6 de setembro de 2026 23:14

FILHOS DE DEUS E DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO

A LIBERDADE EM CRISTO
Vivendo o Verdadeiro Evangelho conforme a Carta aos Gálatas


INTRODUÇÃO
Quem somos diante de Deus: devedores que precisam provar seu valor, ou filhos que recebem graça? Os gálatas viviam essa tensão. Os judaizantes prometiam segurança em regras e ritos. Todavia, seguir as doutrinas desse grupo herético era trocar a liberdade por escravidão. Paulo, porém, responde de forma muito clara esse falsos ensinadores quando, por meio de um exemplo, leva-nos à casa de Abraão. Ali, há duas mulheres, Sara e a escrava Agar. Há dois filhos: Ismael, nascido de um atalho humano; Isaque, nascido da promessa de Deus. A conclusão apostólica é: caminhemos, portanto, como filhos da livre: firmes na graça, obedientes pela fé e gratos pela herança que o Pai nos confiou em Cristo.
FLUXOGRAMA – CONHECENDO O TEXTO BÍBLICO
CENÁRIO RETÓRICO Digam-me vocês, os que querem estar sob a lei:
CONFLITO será que vocês não ouvem o que a lei diz?
FUNDO ESCRITURÍSTICO Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da mulher escrava e outro da mulher livre.
DISTINÇÃO TEOLÓGICA O filho da escrava nasceu segundo a carne; o filho da mulher livre nasceu mediante a promessa.
INTERPRETAÇÃO ALEGÓRICA Estas coisas são alegóricas, porque essas mulheres são duas alianças. Uma se refere ao monte Sinai, que gera para a escravidão; esta é Agar.
DESENVOLVIMENTO ALEGÓRICO Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com
os seus filhos.
DECLARAÇÃO IDENTITÁRIA Mas a Jerusalém lá de cima é livre e ela é a nossa mãe.
FUNDAMENTO PROFÉTICO Porque está escrito:
“Alegre-se, ó estéril, você que não dá à luz; exulte e grite, você que não sente dores de parto; porque os filhos da mulher abandonada são mais numerosos do que os filhos da que tem marido.”
AFIRMAÇÃO APOSTÓLICA Mas vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque.
CONFLITO HISTÓRICO-TIPOLÓGICO Como, porém, no passado, aquele que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o
Espírito, assim também acontece agora.
PALAVRA DE ORDEM Mas o que diz a Escritura? Ela diz:
“Mande embora a escrava e seu filho, porque de modo nenhum o filho da escrava será herdeiro com o filho da mulher livre.”RESUMO DA LIÇÃO
Pela fé em Jesus Cristo, somos filhos de Deus e descendência de Abraão.
Atividade: Cartas de Liberdade: um paralelo entre Sara e Agar
Base Bíblica: Gálatas 4.21-31
● Objetivo da Atividade: Ajudar os alunos a compreenderem o contraste entre a vida sob a lei (representada por Agar) e a vida sob a graça (representada por Sara), conforme ilustrado por Paulo.
1. Como a atividade pode ser realizada?
1.1. Material: Dois envelopes ou sacolas simples, identificados com:
1.1.1 “Agar – Filhos da Escravidão”
1.1.2 Sara – Filhos da Promessa”
1.2 Conteúdo de cada envelope:
1.2.1 Envelope de Agar (Escravidão): Um pequeno papel com Gálatas 3.10 “Todos os que se apoiam na prática da lei estão debaixo de maldição”. Frases como:
1.2.1.1 “Você precisa conquistar o amor de Deus.”
1.2.1.2 “Deus só se agrada quando você acerta tudo.”
1.2.1.3 “Você precisa cumprir regras para ser aceito.”
1.2.2 Envelope de Sara (Liberdade): Um papel com Efésios 2.8-9 – “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé…”. Frases como:
1.2.2.1 “Você é filho amado.”
1.2.2.2 “Deus te aceita por quem Ele é, não pelo que você faz.”
