Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos













INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos a chegada de Paulo a Roma, sua proclamação do Reino de Deus, a reação dos judeus e o modo como o encerramento de Atos mostra que a missão da Igreja continua. O livro termina, mas a proclamação do Evangelho prossegue enquanto aguardamos a volta do Senhor. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.

TEXTO ÁUREO Pregava o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, abertamente e sem impedimento algum. (At 28.31, NVI). Ele anunciava o Reino de Deus e ensinava a respeito do Senhor Jesus Cristo, falando com toda a coragem e liberdade. (At 28.31, NTLH). Durante os dois anos em que Paulo permaneceu preso em Roma, provavelmente entre 60/61 e 62/63 d.C., ele pode ter escrito as quatro cartas tradicionalmente conhecidas como “cartas da prisão”: Filemom, Colossenses, Efésios e Filipenses. Colossenses e Filemom parecem pertencer ao mesmo período e provavelmente foram enviadas na mesma ocasião, levadas por Tíquico e Onésimo. Este último era escravo de Filemom e, de acordo com a interpretação tradicional, havia fugido antes de encontrar Paulo. A carta aos efésios também pode ter sido escrita durante essa prisão e possui fortes relações com Colossenses, embora não seja possível determinar com precisão quanto tempo separou a composição das duas cartas. Filipenses, por sua vez, também é tradicionalmente situada nesse período, quando Paulo ainda manifestava esperança de ser libertado.
A prisão, contudo, não levou Paulo a considerar seu ministério interrompido ou mesmo infrutífero. Aos filipenses, ele explicou que aquilo que lhe havia acontecido contribuiu para o “progresso do evangelho” (Fp 1.12-14) e se alegrou porque, apesar de suas circunstâncias, Cristo continuava sendo anunciado (Fp 1.18). Por essa razão, podia apresentar-se como “prisioneiro de Cristo Jesus” (Ef 3.1) e “embaixador em cadeias” (Ef 6.20). Mesmo preso, pediu aos irmãos que orassem para que Deus abrisse “uma porta à palavra” (Cl 4.3). Sua liberdade havia sido limitada, mas a proclamação do Evangelho continuava. O livro de Atos não informa qual foi o resultado do processo de Paulo. De acordo com a reconstrução tradicional, ele teria sido libertado por volta de 62/63 d.C. e retomado sua atividade missionária, deixando Tito em Creta e Timóteo em Éfeso. Nesse período posterior, provavelmente foram escritas as cartas de 1 Timóteo e Tito. Alguns anos depois, 2 Timóteo apresenta Paulo novamente preso em Roma e consciente de que sua morte estava próxima. Segundo a cronologia tradicional, essa segunda prisão ocorreu por volta de 66–67 d.C., pouco antes de seu martírio durante o governo de Nero. Mesmo diante da morte, sua convicção permanecia a mesma. O mensageiro podia ser preso, mas a mensagem não: “a palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2.9).

VERDADE PRÁTICA
Nada pode impedir o avanço do Reino de Deus quando o Evangelho é anunciado com fidelidade, coragem e esperança. Ao longo do livro de Atos, os apóstolos, missionários e demais cristãos enfrentaram dificuldades de todos os tipos. Foram ameaçados e perseguidos pelas autoridades judaicas, presos e açoitados, sofreram oposição de governantes, foram vítimas de falsas acusações, tumultos e perseguições populares. Estêvão foi apedrejado, Tiago foi morto por Herodes, Pedro foi preso, Paulo foi espancado, apedrejado, encarcerado e levado a julgamento diante de autoridades judaicas e romanas. A Igreja também enfrentou problemas internos, como conflitos, pecados e falsas doutrinas. Nenhuma dessas dificuldades, porém, conseguiu interromper a obra missionária. Pedro e João continuaram anunciando Cristo depois das ameaças do Sinédrio. Os cristãos dispersos pela perseguição levaram a Palavra para outras regiões. Paulo e Silas cantaram e testemunharam mesmo presos em Filipos. Quando Paulo foi impedido de viajar livremente, continuou pregando diante de governadores, reis, soldados e todos os que se aproximavam dele. As circunstâncias mudavam, mas aqueles homens permaneceram fiéis à responsabilidade que haviam recebido. Por meio da fidelidade desses servos e, sobretudo, da ação poderosa do Espírito Santo, o propósito anunciado no início do livro foi sendo cumprido. O Evangelho saiu de Jerusalém, alcançou a Judeia e Samaria, rompeu as fronteiras judaicas, chegou aos gentios e, ao final de Atos, estava sendo proclamado em Roma, no coração do Império. O livro começa com a promessa de que os discípulos seriam testemunhas “até os confins da terra” (At 1.8) e termina com Paulo anunciando o Reino de Deus “sem impedimento algum” (At 28.31). Perseguiram os mensageiros, mas não conseguiram deter a mensagem. Nada pôde impedir o avanço do Evangelho.





1. PAULO EM ROMA: PRISIONEIRO, MAS LIVRE EM CRISTO
Pergunta chave: Como Paulo permaneceu livre para cumprir sua missão mesmo estando preso em Roma?
Ideia central do ponto: Paulo chegou a Roma sob custódia, mas recebeu permissão para morar em uma casa alugada e receber pessoas. Sua liberdade era limitada, porém suficiente para que o Evangelho continuasse sendo anunciado.
1.1 Mesmo em custódia, Paulo recebe certa liberdade (vv.16,20,30).
Verdade central: Paulo foi colocado em residência vigiada, permanecendo sob custódia de um soldado. Ele próprio custeava sua moradia, possivelmente com ajuda de irmãos na fé. Embora limitado fisicamente, não estava aprisionado espiritualmente.
