, de como a entrada na vida adulta e a busca dessa identidade também são dolorosas. Tem várias experiências ali que são nossas.

A série tem uma cena sua com sua mãe, que vive Dona Olga, avó de um dos personagens. Para quem cresceu vendo televisão, vendo sua mãe, vendo você, é um momento muito significativo como telespectador. Você pensou em Ângela desde o começo para o papel?
Queria voltar a trabalhar com minha mãe, mas ela estava meio que não querendo mais atuar. E eu fui adiando, só quis chamar no momento em que achei que ela diria sim. Falei ‘pô, mãe, a gente vai fazer a série, tem um personagem que é para você; não precisa fazer, mas se quiser dar uma lida no roteiro…’. E ela leu e ficou super emocionada, porque tem muita da gente ali. Falou ‘não tem como não fazer’.

“Queria voltar a trabalhar com minha mãe, só quis chamar no momento em que achei que ela diria sim”

Tem algo de vocês na Tereza, na Liz?
Tem, claro. A minha mãe ela chega a ser uma pessoa tão controladora como a Tereza, mas a gente viveu uma relação próxima – somos até hoje. Tudo que está ali na série tem coisas que a gente viveu, mas também que viu, que ouviu. E não só de nós três [Leandra, Carol e Rita]: foi um trabalho muito coletivo e colaborativo, entraram os roteiristas, o Bruno, com quem eu dirigi. Os atores trouxeram muitas vivências .

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Por exemplo?
A Muse Maya trouxe muitas coisas para sua personagem, a Marina. Caímos para dentro, reescrevemos o arco dela, que é a única menina negra da escola e sofre racismo. Tentamos deixar a discriminação clara, mas ali existe o contexto da época. Debatemos muito sobre isso: a gente não tinha essa discussão no lugar que existe hoje.

Em que sentido?
A Marina mesmo não teria as ferramentas, o repertório para ter essa consciência como [uma menina de sua idade] hoje. Ao mesmo tempo a gente falou ‘cara, será que ninguém vai perceber que o menino não fica com ela na frente de todo mundo por isso?’ [pelo racismo]. No caso do JP [personagem que se descobre gay], eu lembro do elenco dizendo ‘isso nunca aconteceria no [meu]colégio’, e eu ‘como assim, o Brasil continua sendo um país super homofóbico’, expliquei que naquela época era realmente isso: o menino chegava para o outro e falava ‘que isso, boiola’. Foi muito importante ver como o elenco, que é de outra geração, trazia muita indignação. Quisemos retratar essas situações sem normalizá-las mostrando como elas são absurdas. A gente tem que olhar para esse momento com senso crítico de hoje em dia, mas entendendo que naquele momento era assim.

Um gap geracional.
Para minha a minha geração não existia esse repertório há 20 anos, mas ela trazendo essa discussão. E hoje em dia eu vejo esses adolescentes e é interessante perceber [a conscientização]. Mas não é algo se pode generalizar e falar que temos um avanço total na sociedade porque não temos. O Brasil é um país muito diverso. Mas a gente já tem algumas bolhas em que esses assuntos estão sendo tratado de outra forma.

A série mostra jovens usando drogas, sem fazer valor de juízo, em cenas pouco comuns com o que se está acostumado na TV aberta ou mesmo tramas com personagens tão jovens. Por que esse recorte?
O objetivo é falar sobre assuntos que tocam os adolescentes de uma forma real, verdadeira, direta. A gente tem dois personagens que passam por um problema mesmo em relação [às drogas] e quisemos mostrar essa curva toda: esse primeiro momento de ‘deslumbre’, depois desse lugar do vício, da depressão. A droga é um problema de saúde.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

E também aborda o tema da saúde mental…
É um tema muito importante a ser discutido, principalmente nessa geração pós-pandêmica. Eu não estou falando sobre drogas [apenas], mas sobre todo o guarda-chuva da saúde mental. Os adolescentes passam mais tempo na escola que em casa durante a semana, e o colégio tem que estar muito atento isso, de ser esse lugar também de diálogo e de acolhimento, principalmente.