1.2.2.3 “A promessa é maior que o seu desempenho.”
2. Dinâmica:
2.1.Divida a turma em dois grupos.
2.2.Cada grupo abre seu envelope e compartilha o conteúdo.
2.3.Depois, os grupos trocam os envelopes. Pergunte:
2.3.1. “Como vocês se sentem lendo essas frases?”
2.3.2. “Com qual envelope você mais se identifica no dia a dia?”
Finalize dizendo:
“Assim como Paulo explicou, Agar e Sara são mais que duas mulheres: são representações de dois caminhos espirituais. Um exige desempenho constante, e gera medo, dúvidas e tristeza. O outro se baseia em promessa e amor, e gera liberdade. A cruz de Cristo nos convida a viver como filhos da promessa. Qual envelope você tem carregado dentro de você?”

1. O QUE A LEI DIZ
1. 1 Paulo se vale da história.
A LIÇÃO DIZ: A fim de reforçar seu argumento, o apóstolo mostra aos gálatas a diferença entre ser escravo e ser livre. Ele começa com a seguinte pergunta: “Dizei-me vós, os que quereis estar debaixo da lei: não ouvis vós a lei” (v. 21)? Em outras palavras, “Já que vocês querem viver debaixo da Lei, ao menos vejam o que ela diz”. O exemplo de Agar e Sara serve a dois propósitos. Primeiro, funciona como prova bíblica que encerra a ideia central de Paulo: somos justificados pela fé. Segundo, faz a ponte para a parte prática que começa em Gálatas 5.1–6. Nesse cenário, surge então a pergunta: por que Paulo escolhe focar nessas duas mulheres e em seus filhos de modo aparentemente complexo? A explicação mais plausível, apontada por C. K. Barrett, é que Paulo estava respondendo a uma leitura que os judaizantes já faziam dessa história. Entre os rabinos, o relato de Ismael e Isaque era usado para defender que só quem pertencesse fisicamente à família de Abraão teria direito à promessa. Em outras palavras: os descendentes de Isaque seriam os judeus; os de Ismael, os gentios. No Sinai, os judeus teriam recebido a luz da Lei, enquanto os gentios teriam permanecido nas trevas, fora das promessas. Barrett resume assim: entendida apenas no plano biológico, a “semente de Abraão” separaria filhos “legítimos” e “ilegítimos”, e os gálatas estariam sendo pressionados a se “legitimar” pela circuncisão e a se unir à comunidade centrada em Jerusalém. Quem não aceitasse isso deveria ser excluído e não poderia esperar herdar as promessas. Não é difícil ver como um argumento desses pesaria sobre novos convertidos, levando-os a duvidar se a fé em Cristo bastava para entrar na verdadeira família de Deus. Por isso, Paulo revisita a história para mostrar que, lida corretamente, ela não sustenta o projeto judaizante; ao contrário, confirma sua mensagem: a inclusão no povo de Deus não vem do sangue nem dos ritos, mas da promessa de Deus acolhida pela fé. Vamos ao texto bíblico Digam-me vocês, os que querem estar sob a lei: será que vocês não ouvem o que a lei diz? (Gl 4.21 NAA). Ao dirigir-se aos que “querem estar sob da lei”, Paulo deixa claro que a apostasia ainda não era total. É verdade que alguns gálatas já guardavam festas e dias do calendário judaico, e outros estavam quase aceitando a circuncisão. As ideias judaizantes haviam ganhado espaço, mas não tinham vencido de todo. Por isso, Paulo busca reconquistá-los, mostrando o sentido correto da lei. Numa única frase ele usa “lei” em dois sentidos. “Debaixo da lei” aponta para a lei mosaica, com seus mandamentos e regulamentos. Já na pergunta “Não ouvis a lei?”, “lei” significa as Escrituras do Antigo Testamento (especialmente o Pentateuco), de onde extrairá o exemplo dos dois filhos de Abraão. Assim como em Gl 2.19, Paulo afirma que a lei é santa, justa e boa, mas não foi dada para justificar; ela aponta para trás, à aliança com Abraão, e para frente, ao seu cumprimento em Cristo. Logo, “ouvir” a lei não é repetir a exegese rabínica dos judaizantes, e sim lê-la à luz de Cristo. É exatamente isso que Paulo faz ao reinterpretar a história de Agar e Sara. Implicações:
1.1.1 Você realmente entende aquilo que está buscando obedecer? Muitos cristãos vivem como se estivessem debaixo de regras para “agradar a Deus”, mas esquecem que a Lei apenas mostra o pecado, não salva. Devemos nos perguntar: estou vivendo pela graça ou tentando merecer a bênção de Deus por desempenho religioso?