Para refletir: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). A verdadeira liberdade não depende de circunstâncias externas, mas da comunhão com Cristo.
A LIÇÃO DIZ: Ao chegar a Roma, Paulo não foi lançado em uma prisão comum, mas colocado em residência vigiada, permanecendo sob custódia de um soldado. Ainda acorrentado (v.20), desfrutava de relativa liberdade para receber pessoas e testemunhar. Ele próprio custeava sua moradia (v.30), possivelmente com ajuda de irmãos na fé (Fp 4.10,14,18). Essa condição revela que, embora limitado fisicamente, Paulo não estava aprisionado espiritualmente.
Vamos aos textos bíblicos:
Uma vez em Roma, Paulo recebeu permissão para morar por sua conta, tendo em sua companhia o soldado que o guardava. Foi por isto que pedi para vê-los e para falar com vocês; porque é pela esperança de Israel que estou preso com esta corrente. Durante dois anos, Paulo permaneceu na sua própria casa, que tinha alugado, onde recebia todos os que o procuravam (At 28.16,20,30, NAA). A chegada a Roma encerrou a longa viagem iniciada em Cesareia, mas Paulo continuava na condição de prisioneiro. Lucas informa que ele recebeu permissão para morar separado dos demais presos, sob a guarda de um soldado (v. 16). Era uma forma mais branda de custódia, pois o apóstolo podia permanecer em uma residência particular e receber visitantes, embora continuasse submetido à autoridade romana enquanto aguardava o julgamento. Esse tipo de vigilância costuma ser identificado como custodia militaris, na qual o preso permanecia sob supervisão de um militar sem ser recolhido ao cárcere comum. Lucas não informa por que Paulo recebeu esse tratamento, por isso convém evitar conclusões que o texto não permite comprovar. Sua cidadania romana e os relatórios enviados com o processo podem ter contribuído, mas há um dado que a própria narrativa deixa claro. Ao longo de todo o caso, diferentes autoridades romanas reconheceram que Paulo não havia cometido crime que justificasse sua condenação. Cláudio Lísias afirmou não ter encontrado acusação digna de morte ou prisão (At 23.29), Festo declarou que Paulo nada fizera que merecesse a pena de morte (25.25), e Agripa concluiu que ele poderia ter sido solto caso não tivesse apelado para César (26.31,32). A relativa liberdade concedida em Roma, portanto, está de acordo com tudo o que Lucas já havia mostrado sobre o processo.
Embora pudesse permanecer em uma residência particular, Paulo não desfrutava de liberdade plena. Quando reuniu os líderes judeus de Roma, afirmou que estava preso por causa da “esperança de Israel” e chamou a atenção para a corrente que carregava (v. 20). Havia, portanto, uma restrição física verdadeira. Lucas não explica de que maneira o apóstolo permanecia ligado ao soldado, embora esse tipo de custódia normalmente envolvesse o uso de uma corrente que ligava o preso ao seu guardador. Paulo tinha mais liberdade do que um preso mantido no cárcere comum, mas continuava sob vigilância militar.
Dois anos depois, sua condição permanecia semelhante. Lucas registra que Paulo continuava em seu próprio misthōma e recebia todos os que o procuravam (v. 30). O termo grego pode se referir a um “alojamento alugado”, como traduzem várias versões, ou enfatizar que ele permanecia ali pagando as próprias despesas. A liberdade que Paulo possuía fica mais clara quando observamos quem podia chegar até ele. Embora não pudesse circular livremente por Roma, nada impedia que recebesse visitantes. Apenas três dias depois de suachegada, convocou os principais judeus da cidade (v. 17).Mais tarde, um grupo ainda maior foi até sua residência, onde ele passou o dia explicando o Reino de Deus e procurando convencê-los a respeito de Jesus (v. 23). Durante os dois anos seguintes, continuou recebendo todos os que o procuravam (vv. 30,31). Assim, mesmo sob custódia, sua casa tornou-se um lugar de encontro, ensino e proclamação do Evangelho.
Matthew Henry faz uma oportuna observação:
Quantos homens importantes fizeram sua entrada em Roma, coroados e triunfantes, que realmente eram
as pragas de sua geração! Mas aqui um bom homem faz sua entrada em Roma, acorrentado e vencido como
um pobre cativo, que era realmente a maior bênção de sua geração. Esse pensamento é suficiente para fazer
qualquer um odiar este mundo para sempre.
Aplicações:
• Devemos trabalhar com as possibilidades que permanecem disponíveis. Paulo não podia sair livremente pelas ruas de Roma, mas podia receber pessoas. Em vez de concentrar-se somente no que lhe havia sido tirado, utilizou aquilo que ainda podia fazer.
• Uma limitação não torna uma pessoa inútil para o Reino de Deus. Idade, enfermidade, restrições financeiras ou outras dificuldades podem modificar a maneira como servimos, mas não eliminam automaticamente nossa capacidade de servir.
1.2 A prisão não impede o cumprimento do plano de Deus.
Verdade central: Paulo compreendeu que sua prisão fazia parte do propósito divino. Em vez de desanimar, ele enxergou uma grande oportunidade: soldados, oficiais e visitantes passaram a ouvir o Evangelho.
Para refletir: “Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). Você tem discernido o agir de Deus nos momentos difíceis ou apenas lamentado as circunstâncias?