Em uma das cenas de A Vida pela Frente, sua personagem diz que não reconhece mais a filha. Você se preocupa com um dia se ver nesse lugar de distanciamento da sua filha?
Não sei muito bem, te confesso, como vou lidar, porque é muito diferente mesmo para mim. A tecnologia, por exemplo, pode ser muito aliada, mas também identifico várias coisas que ela pode fazer mal mesmo, a ansiedade, o lugar da comparação com o outro. Espero muito que o diálogo que eu planto agora com a Júlia, seja forte o suficiente para que na adolescência a gente passar por isso de uma forma mais comunicativa, digamos assim, e que ela tenha sempre a segurança de poder falar, conversar, e pedir ajuda. Mas é algo que toda mãe e toda filha adolescente passam, que é individuação do sujeito.

A Vida pela Frente também é uma forma de mostrar para Júlia daqui alguns anos como que foi a sua adolescência? Como era aquela geração da Leandra e de onde ela veio?
Não pensei nisso confesso, mas achei interessante (risos). Eu vejo a série como uma forma que esses adolescentes encontrem acolhimento nesse momento e para o adulto lembrar ‘caraca, também já passei por isso, não soube o que fazer’ e olhe com mais empatia para o adolescente.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Você é mãe de uma menina preta, de que forma isso te modificou e impactou sua luta antirracista?
Isso me revolucionou. A Júlia recolocou meu olhar no mundo. Óbvio que a maternidade faz isso, mas o fato dela ser uma menina preta fez uma revolução no meu mundo. Poder enxergar o mundo através do olhar dela e do olhar das pessoas para ela fez uma revolução muito necessária, que eu acho que toda pessoa branca deve passar. É um lugar muito doloroso também para mim, confesso.

O fato de você ser uma pessoa pública, conhecida, ameniza em algum grau o racismo?
Infelizmente, a questão racial no Brasil se sobrepõe à qualquer outra. Óbvio que Júlia tem vários privilégios, de classe, por ser minha filha, também, mas a questão racial no Brasil ela se sobrepõe a tudo. Ser filho de uma pessoa famosa, ter uma condição social boa, não isenta ninguém de sofrer racismo, infelizmente.

Na prática, então…
O fato de eu estar ali protege ela, mas a minha filha não tem uma existência colada comigo. Júlia já tem 8 anos, tem escola, curso, tem a vida dela. Ser minha filha não é um manto protetor e isso [não pode proteger a filha] é muito difícil na minha maternidade. Realmente para mim a luta antirracista é uma prioridade mesmo. É algo em que eu me envolvo profundamente, que nos círculos que ela frequenta eu tento estar sempre atenta, contribuindo com atitudes, também, nas esferas que eu tenho acesso.

Você já conversa com Júlia sobre racismo?
Eu não fico batendo na tecla da dor com ela. Eu tenho muito a coisa do reforço positivo – pela literatura de referências, a escola dela tem um pensamento assim, os professores dela fora da escola também são negros. Eu sempre procuro ter essas referências para ela, porque Júlia é uma menina preta crescendo em uma família branca. Eu procuro fornecer para ela esse lugar positivo de referências. A literatura também é uma grande aliada para isso. Claro que Júlia tem 8 anos e as conversas são adequadas à sua idade. Fico atenta ao que ela está trazendo e compreendendo, o que ela quer saber.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Ou seja, um movimento diário.
O racismo é uma coisa que a gente tem que, enquanto branquitude, se assumir e lutar. Assumir todos os privilégios que fizeram eu estar aqui onde eu estou. E no momento que você consegue entender e romper com isso, realmente entra na luta antirracista. Enquanto você só fica falando ‘eu não sou racista’, você compactua com o racismo, porque não está entendendo o mecanismo, a estrutura que existe e que faz com que o racismo se perpetue e te dê privilégios.

