28 de fevereiro de 2024 02:23

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Atividades com risco de desmatamento receberam US$ 307 bilhões em crédito

Pelo menos US$ 307 bilhões foram concedidos em crédito para atividades com alto risco de desmatamento desde 2016 no mundo, sendo US$ 188 bilhões apenas no Brasil, mostra levantamento sobre o fluxo financeiro para as cadeias de carne bovina, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira. O estudo foi realizado pela coalizão Forests & Finance, organização que reúne oito ONGs ambientais de diferentes países.“Sabemos que não conseguimos mapear tudo porque há transações financeiras diretas que não estão nas bases de dados que acessamos, então os nossos dados são subestimados”, observa a coordenadora da iniciativa Merel van der Mark. O levantamento — que abrange as florestas tropicais da Amazônia, África Central e Ocidental e Sudeste Asiático — foi feito a partir das informações divulgadas pelas próprias instituições financeiras e de relatórios anuais e trimestrais das 300 maiores companhias com atuação nas atividades avaliadas. No total, mais de 100 instituições financeiras de todo o mundo concederam crédito a cadeias com alto risco de desmatamento. A maior parte desse crédito — US$ 127 bilhões — é oriundo de bancos brasileiros, concedidos a cadeias envolvidas, em alguma medida, com desmatamento. Dos 15 maiores credores de empresas dessas cadeias, sete são instituições financeiras brasileiras.Globalmente, a cadeia de carne bovina foi a que mais recebeu recursos no período, com US$ 82,6 bilhões, seguida de papel e celulose, US$ 80,9 bilhões, e soja, com US$ 61,9 bilhões. No Brasil, foram US$ 79 bilhões concedidos a empresas de carne bovina, US$ 59 bilhões à soja e US$ 46 bilhões a papel e celulose. Segundo o estudo, as políticas de mitigação de risco dessas instituições são “perigosamente inadequadas” para evitar que recursos sejam usados na supressão de mata nativa de forma legal ou ilegal. “Os próprios bancos e os investidores não têm políticas para garantir que o dinheiro que estão aplicando não vai ser usado para financiar o desmatamento, e a gente não tem perna para provar que nenhuma das empresas está envolvida em desmatamento”, acrescenta.

A partir de 38 critérios aplicados a cada uma das seis commodities analisadas, a Forests & Finance criou um sistema de pontuação para classificar o nível de controle que as políticas adotadas pelos bancos oferecem. No Brasil, a média obtida pelas instituições financeiras foi de 11%, abaixo dos 17% observados no ranking geral.

Procurada, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que as resoluções do Banco Central já criam impedimentos para a concessão de crédito quando há irregularidades ambientais e que as instituições também estabelecem protocolos para a gestão dos riscos de desmatamento ilegal e critérios para a concessão de crédito.A Febraban cita ainda a normativa estabelecida pelo seu Conselho de Autorregulação em março de 2023 com foco em frigoríficos. Pelas regras, os bancos participantes terão de solicitar aos clientes frigoríficos presentes na Amazônia Legal e no Maranhão a implementação de sistema de rastreabilidade e monitoramento que permita demonstrar, até dezembro de 2025, que não compram gado associado ao desmatamento ilegal.Segundo Merel, a iniciativa é positiva, mas não tem força de lei. “É um compromisso que eles fazem entre eles e que fica dependendo da boa vontade do próprio banco”, critica.A coordenadora do estudo defende a necessidade de os bancos adotarem políticas de desmatamento zero, seja ele legal ou ilegal. “De alguma forma, o crédito rural já tem alguns critérios, não permite financiar fazendas com áreas embargadas, mas isso depois de o ato já estar feito e apenas relacionado ao desmatamento ilegal. Gostaríamos que não fosse permitido financiar nenhum tipo de desmatamento”, completa.

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