A LIÇÃO DIZ: Paulo compreendeu que sua prisão fazia parte do propósito divino. Em vez de desânimo,
enxergou oportunidade: soldados, oficiais e visitantes passaram a ouvir o Evangelho. O que parecia derrota tornou-se avanço missionário (Fp 1.12). Essa postura revela maturidade espiritual: confiar que Deus age mesmo nas adversidades (Rm 8.28). A prisão de Paulo não representava um desvio inesperado do propósito de Deus. Ainda em Jerusalém, o Senhor havia lhe dito que, assim como testemunhara a seu respeito naquela cidade, também deveria testemunhar em Roma (At 23.11). Durante a tempestade, essa promessa foi confirmada quando o anjo declarou que Paulo precisava comparecer diante de César (At 27.24). Sua chegada à capital do Império, portanto, confirmava aquilo que Deus já havia anunciado, embora o caminho até Roma tivesse sido marcado por prisão, acusações, naufrágio e muitos outros perigos. Se a carta aos filipenses foi escrita durante essa prisão romana, como defende a interpretação tradicional, a própria carta nos ajuda a entender como Paulo avaliava sua situação. Ele afirma que tudo o que lhe havia acontecido contribuiu para o “progresso do Evangelho” (Fp 1.12). O substantivo grego prokopē transmite a ideia de avanço ou movimento para frente. Paulo não estava dizendo que a prisão favoreceu seu desenvolvimento pessoal, mas que o Evangelho continuava avançando apesar das limitações impostas a ele e, em certa medida, por meio delas. A prisão de Paulo levou a mensagem de Cristo a pessoas ligadas ao ambiente romano. O apóstolo afirma que suas cadeias se tornaram conhecidas “em Cristo” entre todo o praitōrion e entre os demais (Fp 1.13). O termo praitōrion pode se referir à guarda imperial ou a pessoas relacionadas com a administração romana. Caso Filipenses tenha sido escrita em Roma, a referência à guarda pretoriana se encaixa naturalmente nesse contexto. O regime de custódia ao qual Paulo estava submetido nos ajuda a entender como essa informação poderia ter se espalhado. Como permanecia sob vigilância militar, a troca dos soldados responsáveis por guardá-lo colocava diferentes homens em contato com sua situação, suas conversas e as pessoas que o visitavam. Aquilo que restringia os movimentos do missionário acabou levando o motivo de sua prisão e de sua esperança a pessoas
que talvez não fossem alcançadas durante suas viagens missionárias.
A fidelidade de Paulo em meio à prisão também encorajou os próprios cristãos. Ele afirma que “a maioria dos irmãos”, fortalecida no Senhor por causa de suas cadeias, passou a anunciar a Palavra com mais coragem (Fp 1.14). A prisão de um dos principais missionários da Igreja poderia ter intimidado os demais crentes, mas o resultado descrito por Paulo foi diferente. Ao perceberem que ele permanecia fiel e que o Evangelho continuava avançando mesmo diante da oposição, outros irmãos ganharam coragem para anunciar Cristo. Dessa maneira, Filipenses 1.13,14 apresenta dois efeitos da prisão: pessoas de fora ficaram sabendo por que Paulo estava preso, enquanto os cristãos foram encorajados a continuar proclamando a Palavra.
Aplicações:
• Nem toda interrupção dos nossos planos significa interrupção dos propósitos de Deus. Paulo desejava chegar a Roma e chegou, mas não da maneira que provavelmente escolheria. Precisamos distinguir nossos planos daquilo que Deus realmente prometeu.
• Nossa fidelidade durante o sofrimento pode fortalecer outras pessoas. As cadeias de Paulo deram coragem a outros cristãos. A maneira como enfrentamos dificuldades também pode influenciar irmãos que observam nossa caminhada.
• O avanço da obra de Deus é mais importante do que o êxito pessoal do obreiro. Paulo não avaliou sua situação perguntando apenas quando seria libertado. Sua alegria estava no fato de que Cristo continuava sendo anunciado.
1.3 O Evangelho vence barreiras políticas, sociais e religiosas.
Verdade central: Nenhuma estrutura humana pode deter a Palavra de Deus. Diante de governadores e reis, Paulo proclamou a fé em Cristo com ousadia. Socialmente, anunciou um Evangelho que reconcilia ricos e pobres, livres e escravos. Religiosamente, enfrentou tanto a incredulidade judaica quanto a idolatria gentílica.
Para refletir: A Igreja de hoje é chamada a viver esse mesmo Evangelho que rompe muros e reconcilia vidas. Que barreiras você tem permitido que limitem seu testemunho?
A LIÇÃO DIZ: A vida de Paulo comprova que nenhuma estrutura humana pode deter a Palavra. Diante de governadores e reis, proclamou a fé com ousadia (At 24.24,25; 26.1-32), demonstrando que Deus governa sobre todos os reinos (Dn 4.32). Socialmente, anunciou um Evangelho que reconcilia ricos e pobres, livres e escravos (Fm 10-16; Gl 3.28). Religiosamente, enfrentou tanto a incredulidade judaica quanto a idolatria gentílica, mantendo firme a centralidade de Cristo (At 13.45,46; 19.26,27). Logo, a Igreja de hoje é chamada a viver esse mesmo Evangelho que rompe muros e reconcilia vidas. Desde o início, o ministério de Paulo foi apresentado como um ministério que ultrapassaria diferentes fronteiras. Ao falar com Ananias sobre aquele antigo perseguidor da Igreja, o Senhor declarou: “Vá, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e reis, bem como diante dos filhos de Israel” (At 9.15, NAA). O restante do livro de Atos mostra o cumprimento progressivo dessa palavra. Paulo anunciou Cristo aos judeus, levou o Evangelho aos gentios e, ao longo dos anos, foi conduzido diante de autoridades que ouviram pessoalmente seu testemunho. O cumprimento dessa palavra diante de governantes se torna especialmente claro nos últimos capítulos de Atos. Félix ouviu Paulo falar sobre a fé em Cristo e sobre o juízo vindouro (At 24.24,25). Festo acompanhou seu processo, enquanto Agripa ouviu diretamente o relato de sua conversão e a proclamação da ressurreição de Jesus (At 26.1-29). Por fim, Paulo chegou a Roma ainda aguardando comparecer diante de César. Aquele que havia sido escolhido para levar o nome de Cristo diante de reis terminou o livro no coração do Império Romano.