Como era antes da Júlia?
Eu tinha uma luta, eu me considerava superconsciente, tinha isso na minha pauta, mas, de fato, assumo que a chegada da Júlia fez para mim [a luta antirracista] ser o principal assunto, porque é algo que transforma nossa sociedade. É impossível continuar vivendo com a desigualdade que temos. É algo [o fim do racismo] que precisamos para construir um mundo melhor. Para mim isso é a chave de muita [ênfase] coisa no Brasil. A chegada da Júlia me fez correr atrás de um letramento também maior de estudo, de vocabulário. Até então eu lia coisas pontuais. Acho importante que ela saiba o que é o racismo porque eu quero que que a minha filha cresça com uma autoestima. E eu não posso deixar que a Júlia confunda o racismo com alguma coisa com ela. Isso é um problema social, não é um problema dela. Então, se Júlia sofrer racismo, ela tem que identificar que aquilo ali é um problema da pessoa que está praticando e que é um crime.

“A chegada da Júlia me fez correr atrás de um letramento maior de estudo, de vocabulário”

Depois que você separou, teve uma hora ali que foi a Leandra e a Julia. Como foi passar para Leandra, Julia e Guilherme?
A Júlia tem o pai dela, o Alê é muito presente. A gente [Leandra, Júlia e Guilherme] teve um acelerador que foi a pandemia. Houve um momento que ficou todo mundo junto confinado, o Alê estava em São Paulo, a gente no Rio. Acabamos indo para a casa da minha mãe em Búzios [no litoral do Rio], ficamos quatro meses todo mundo ali com ela..

Tinha que dar certo, né?
Eu fui madrasta no meu primeiro casamento de duas crianças que são meus amigos até hoje. Eu tenho uma mega relação com os meus enteados. Eu conheço as dores e as delícias de madrasta. Teve essa vantagem de eu entender o outro lado e ter vivido isso durante oito anos. Fui também fazendo um meio de campo. O Gui é super respeitoso com a figura do pai [Alê], e super comprometido com a Júlia. Eu acho que só soma. Quando tem amor, quando tem verdade, todo mundo interessado em fazer o bem, só soma.

Você uma pessoa que preza muito por sua vida privada. O que pode falar do seu casamento?
Eu sou muito feliz. Eu não gosto muito de ficar falando muito [do casamento] (risos), mas eu e Gui temos uma parceria muito boa. A gente se impulsiona, é muito mão dada, torce muito um pelo outro. Eu acho isso muito legal. Na pandemia, além de ficarmos confinados, fizemos um filme, passávamos os dias criando com a minha mãe, com a Júlia batendo claquete, montando cenário com a gente. Foi divertidíssimo, e entendemos que temos uma parceria muito sólida de trabalho, o que para mim é importante.

Para você é importante estar com alguém que também entenda o seu trabalho e que te estimule?
O trabalho para mim é muito importante, porque perdi meu pai cedo, porque comecei muito cedo [como atriz]. Eu saí de um set para a missa de sétimo dia do meu pai. Meu trabalho é realmente minha cura. Foi um lugar que fez eu entender que existia a vida pela frente, ‘tá difícil agora, mas olha quanta coisa existe no mundo, quanta coisa eu vou viver, como eu ainda vou ser feliz de outras formas’. Meu trabalho me deu essa perspectiva, então é um porto seguro. E eu não paro de trabalhar, vivo criando, tendo ideias, escrevendo. Devo ser uma pessoa muito chata para quem não gosta de arte e cinema (risos), seria muito chato conviver comigo, eu acho.

“Eu não paro de trabalhar, devo ser uma pessoa muito chata para quem não gosta de arte e cinema”

Guilherme fez as fotos que ilustram esta capa, há uma maior cumplicidade em ser fotografado pelo seu parceiro?
Tem um olhar de amor também. Foi divertido, a gente gosta de criar junto, vamos fazer um ensaio, descobrir cantos, ângulos, formas de fazer. É nossa brincadeira. É outra abordagem, outra vibe, mas também adoro ser fotograda em estúdio.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Voltando à série, era um projeto de vida ser diretora?
Era um sonho. Eu fiz acho que 27 filmes e apenas três dirigidos por mulheres, essa direção feminina foi mais na televisão que no cinema. E toda vez que uma mulher abre uma porta outra mulher passa por essa porta. Tinha uma falta de imaginação, uma coisa minha de ‘ah, meu Deus, será [que posso dirigir]?’. Um receio, um excesso de dedos.