1.1.2 Não basta conhecer a Bíblia; é preciso entender o seu propósito redentivo. Estou lendo a Palavra com as lentes do evangelho ou da religiosidade?
1.2 O significado de ser escravo.
A LIÇÃO DIZ: No mundo do primeiro século, no Império Romano, a escravidão era bem conhecida. Milhões de pessoas foram feitas escravas por causa de guerras, de dívidas, ou porque nasceram filhos de escravos. O escravo era simplesmente uma pessoa que não tinha direito sobre a própria vida. Sua vida e morte residiam nas mãos do seu proprietário. Nos dias de Paulo, o Império Romano era sustentado em grande parte por uma estrutura escravagista:
1.2.1 Cerca de 1/3 da população do Império era escravizada em algumas regiões.
1.2.2 Escravos não tinham status legal, nem direitos civis ou familiares.
1.2.3 Eram considerados propriedade viva de seus senhores, podendo ser vendidos, punidos ou mortos legalmente.
1.2.4 A escravidão não era baseada em raça, mas em conquistas militares, dívidas, abandono infantil ou nascimento.
Quando Paulo fala do “filho da escrava”, ele invoca uma imagem de submissão total, falta de liberdade, e impossibilidade de herança.
1.3 A busca pela liberdade.
A LIÇÃO DIZ: Paulo se utiliza da história de Abraão para ilustrar o que os gálatas precisavam saber. Ele é chamado de pai da fé, mas é dele que também procedem os judeus. O patriarca era casado com Sara, e a promessa de ser uma grande nação foi dada a ambos, não somente a Abraão. A genética repassada do patriarca aos seus descendentes seguia uma linha de muitos séculos, onde, por vezes, os hebreus se viram dominados por outros povos. Eles sabiam a importância de serem livres, e no primeiro século não desfrutavam ainda de plena liberdade. Os judeus, descendentes de Abraão, carregavam uma memória coletiva de opressão que moldou sua identidade. A experiência da escravidão no Egito (Êxodo), o exílio na Babilônia (2 Reis 25) e, depois, o domínio de impérios sucessivos, como persas, gregos e, nos dias de Paulo, o Império Romano, mantiveram viva a sensação de sujeição. Mesmo com o Templo reconstruído, Jerusalém seguia vigiada por soldados estrangeiros; havia tributos e pouca autonomia (Jo 8.33). Os judeus do primeiro século ansiavam por liberdade política; contudo, Paulo revela um anseio ainda mais profundo: a liberdade espiritual. Ele afirma que ser descendente físico de Abraão não torna ninguém automaticamente filho da promessa. A filiação que conta diante de Deus não é garantida por sangue, costumes ou ritos, ela é uma ação graciosa do Senhor e é recebida pela fé. Nesse sentido, Paulo distingue dois caminhos. Ismael, “filho da carne”, representa quem confia na Lei, no esforço humano e no sistema religioso para alcançar aceitação. Isaque, “filho da promessa”, simboliza quem recebe a graça, crê em Deus e vive pela fé. Aplicando isso aos gálatas, Paulo os adverte: ao abraçar os ensinos judaizantes, vocês estão escolhendo o caminho de Ismael quando Deus já os fez Isaque. Buscar liberdade na Lei, na carne e nas obras é trocar a herança por servidão; a verdadeira liberdade é dom de Deus em Cristo.