O Evangelho anunciado por Paulo também alcançou pessoas de diferentes condições sociais e culturais. Em Filipos, por exemplo, a mensagem chegou a Lídia, uma comerciante de púrpura, e também ao carcereiro e sua família. Na relação com Onésimo, Paulo pediu que Filemom recebesse aquele escravo convertido não
apenas como servo, mas como “irmão amado” (Fm 15,16). Dessa maneira, o Evangelho atravessava as divisões sociais de seu tempo e mostrava que riqueza, profissão ou posição não determinavam o valor de uma pessoa diante de Deus. As diferenças religiosas e culturais também não impediram Paulo de anunciar Cristo a públicos muito distintos. Nas sinagogas, ele dialogou com os judeus a partir das Escrituras; em Atenas, falou diante de filósofos; e, em Éfeso, sua pregação confrontou a idolatria relacionada ao culto de Ártemis. A maneira de iniciar a exposição podia mudar conforme o público e a situação, mas a mensagem permanecia centrada em Jesus, em sua morte e em sua ressurreição. A chegada de Paulo a Roma confirma, portanto, aquilo que o Senhor havia anunciado muitos anos antes. O antigo perseguidor levou o nome de Cristo aos filhos de Israel, aos gentios e diante de governantes. Sua trajetória em Atos mostra que o Evangelho não foi confiado à Igreja para permanecer restrito a determinado povo, classe social ou ambiente religioso.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 1):
1. Qual era a condição de Paulo ao chegar a Roma?
2. Como Paulo interpretou sua prisão à luz do propósito de Deus?
3. Que tipo de barreiras o Evangelho vence?
4. Por que a verdadeira liberdade não depende das circunstâncias externas?





2. O EVANGELHO PREGADO AOS JUDEUS EM ROMA
Pergunta chave: Como Paulo anunciou Cristo aos judeus de Roma e qual foi a reação deles?
Ideia central do ponto: Três dias depois de chegar a Roma, Paulo convocou os líderes judeus para explicar sua situação e apresentar a esperança de Israel, que se cumpria em Cristo. Em uma nova reunião, marcada para outro dia, passou horas expondo o Reino de Deus e procurando convencê-los a respeito de Jesus com base na Lei de Moisés e nos Profetas. A mensagem, porém, não foi recebida da
mesma maneira por todos. Alguns foram convencidos pelo que Paulo dizia, enquanto outros permaneceram incrédulos.
2.1 Paulo convoca os líderes judeus para esclarecer sua situação (v.17).
Verdade central: Três dias depois de chegar a Roma, Paulo chamou os principais judeus para explicar que não havia cometido crime
contra seu povo nem contra os costumes dos pais. Sua prisão estava ligada à esperança de Israel, isto é, ao cumprimento das promessas de Deus em Cristo.
Para refletir: Paulo não estava envergonhado de sua prisão; via nela a consequência de sua fidelidade a Cristo. Você consegue enxergar propósito nas dificuldades que enfrenta por causa da fé?
A LIÇÃO DIZ: Três dias após chegar a Roma, Paulo reúne os principais líderes judeus para explicar as razões de sua prisão. Embora os judeus tivessem sido expulsos da cidade por decreto de Cláudio (At 18.2), muitos já haviam retornado, e havia expressiva presença judaica em Roma. O apóstolo deixa claro que não cometeu nenhuma ofensa contra o povo judeu nem contra as tradições dos pais. Mesmo assim, foi entregue aos romanos em Jerusalém. Logo nos primeiros dias em Roma, Paulo procurou estabelecer contato com os líderes judeus da cidade. Apenas três dias depois de sua chegada, convocou os “principais dos judeus”, expressão que provavelmente se refere a homens de liderança nas diferentes sinagogas de Roma. Como permanecia sob custódia e não podia circular livremente pela cidade, não tinha como seguir seu costume de procurar pessoalmente uma sinagoga. Dessa vez, portanto, foram os líderes judeus que vieram até ele. Mesmo depois de toda a oposição enfrentada na Judeia, Paulo continuava seguindo o princípio que havia marcado suas viagens missionárias, anunciando o Evangelho primeiro aos seus compatriotas. Paulo começou a conversa respondendo justamente às acusações que haviam dado origem ao seu processo. Ele declarou que não havia feito “nada contra o povo ou contra os costumes dos nossos pais” (v. 17). Desde sua prisão em Jerusalém, vinha sendo acusado de ensinar contra o povo judeu, contra a Lei e contra o templo (At 21.28). Agora, diante dos líderes de Roma, reafirmava que sua fé em Cristo não significava abandonar Israel nem desprezar as Escrituras recebidas de seus antepassados. Para Paulo, anunciar Jesus era proclamar o cumprimento daquilo que Deus havia prometido ao seu povo.