Mas pensava que não ia dar conta ou que como diretora você talvez não chegasse à altura da sua excelência como atriz?
Não, tinha mais a ver com ter visto pouco isso mesmo.

Você não tinha tantos exemplos de mulheres diretoras.
É. E tem também uma cobrança muito grande. Não foi fácil para mim fazer Divinas Divas, conseguir patrocínio, como também não foi fácil viabilizar A Vida pela Frente. Tem também uma coisa que fazem muito comigo agora que é ‘vai parar de ser atriz e ser diretora cada vez mais?’. Não vejo as pessoas fazendo isso com os homens que começaram a dirigir, não colocam na caixinha, não tem nenhum problema um ator que dirigiu ser as duas coisas. Pôxa, por que não posso as duas coisas também? Então para mim foi muito importante depois da série ter emendado três trabalhos como atriz. Eu sou uma atriz melhor, inclusive, depois de ter dirigido.

“Eu sou uma atriz melhor, inclusive, depois de ter dirigido”

 

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Você sente que tentar te colocar numa caixinha de diretora e não mais como atriz tem um pouco do machismo de que atrizes com 40 e mais às vezes são empurradas para papeis secundários?
Não sei. Existe uma coisa da dramaturgia da idade do herói e da heroína. Só que essa idade foi construída quando a média de expectativa de vida era muito menor. A gente chega aos 50 anos melhor, né? E as pessoas continuam vivendo seus dramas, suas questões, então papéis interessantes com 40, com 50 existem muitos. Com 60, com 70, eu acho que é uma tendência que isso aconteça mais porque a população está envelhecendo. É óbvio que a juventude é incrível, eu fiz uma série sobre adolescência os conflitos, a força, esse encantamento da primeira vez, tudo isso é incrível. Mas os conflitos com personagens mais maduros existem.

Como foi para você, que começou a atuar tão nova, dirigir atores com metade da sua idade, ou ainda mais novos, e estar agora no papel de mentora?
Foi incrível. Uma das coisas mais legais de A Vida pela Frente é o elenco. Tentei proporcionar para eles uma preparação e uma vivência no set confortável para que cada um ali pudesse se entregar, se expor, confiar. Eu descobri uma coisa que me dá imenso prazer que é realmente dirigir ator, para mim foi algo emocionante [ênfase]. Uma das coisas mais maneiras da vida é esse ciclo, né? É alguém que te ensina, você aprende, você realiza, e aí você ensina para outra pessoa que está vindo ali. Isso na vida é muito lindo.

Quando você estreou foi assim também?
Eu comecei jovem como eles, sei o quanto esse primeiro trabalho marca. Eu poderia ter feito toda minha filmografia que veio depois, mas, se eu não tivesse feito A Ostra, eu não seria quem eu sou hoje. Não estaria aqui, porque esse trabalho plantou em mim bases muito sólidas de comprometimento com a minha vocação, de respeito com a minha profissão. Que importante eu estar agora podendo fazer isso com uma pessoa que está começando. Foi foi muito lindo assim ver essa roda girar. Eu realmente acho que viver, que envelhecer é muito maneiro.

Você participou da seleção dos atores? Qual era sua preocupação com o elenco?
Claro! O que a gente queria muito eram bons atores jovens em quem a gente vislumbrasse a disponibilidade para um processo desses, porque não era ‘vou ali filmar e volto’. Eram seis semanas de preparação, dez horas por dia. Queríamos lançar pessoas e nossa produtora de elenco fez um trabalho fantástico de mapear esses jovens, alguns que não tinham feito nada no audiovisual. Foi a primeira experiência profissional deles. Tivemos uma preocupação grande de todos estivessem aprendendo, se engrandecendo como profissionais e como pessoas.