2. O FILHO DA CARNE E O FILHO DA PROMESSA
2.1 A carne e seu filho.
A LIÇÃO DIZ: A comparação que Paulo faz com referência a Ismael, o primeiro filho de Abraão, como sendo o resultado não da fé ou da promessa, mas como sendo um arranjo de uma decisão baseada em um pensamento humano diante da impaciência. A ideia partiu de Sara, que seguiu um costume de sua época, em que uma escrava poderia dar um filho ao seu senhor. Ninguém poderia negar que Ismael era filho de Abraão. Entretanto, ele representa um arranjo humano, uma forma de antecipar a realização da promessa de Deus. Vamos ao texto bíblico: Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da mulher escrava e outro da mulher livre. O filho da escrava nasceu segundo a carne; o filho da mulher livre nasceu mediante a promessa. (Gl 4.22-23 NAA). Tendo convidado seus leitores a “ouvir” a lei, Paulo introduziu o pano de fundo histórico da história de Hagar e Sara com a fórmula de citação bem conhecida: “Está escrito”. Paulo frequentemente usava essas palavras quando estava prestes a citar um texto específico do Antigo Testamento. Nesta ocasião, contudo, ele não forneceu uma citação direta, mas sim um resumo conciso da narrativa de Gênesis a respeito do nascimento dos dois filhos de Abraão. Paulo recorreu ao relato veterotestamentário registrado em Gênesis 16–17; 21. Em Gênesis, essa história é marcada por tensão, emoção e detalhes históricos fascinantes. Paulo, porém, não concentrou sua atenção nesses elementos, mas destacou três fatos históricos básicos que são essenciais para o significado figurado que ele desenvolveria.
2.1.1 Os dois filhos de Abraão. Na realidade, Abraão teve oito filhos, seis deles com Quetura (Gn 25.1-2), que se tornou sua esposa após a morte de Sara. Paulo, entretanto, não mencionou esses filhos posteriores porque eram irrelevantes para o seu propósito imediato.
2.1.2 A condição das duas mães. Assim como os dois filhos, também suas mães não são nomeadas neste ponto, mas descritas em relação ao seu status. Hagar era uma escrava egípcia ligada à casa de Abraão, enquanto Sara era uma mulher livre, a legítima esposa de Abraão. O contraste entre liberdade e escravidão, sugerido pela condição das duas mães, teria papel crucial na aplicação que Paulo faria do exemplo nos versículos finais do capítulo.
2.1.3 As circunstâncias dos dois nascimentos. Não apenas os filhos tinham mães diferentes, mas também nasceram de maneiras distintas. O filho da escrava nasceu “segundo a carne”, isto é, pelo processo natural da procriação humana. Em contraste, o filho da mulher livre nasceu “mediante a promessa”, isto é, em cumprimento direto da palavra de Deus a Abraão. O nascimento de Ismael resultou da filosofia segundo a qual “Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos”. Abraão e Sara, já em idade avançada e ainda sem filhos, decidiram “ajudar Deus” a cumprir sua promessa. O resultado foi o nascimento de Ismael, que se tornou fonte de contenda e sofrimento por toda a vida. Assim, Ismael representa o caminho humano, o caminho da carne, isto é, a tentativa de alcançar a promessa por meio de esforço próprio e obras.
Implicações
2.1.4 Eu sei que você, assim como eu, já tentou forçar o cumprimento das promessas de Deus. É uma ação natural de quem está governado pela ansiedade e pela incredulidade querer oferecer uma mão amiga a Deus. Todavia, não podemos nos esquecer de que Deus não precisa de nossa ajuda para cumprir suas promessas. O resultado de nossas precipitações será frustração, arrependimento e angustia.