Ao resumir o processo que o levou até Roma, Paulo explicou que havia sido entregue aos romanos, que as autoridades não encontraram nele qualquer delito digno de morte e que somente apelou para César porque houve oposição à sua libertação (vv. 17-19). Mesmo depois de tudo o que havia sofrido, fez questão de esclarecer
que não tinha “nenhuma acusação para fazer contra o meu povo” (v. 19, NAA). Ele estava diante da justiça romana para defender-se, não para usar o tribunal imperial como um instrumento de vingança. Seus adversários haviam procurado sua condenação, mas Paulo não tentou despertar a hostilidade dos judeus de Roma contra aqueles que o haviam acusado. O verdadeiro motivo de suas cadeias fica claro quando Paulo declara que estava preso “pela esperança de Israel” (v. 20). Essa expressão já havia marcado suas defesas anteriores. Perante o Sinédrio, falou da “esperança e ressurreição dos mortos” (At 23.6); diante de Félix, confessou sua esperança na ressurreição de justos e injustos (24.15); e, perante Agripa, afirmou estar sendo julgado “por causa da esperança da promessa que Deus fez aos nossos pais”, relacionando logo depois essa esperança com a ressurreição (26.6-8). Em Atos 28, portanto, a “esperança de Israel” envolve as promessas feitas por Deus, a expectativa do Messias e a esperança da ressurreição, que Paulo anunciava cumpridas em Jesus Cristo. Os líderes judeus de Roma, por sua vez, informaram que não haviam recebido da Judeia cartas nem informações particulares contra Paulo (vv. 21,22). Eles já conheciam o movimento cristão, chamado no texto de “seita”, e sabiam que havia forte oposição contra ele, mas demonstraram interesse em ouvir diretamente aquilo que Paulo pensava. A primeira conversa, assim, esclareceu a razão de sua presença em Roma e preparou o caminho para um segundo encontro, no qual o apóstolo apresentaria de maneira mais ampla a mensagem do Evangelho.
Aplicação:
• Não devemos permitir que experiências negativas com algumas pessoas determinem nossa atitude diante de todo um grupo. Judeus de Jerusalém haviam perseguido Paulo, mas ele não tratou os judeus de Roma como se fossem culpados pelo que outros haviam feito.
2.2 Paulo anuncia o Reino de Deus, mostrando Cristo nas Escrituras (vv.23,24).
Verdade central: Paulo passou o dia expondo o Reino de Deus e procurando persuadir seus ouvintes acerca de Jesus, com base na Lei de Moisés e nos Profetas. Sua pregação era paciente, bíblica e centrada em Cristo.
Para refletir: Paulo não inventou uma mensagem nova; mostrou que Jesus é o cumprimento das Escrituras.
A LIÇÃO DIZ: Em dia marcado, Paulo passa longas horas expondo o Reino de Deus e procurando persuadi-los acerca de Jesus, fundamentando-se na Lei de Moisés e nos Profetas (v.23). Sua pregação é bíblica, paciente e centrada em Cristo. O resultado é misto: alguns creem, outros rejeitam (v.24). Diante da incredulidade, Paulo aplica Isaías 6.9,10, denunciando a dureza do coração e anunciando que a salvação seria enviada aos gentios, que a ouviriam (vv.26,27). O texto revela que o Evangelho avança apesar da resistência humana e que o Plano de Deus inclui todas as nações.
Vamos ao texto bíblico:
Tendo eles marcado um dia, foram em grande número ao encontro de Paulo no lugar onde ele residia. Então, desde a manhã até a tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do Reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas.Houve alguns que ficaram persuadidos pelo que Paulo dizia; outros, porém, continuaram incrédulos (At 28.23-24, NAA).
O interesse demonstrado no primeiro encontro levou os judeus a marcar uma nova reunião com Paulo. Na data combinada, um número ainda maior de pessoas foi até o lugar onde ele estava hospedado, e o encontro se prolongou “desde a manhã até a tarde” (At 28.23). Lucas descreve, portanto, muito mais do que uma breve
pregação. Paulo passou horas explicando sua mensagem e apresentando razões para que seus ouvintes compreendessem aquilo que anunciava. Até a posição da expressão temporal no texto grego contribui para enfatizar quanto tempo ele dedicou àquela exposição. A maneira como Paulo ensinou é resumida por Lucas mediante três ações que se completam. Ele expunha, testemunhava acerca do Reino de Deus e procurava persuadir seus ouvintes a respeito de Jesus. Expor significa apresentar o assunto de modo que pudesse ser compreendido; testemunhar acrescenta a ideia de afirmar com convicção aquilo que se reconhece como verdadeiro; e persuadir mostra que Paulo não pretendia apenas transmitir informações, mas levar seus ouvintes a reconhecer a verdade da mensagem apresentada.
Nesse último caso, o verbo ressalta a tentativa de convencê-los, sem sugerir que todos necessariamente aceitariam seus argumentos. O assunto desenvolvido durante aquelas horas estava concentrado no “Reino de Deus” e naquilo que dizia “a respeito de Jesus”. Para Paulo, esses não eram dois temas independentes. Anunciar o governo de Deus exigia mostrar quem era Jesus e explicar o que Deus havia realizado por meio dele. Essa ligação é tão importante para Lucas que volta a ser utilizada no último versículo do livro, quando Paulo é descrito anunciando o Reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo. A argumentação de Paulo também estava fundamentada nas Escrituras que seus ouvintes já reconheciam como Palavra de Deus. Lucas informa que ele procurava convencê-los “pela Lei de Moisés e pelos Profetas”. Em vez de pedir aos judeus que abandonassem as Escrituras para aceitar Jesus, Paulo recorria a elas para mostrar que a mensagem cristã estava ligada ao cumprimento daquilo que Deus já havia anunciado ao seu povo. Lucas não informa quais passagens foram utilizadas naquele dia, e não precisamos tentar reconstruir uma lista que o próprio texto não fornece. Outros episódios, porém, ajudam a compreender como Paulo trabalhava com as Escrituras. Depois da ressurreição, Jesus explicou aos discípulos aquilo que Moisés e os Profetas diziam a seu respeito (Lc 24.27,44-47). Mais tarde, em Tessalônica, Paulo discutiu com os judeus “com base nas Escrituras”, explicando que o Cristo precisava sofrer e ressuscitar e afirmando que Jesus era esse Cristo (At 17.2,3).