Vocês tiveram uma psicóloga na sala de roteiro…
Sim, ela acompanhou todo o processo de escrita dos roteiros, e foi para a preparação e fez uma palestra sobre saúde mental para os jovens. A gente lidar com temas sensíveis tinha muita preocupação de fazer isso responsabilidade. Ela nos apontou que não só o resultado tinha, mas o processo tinha que ser responsável. Então na preparação ela procurou preparar o emocional deles.

É um cuidado com a saúde mental dos atores.
Sim, é um cuidado com a saúde mental dos atores, porque tem uma coisa que não é muito contabilizado, que é o cansaço emocional.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Você sentiu esse tipo de cuidado no começo da sua carreira?
As coisas melhoraram muito, até sobre o que é o nosso trabalho. A preocupação no set, os limites, está tudo muito mais estabelecido agora. Eu tive a sorte de ser filha da minha mãe, que me ensinava muita coisa, e encontrei alguns mestres no caminho, como Angel Vianna e Walter Lima (diretor de A Ostra), que me ajudaram muito. Mas é uma realidade bem diferente agora.

Você faz terapia?
Faço já há muito tempo, desde a adolescência. Não com a mesma pessoa, já mudei várias vezes e teve períodos que eu parei. Além da minha análise certinha, eu sou do time do se tem uma terapia nova, não sei o quê, um retiro, eu vou fazer.

Quem é a Leandra hoje?
Eu continuo com muitas das sementes ali plantadas na Leandra lá de trás. Continuo sendo uma pessoa que utiliza o trabalho para elaborar a vida, criativa, menos ansiosa, extremamente ligada à arte, agregadora. Mas a grande divisão deste antes e depois é a minha filha mesmo, que foi a grande mudança na minha vida. Ser mãe é muito legal, eu acho muito maneiro, eu amo. Sou uma pessoa menos ansiosa, sou uma pessoa que gosta mais de mim mesmo e acho que isso é uma grande coisa da vida.

Mas você já não gostou tanto de você?
Com certeza. Fui adolescente, né? É muito difícil, autoestima não é uma coisa que adolescente tem muito, apesar de dizer que tem (risos).

Ou finge que tem.
Exatamente (risos). Tive altos e baixos grandes e hoje em dia eu sou muito mais tranquila comigo, com quem eu sou, com os meus acertos e com os meus erros. Autoestima tem um lugar que não é só físico, mas que é também sobre o seu jeito, quem você é. Eu sofria com as duas. Eu sempre fui muito exigente comigo, hoje em dia sou bem mais tranquila.

Você tem vontade de experimentar a maternidade novamente, de ampliar sua família?
Tenho. Temos vontade.

Você é uma artista, uma pessoa pública, muito politizada e que nunca escondeu no que acreditava. Como se sente hoje olhando para seu país após quatro anos tão difíceis e uma pandemia devastadora no meio?
Eu acho que temos que ter muita consciência do que aconteceu com a gente, temos que estar muito ligados na nossa memória e registrar essa memória para que a gente possa realmente construir algo diferente no futuro. Eu me sinto hoje com muito mais esperança, mas eu não me iludo de que as coisas estão ok, tranquilas. Vivemos em um país extremamente racista, homofóbico, machista, desigual. Temos desafios sociais gigantescos, mas pelo menos temos agora um caminho democrático pela frente. Para mim, na verdade, era muito duro – muito difícil para muita gente – ter a democracia em risco.

Além disso, temos também agora uma possibilidade de ter um governo que coloca a cultura com a importância que ela tem, que vê a cultura como algo que realmente é muito importante para construir a identidade um povo, a subjetividade, e o quanto ela pode ser aliada de vários outros setores, como a educação e a saúde. A cultura é importante para a conscientização de vários assuntos, pode ser mais fácil você criar pontes e diálogo através da cultura. A cultura é uma ferramenta de diálogo poderosíssima, de empatia, de você conseguir se colocar no lugar do outro. O que teria sido da gente na pandemia, da nossa saúde mental, sem a janela que a cultura proporciona pela música, audiovisual e literatura.

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

Leandra Leal — Foto: Guilherme Burgos

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