2.2 A promessa e seu filho.
A LIÇÃO DIZ: Isaque foi dado a Abraão e Sara como garantia de que Deus cumpre o que promete. É à descendência de Isaque, e não de Ismael, que os crentes seriam associados. Quatro verdades são destacadas por Paulo acerca de Isaque (LOPES, 2011 p. 203-204):
2.2.1 Primeiro, Isaque nasceu como filho da mulher livre. “… e outro da livre” (4.22b). Nasceu para a liberdade, e não para a escravidão.
2.2.2 Segundo, Isaque nasceu mediante a promessa. “… o da livre, mediante a promessa” (4.23b). Se Ismael nasceu de uma conjunção puramente carnal entre Abraão e Hagar, Isaque nasceu por intervenção sobrenatural de Deus. E isso por duas razões. Primeiro, porque tanto Abraão como Sara já estavam avançados em idade e não poderiam mais gerar naturalmente. Isaque é fruto de um milagre de ressurreição (Rm 4.17–25). Segundo, porque Sara era estéril, e seu ventre estéril não poderia conceber. Por isso, Isaque é filho da promessa e nasceu no tempo de Deus, da maneira sobrenatural de Deus.
2.2.3 Terceiro, Isaque nasceu segundo o Espírito. “Como, porém, outrora, o que nascera segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim também agora” (4.29). Assim também são os crentes em Cristo. Eles nascem não segundo a carne nem segundo a vontade do homem, mas de cima, do alto, do Espírito.
2.2.4 Quarto, Isaque nasceu para ser o herdeiro de tudo. “Contudo, que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava será herdeiro com o filho da livre” (4.30). Isaque é o herdeiro de tudo. As bênçãos espirituais são dádivas da graça, e não resultado do esforço humano. As riquezas eternas são confiadas aos filhos, ou seja, aqueles que recebem a Cristo como Salvador, e não aos escravos que vivem sob a tirania da lei (Rm 8.17).

2.3 O escravo persegue o livre.
A LIÇÃO DIZ: A Palavra de Deus nos diz que no momento da cerimônia em que Isaque, o filho da promessa, foi desmamado, Ismael zombou dele (Gn 21.8.9). Da mesma forma que Hagar quando engravidou zombou de Sara, Ismael o faz com Isaque. O comentarista, infelizmente, salta vários textos bíblicos. Vamos ler a passagem que fundamenta este subponto: Como, porém, no passado, aquele que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito, assim também acontece agora. (Gl 4.29 NAA). Em Gênesis 21.8-9, durante a festa do desmame de Isaque, Sara viu Ismael zombando dele. Embora alguns interpretem o verbo hebraico como simples brincadeira, o uso bíblico da palavra indica sentido negativo: ridicularização ou hostilidade (cf. Gn 19.14; 39.14; Êx 32.6; Jz 16.25). Historicamente, Ismael, então com cerca de 17 anos, percebeu que o nascimento de Isaque comprometia sua posição de herdeiro, o que explica sua atitude de inveja. Além disso, o desprezo de Agar por Sara (Gn 16.4) pode ter sido imitado por Ismael em relação a Isaque. Paulo, portanto, interpretou corretamente o episódio: o que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito, pela promessa (Gl 4.23). Assim também os judaizantes perseguiam os gálatas, e o mundo, seja legalista ou libertino, continua hostil aos filhos de Deus (Mt 5.11; Jo 15.20; 2Tm 3.12).