Aplicação:
• Alguns assuntos exigem tempo para serem compreendidos. Paulo passou grande parte do dia explicando sua mensagem. O professor precisa administrar o tempo da aula sem sacrificar explicações necessárias apenas para conseguir percorrer todo o conteúdo.
2.3 A reação dividida revela que o coração é o campo da decisão.
Verdade central: A Palavra foi anunciada com clareza, mas as respostas foram distintas. Isso evidencia que o coração humano é o campo onde a decisão acontece. A Escritura sempre exige resposta: fé ou rejeição.
Para refletir: “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28). Ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário obedecer e acolher Cristo pela fé.
A LIÇÃO DIZ: A Palavra foi anunciada com clareza, mas as respostas foram distintas. Isso evidencia que o coração humano é o campo onde a decisão acontece. A Escritura sempre exige resposta: fé ou rejeição (Dt 11.26-28; Sl 119.11; Pv 4.23). Nesse caso, ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário obedecer e acolher Cristo pela fé (Lc 11.28). A partir dessa rejeição parcial, o texto mostrará como Paulo passa a dedicar-se livremente à proclamação do Evangelho a todos, sem distinção, anunciando o Reino de Deus com ousadia e perseverança. A longa exposição de Paulo terminou com uma divisão entre os ouvintes. Alguns foram persuadidos pelo que ele dizia, enquanto outros “continuaram incrédulos” (At 28.24, NAA). Lucas não atribui essa reação negativa à falta de tempo, de explicação ou de fundamento bíblico. Paulo havia passado grande parte do dia argumentando a partir da Lei de Moisés e dos Profetas. A incredulidade de parte do grupo nos mostra que ouvir bons argumentos não significa necessariamente estar disposto a aceitar suas implicações. Quando a discordância entre eles já estava estabelecida e alguns começavam a sair, Paulo lhes dirigiu uma última palavra. Em vez de simplesmente lamentar que não tivesse convencido a todos, recorreu a Isaías 6.9,10: “Bem falou o Espírito Santo aos pais de vocês, por meio do profeta Isaías” (v.25). Ao introduzir a passagem dessa maneira, Paulo atribui sua mensagem ao próprio Espírito Santo. Aquilo que Isaías havia anunciado séculos antes fornecia uma explicação bíblica para a resistência que Paulo acabara de encontrar em Roma.
No contexto original, Isaías havia sido enviado a um povo que já demonstrava resistência à Palavra de Deus. Eles continuariam ouvindo sem compreender e vendo sem perceber, até que sua insensibilidade culminasse em julgamento. Olhos, ouvidos e coração representam a capacidade de perceber, compreender e responder àquilo que Deus estava dizendo. O problema era que a mensagem chegava aos ouvidos, mas não produzia arrependimento e obediência. Paulo aplicou aquela antiga palavra aos judeus que acabavam de ouvi-lo. Havia uma correspondência dolorosa entre as duas situações. Nos dias de Isaías, o povo possuía a revelação de Deus, mas resistia ao que ouvia. Em Roma, aqueles homens tinham diante de si as Escrituras e haviam recebido uma longa explicação sobre Jesus, mas parte deles permanecia incrédula. Por essa razão, a citação funciona como diagnóstico espiritual da reação de seus ouvintes.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 2):
1. Por que Paulo convocou os líderes judeus três dias após chegar a Roma?
2. Em que Paulo fundamentou sua pregação aos judeus?
3. Qual foi a reação dos judeus à mensagem de Paulo?
4. O que significa dizer que o coração é o campo da decisão?





3. A REJEIÇÃO DOS JUDEUS E A SALVAÇÃO AOS GENTIOS
Pergunta chave: Como a rejeição de parte de Israel contribuiu para o avanço da salvação entre os gentios?
Ideia central do ponto: A resistência de parte dos judeus não frustrou o plano de Deus. Paulo mostrou que a salvação seria enviada
aos gentios, e Atos termina com o Reino sendo anunciado em Roma sem impedimento.
3.1 O endurecimento espiritual de Israel.
Verdade central: Ao citar Isaías, Paulo mostrou que o problema não estava na falta de oportunidade para ouvir a verdade, mas na resistência daqueles que se recusavam a recebê-la. Muitos ouviram o Evangelho, porém endureceram o coração e rejeitaram a mensagem.
Para refletir: Tenha cuidado para não se acostumar a ouvir a Palavra sem obedecê-la. O Evangelho conduz à salvação quando é recebido com fé, mas a rejeição contínua da verdade pode tornar o coração cada vez mais resistente ao chamado de Deus.
A LIÇÃO DIZ: Diante da reação dividida dos judeus em Roma, Paulo encerra o diálogo citando Isaías 6.9,10, revelando que a rejeição não era falta de evidência, mas resistência do coração (Mt 13.14,15; Rm 11.7). A Palavra havia sido anunciada com clareza, porém, muitos escolheram não obedecer. A cegueira denunciada pelo profeta não era intelectual, mas espiritual (Mc 4.12; Lc 8.10). A resistência encontrada por Paulo em Roma já havia marcado outros momentos de seu ministério. Paulo tratou dessa questão com maior profundidade em Romanos 9 a 11. Ao perguntar por que tantos de seus compatriotas não haviam recebido o Messias prometido nas próprias Escrituras, ele não concluiu que a Palavra de Deus tivesse falhado (Rm 9.6). Também recordou que permanecia em Israel um “remanescente segundo a eleição da graça” (11.5) e, mais adiante, descreveu a situação como um endurecimento que atingiu Israel “em parte” (11.25). A incredulidade de muitos, portanto, não significava incredulidade de todos. A maneira como Paulo tratava a incredulidade de seus compatriotas nos impede de usar esse tema para justificar o desprezo ou sentimento de superioridade. Ele sofria profundamente pela situação de Israel e desejava sinceramente a salvação de seu povo (Rm 9.1-3; 10.1). Ao escrever aos cristãos gentios de Roma, chegou a adverti-los contra qualquer orgulho diante dos judeus que haviam rejeitado Cristo: “não seja orgulhoso, mas tema” (Rm 11.20). Paulo não celebrava a incredulidade daqueles que resistiam ao Evangelho. Sua atitude era marcada por tristeza, desejo de vê-los salvos e a consciência de que ninguém pode tratar a graça de Deus como motivo para se considerar superior aos outros.