3. A SOLUÇÃO PARA ESSE CONFLITO
3.1 Lança fora a escrava e seu filho.
A LIÇÃO DIZ: (Na minha percepção, o texto da lição está sem sentido). Vamos ler o texto bíblico. Mas o que diz a Escritura? Ela diz: “Mande embora a escrava e seu filho, porque de modo nenhum o filho da escrava será herdeiro com o filho da mulher livre.” (Gl 4.30 NAA). No primeiro versículo desta seção (v. 21), Paulo desafiou os gálatas: se eles realmente desejassem estar sob a lei, precisariam primeiro ler e entender o que essa lei realmente dizia. Ele agora se aproxima da conclusão de seu raciocínio alegórico, perguntando: “Mas o que diz a Escritura?”. Paulo cita Gênesis 21.10, que vem logo após o versículo da passagem anterior sobre Ismael zombando de Isaque. Como resultado do escárnio de Ismael, Sara concluiu que ele era uma ameaça para Isaque e exigiu que ambos, Ismael e sua mãe, fossem mandados embora. Abraão, que amava Ismael, estava relutante, mas Deus tomou o partido de Sara e Abraão foi obrigado a atender aos seus desejos. Hagar e Ismael foram expulsos para o deserto. Assim como Sara deu ordem a Abraão para lançar fora de casa Hagar e Ismael, também devemos lançar fora da nossa vida espiritual toda espécie de legalismo carnal. Donald Guthrie diz que os gálatas precisavam de uma ação igualmente firme para impedir que a liberdade cedesse lugar à escravidão. O legalismo não pode existir lado a lado com a promessa. Não há aliança entre a confiança nos méritos de Cristo e a confiança na carne. Não existe harmonia entre a fé em Cristo e a confiança nas obras. Precisamos romper com o legalismo. Precisamos mandar embora todo sistema religioso que escravize as pessoas.
3.2 Somos filhos da livre.
A LIÇÃO DIZ: Os gálatas eram, da mesma forma que Isaque, filhos da promessa: “De maneira que, irmãos, somos filhos não da escrava, mas da livre” (Gl 4.31).
O texto bíblico diz:
Portanto, irmãos, somos filhos não da escrava, mas da livre. (Gl 4.31 NAA). Este versículo não encerra apenas a comparação entre Hagar e Sara; ele amarra todo o raciocínio de 3.1 a 4.30. Como os falsos mestres usavam a Escritura, Paulo também os responde com a Escritura. Primeiro, ele lembra os gálatas da história de Abraão: ele foi considerado justo porque confiou em Deus, não por cumprir regras (3.6–9). Depois, explica a lei: ela mostra o pecado e nos conduz a Cristo; é importante, mas não salva (3.10–25). Com isso claro, ele faz um apelo de coração: “sejam como eu”, apoiando-se só na graça (4.12–20). Por fim, Paulo relembra Hagar e Sara à luz do evangelho e mostra dois caminhos que não se misturam: de um lado, Sara, Isaque, a nova aliança, Sião e a Jerusalém do Alto; de outro, Hagar, Ismael, a antiga aliança, Sinai e a Jerusalém atual. A conclusão é simples: os verdadeiros filhos de Abraão são os da promessa, justificados pela graça mediante a fé; quem busca o Senhor “pela carne” continua preso (vv.23, 29). Como esses caminhos não combinam, Paulo chega ao ponto: “Expulsa a escrava e seu filho” (v.30), ou seja, rejeitem o legalismo e quem o sustenta. Com a diferença entre escravidão e liberdade bem definida, ele abre a próxima etapa da carta: viver no Espírito (caps. 5–6).
3.3 Não tornem a ser escravizados.
A LIÇÃO DIZ: Paulo nos dá duas ordens aqui: Estejam firmes na sua liberdade, e não se coloquem debaixo de servidão. Na primeira observação, ele ordena que a liberdade que receberam em Cristo seja defendida a todo custo. Na segunda, ele aponta que era possível os gálatas serem escravizados, não por uma força militar externa, ou como despojo de guerra, ou por causa de uma dívida, coisas comuns para a escravidão naquela época. O que Paulo mostra é que os gálatas estavam se sujeitando voluntariamente à perda da liberdade. Por isso ele diz que eles não se sujeitem à escravidão que a Lei e os judaizantes estavam lhes imprimindo. Confesso que demorei a entender o que o comentarista estava tentando explicar. Ele comenta Gálatas 5.1. Particularmente, acredito que muitos irmãos terão certa dificuldade de entender. O comentarista deveria ter feito menção do texto bíblico. Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Por isso, permaneçam firmes e não se submetam, de novo, a jugo de escravidão. (Gl 5.1 NAA). Como é típico em um verso de transição como esse, os intérpretes discordam se ele conclui 4.21–31 ou começa 5.2–11. O comentarista da revista, achou interessante comentar esse texto agora.