Aplicações:
• Ter recebido grandes privilégios espirituais não elimina a necessidade de responder pessoalmente a Deus. Israel possuía as Escrituras, as alianças e as promessas, mas esses privilégios não substituíam a fé no Messias. Da mesma maneira, vir de uma família, anos de igreja ou conhecimento bíblico não podem ocupar o lugar de uma relação verdadeira com Cristo.
• A incredulidade dos outros nunca deve produzir sentimento de superioridade espiritual. Paulo advertiu os gentios exatamente contra esse perigo. Quando alguém rejeita aquilo que recebemos pela graça, nossa reação não deve ser desprezo, mas humildade, temor e oração.
3.2 A salvação estende-se aos gentios conforme o plano eterno de Deus.
Verdade central: A incredulidade de parte de Israel não frustrou o propósito divino; antes, confirmou o alcance universal do Evangelho. Paulo declara: “Esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão.
Para refletir: A Igreja é enviada ao mundo inteiro, chamada a anunciar a salvação sem barreiras étnicas, culturais ou religiosas.
A LIÇÃO DIZ: A incredulidade de parte de Israel não frustrou o propósito divino; antes, confirmou o alcance universal do Evangelho. Paulo declara com autoridade: “esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão” (At 28.28), cumprindo a promessa de Jesus de que o testemunho alcançaria todas as nações (At 1.8; Rm 10.12,13). John Stott destaca que, por três vezes, a oposição teimosa dos judeus fez Paulo voltar-se para os gentios – em Antioquia da Pisídia (13.46), em Corinto (18.6) e em Éfeso (19.8,9). Agora, pela quarta vez, na capital mundial, e de forma mais decisiva ainda, ele o faz novamente (28.28). Enquanto Paulo se volta para os gentios, os judeus se vão, tendo entre si grande contenda (28.29).
Ao declarar aos judeus de Roma que “esta salvação que Deus oferece foi enviada aos gentios” (At 28.28, NAA), Paulo utiliza uma expressão que Lucas já havia empregado em momentos importantes de seu Evangelho. O termo grego sōtērion, traduzido como “salvação”, foi usado por Simeão quando tomou Jesus nos braços e declarou: “os meus olhos já viram a tua salvação”. Logo em seguida, ele afirmou que aquele menino seria “luz para revelação aos gentios” (Lc 2.30-32). Lucas empregou novamente o mesmo termo ao citar Isaías 40: “toda a humanidade verá a salvação de Deus” (Lc 3.6). Dessa maneira, aquilo que foi anunciado no início do Evangelho chega ao encerramento de Atos como uma realidade que já estava se cumprindo: a salvação realizada por Deus em Cristo estava sendo anunciada também às nações. A proclamação do Evangelho aos gentios, portanto, não surgiu como uma solução de última hora diante da incredulidade de parte dos judeus. Muito antes da chegada de Paulo a Roma, as próprias Escrituras já anunciavam que a salvação de Deus alcançaria outros povos. O profeta Isaías declarou que o Servo do Senhor seria colocado como “luz para os gentios”, para que a salvação chegasse “até os confins da terra” (Is 49.6). Em Antioquia da Pisídia, Paulo e Barnabé recorreram justamente a essa passagem para explicar o trabalho que realizavam entre os gentios (At 13.47). A expressão “confins da terra” também havia sido utilizada por Jesus ao dizer que seus discípulos seriam suas testemunhas até os lugares mais distantes (At 1.8). Portanto, a chegada do Evangelho às nações fazia parte do propósito de Deus anunciado pelos profetas, ratificado por Cristo e realizado progressivamente ao longo do livro de Atos. O verbo “ouvir” nos ajuda a acompanhar o contraste construído por Lucas nessa parte do capítulo 28. No versículo 22, os líderes judeus disseram que desejavam ouvir Paulo. Depois de uma longa exposição, alguns foram persuadidos, enquanto outros permaneceram incrédulos. Em seguida, Paulo citou Isaías para falar de pessoas que ouviam, mas não compreendiam, e encerrou sua declaração afirmando sobre os gentios que “eles a ouvirão” (At 28.28). Paulo destaca que a mensagem do evangelho encontraria entre os gentios pessoas dispostas a recebê-la com fé.
Aplicação:
• Missões não pode ocupar apenas o espaço que sobra na vida da igreja. Alcançar povos e pessoas além de nosso círculo habitual pertence ao propósito de Deus revelado nas Escrituras. Uma igreja comprometida com esse propósito ora, contribui, envia, sustenta e participa da proclamação do Evangelho além de suas próprias fronteiras.
3.3 Atos termina proclamando um Reino que não pode ser detido.
Verdade central: O livro se encerra com Paulo pregando “o Reino de Deus e ensinando com toda liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum”. Preso, mas livre; limitado por correntes, mas não pela Palavra.