Vamos entender o a passagem bíblica diz:
3.3.1 Primeiro, a liberdade é um dom conquistado por Cristo. Ela não é fruto do esforço humano, nem resultado de obediência à Lei, mas efeito direto da morte e ressurreição de Jesus. Essa liberdade tem um sentido abrangente: libertação do pecado, da maldição da Lei e também das forças espirituais que escravizam a humanidade. Para Paulo, recusar essa liberdade é desprezar o próprio evangelho.]
3.3.2 Segundo, essa liberdade precisa ser preservada ativamente. Paulo usa a imagem do “jugo”, comum no contexto judaico para falar da Lei, mas também usada em sentido mais amplo para descrever opressão e servidão. A advertência é clara: não basta ter sido liberto, é preciso permanecer firme, resistindo a qualquer tentativa de retornar a uma vida de escravidão espiritual, seja pelo pecado, seja por sistemas religiosos que se tornam substitutos da graça.
Implicações
3.3.3 Vigiar contra novas formas de escravidão espiritual. Devemos examinar continuamente se estamos vivendo como livres ou como cativos de velhos hábitos, tradições ou vícios.

CONCLUSÃO
A alegoria de Sara e Agar nos mostra que não existe meio-termo entre viver como escravo ou viver como filho. O caminho da carne, representado por Agar, é o do esforço humano, da religiosidade e da escravidão. O caminho da promessa, representado por Sara, é pura graça, liberdade e herança. Paulo deixa claro: fomos libertos em Cristo para nunca mais voltar às correntes da Lei ou às ilusões do pecado. Por isso, somos chamados a viver como filhos da livre, não como escravos da carne.

REFERÊCIA BIBLIOGRAFICA
BRUCE, F. F. Gálatas: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2024.
GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984.
HARLEY, Henry H. Manual Bíblico de Halley. São Paulo: Vida Nova, 2002.
WIERSBE, Warren. Comentário do Novo Testamento. Santo André: Geográfica, 2017.
KEENER, C. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia — Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017.
LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.
STOTT, John. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa, MG: Ultimato, 2018.

NOTAS 01
LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.
O método alegórico era bem conhecido dos rabinos. Foi adotado pela escola de Alexandria e seguido por Orígenes e outros Pais da igreja. De acordo com William Barclay, para os rabinos judeus toda passagem da Escritura possuía quatro significados: 1) Peshat: o significado simples e literal; 2) Remaz: o significado sugerido; 3) Derush: o significado implícito, que se deduzia por investigação; 4) Sod: o sentido alegórico. As primeiras letras dessas quatro palavras – PRDS – são as consoantes da palavra “paraíso” (paradise em inglês), e segundo os rabinos, quando alguém conseguia penetrar esses quatro significados diferentes, alcançava a glória do paraíso. O que é uma alegoria? Roy Zuck esclarece que alegorizar é procurar um sentido oculto ou obscuro que se acha por trás do significado mais evidente do texto, mas lhe está distante e na verdade dissociado. Em outras palavras, o sentido literal é uma espécie de código que precisa ser decifrado para revelar o sentido mais importante e oculto. Segundo esse método, o literal é superficial, e o alegórico é o que apresenta o verdadeiro significado. João Calvino tem o cuidado de explicar que o texto em tela não endossa o método alegórico como a maneira normativa de interpretarmos as Escrituras. O verdadeiro significado da Escritura é o natural e o óbvio. Certamente Paulo não quis dizer que Moisés escreveu a história para que ela fosse transformada em uma alegoria. R. E. Howard está certo quando diz que Paulo usou métodos rabínicos em virtude do seu desejo de enfrentar seus oponentes no nível deles e por ter sido essa sua formação educacional. Dessa forma, nesse caso, a alegoria foi uma ilustração confirmatória da verdade que, por argumentação, Paulo já havia provado convincentemente.

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