Para refletir: “Porque a palavra de Deus não está presa” (2Tm 2.9). A obra missionária não cessou em Roma, a obra continua conosco. Você faz parte dessa história?
A LIÇÃO DIZ: O livro se encerra com Paulo pregando “o Reino de Deus e ensinando com toda
liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum” (v.31). Preso, mas livre; limitado por correntes, mas não pela Palavra. O Reino de Deus permanece a mensagem central da Igreja (Lc 4.43; At 1.3), não sustentado por palavras apenas, mas pelo poder do Espírito Santo (1Co 4.20; At 1.8). Durante os dois anos que encerram a narrativa, Paulo permaneceu em sua residência alugada e “recebia todos os que o procuravam” (At 28.30). Lucas não informa o resultado do julgamento nem termina contando como foi encerrada a vida do apóstolo. Depois de acompanhar Paulo durante tantos capítulos, o leitor poderia desejar essas informações, mas o último quadro escolhido para o livro apresenta algo diferente: um prisioneiro recebendo pessoas, anunciando o Reino de Deus e ensinando a respeito de Jesus Cristo. O destino do mensageiro fica em segundo plano, enquanto a mensagem continua sendo proclamada. Lucas resume o conteúdo de seu ministério por duas atividades contínuas: Paulo pregava o Reino de Deus e ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo. O verbo kēryssō tem o sentido de proclamar publicamente uma mensagem, enquanto didaskō enfatiza o ensino. O ministério cristão apresentado no encerramento de Atos reúne as duas ações: há uma boa notícia que precisa ser proclamada e há um conteúdo que precisa ser explicado. A maneira como Paulo anunciava o Evangelho em Roma também merece a nossa atenção. Lucas informa que ele ensinava “com toda a ousadia”, expressão que traduz o substantivo grego parrēsia e comunica a ideia de franqueza, liberdade e coragem para falar abertamente. A mesma palavra já havia sido usada para descrever o testemunho dos discípulos diante da oposição em Jerusalém (At 4.29-31). Muitos anos depois, agora em Roma, Paulo continuava proclamando Cristo com a mesma liberdade. A última palavra do texto grego de Atos é especialmente expressiva: akōlytōs, “sem impedimento”, “sem restrição”. O advérbio ocorre somente aqui no Novo Testamento e deriva da ideia de não impedir ou não obstruir. Paulo ainda possuía limitações pessoais, mas, durante aquele período, ninguém estava impedindo sua atividade de proclamar e ensinar.
O encerramento de Atos não significa que os adversários desapareceram nem que a Igreja passou a cumprir sua missão sem dificuldades. Lucas termina sua narrativa depois de mostrar que prisões, perseguições, conflitos e rejeições não conseguiram impedir o avanço do Evangelho. A obra missionária, porém, não se encerrou com o apóstolo nem com a proclamação do Evangelho na capital do Império. Por essa razão, o final do livro conduz o leitor a perceber que o testemunho iniciado pelos primeiros discípulos deveria continuar alcançando judeus e gentios em outros lugares e nas gerações seguintes. A narrativa escrita por Lucas chegou ao fim, mas a obra missionária apresentada por ele continuou. Não precisamos dizer que a Igreja está escrevendo um “Atos 29”, como se um novo capítulo pudesse ser acrescentado ao texto inspirado. A declaração pode ser feita de maneira mais precisa. Cada geração de cristãos recebe a responsabilidade de anunciar o mesmo Cristo, proclamar o mesmo Evangelho e levá-lo a pessoas que ainda precisam ouvi-lo. Enquanto aguardamos a volta do Senhor, o final de Atos não serve apenas para recordar o que Paulo fez em Roma. Ele nos lembra que como Igreja devemos continuar proclamando do Evangelho.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 3):
1. O que Paulo citou diante da rejeição dos judeus?
2. O que a incredulidade de parte de Israel confirmou?
3. Qual era a condição de Paulo ao final de Atos, e como ele pregava?
4. Por que Atos termina sem um “amém”?

CONCLUSÃO
A chegada de Paulo a Roma encerra uma etapa importante da história narrada em Atos, mas não encerra a missão da Igreja. Mesmo preso, o apóstolo continuou anunciando o Reino de Deus, ensinando acerca de Jesus e testemunhando diante de judeus e gentios. O livro termina com o Evangelho sendo proclamado “sem impedimento algum” (At 28.31). A mensagem chegou a Roma e continuaria avançando. Agora, cabe à Igreja permanecer fiel à mesma missão, anunciando Cristo enquanto aguarda a volta do Senhor.
REFERÊNCIAS
GARLAND, David E. Comentário expositivo Atos. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2019.
STOTT, John. A mensagem de Atos. São Paulo: ABU Editora, 1994.
PEARLMAN, Myer. Atos: estudo do livro de Atos e o crescimento da Igreja Primitiva. Tradução: Gordon
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WILLIAMS, David J. Atos. Tradução: Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 1996. (Novo Comentário
Bíblico Contemporâneo).
KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. Tradução: José Gabriel Said.
São Paulo: Vida Nova, 2017.
BEALE, G. K.; CARSON, D. A. (Org.). Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento.
Tradução: C. E. S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2014.
KEENER, Craig S. Comentário Exegético Atos. Rio de Janeiro: CPAD, 2024. 4 v.
LONGENECKER, Richard N. Acts. In: LONGMAN III, Tremper; GARLAND, David E. (Ed.). The
expositor’s Bible commentary. Rev. ed. Grand Rapids: Zondervan, 2007.
FERNANDO, Ajith. Acts. Grand Rapids: Zondervan, 1998. (The NIV Application Commentary).
POLHILL, John B. Acts. Nashville: Broadman & Holman, 1992. (The New American Commentary, v. 26).
LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.









