Assim como em suas exposições mais recentes, Campos Neto reiterou a mensagem de que a inflação elevada é mais prejudicial para a sociedade do que o alto nível de juros, por aumentar a desigualdade e penalizar a população de mais baixa renda.

“Inflação é o imposto mais perverso que existe, que prejudica os pobres. É uma transferência de valor do dinheiro do governo, onde o dinheiro perde valor na mão das pessoas e ganha no emissor, que é o governo. De certa forma, a inflação até melhora a questão fiscal, mas ao custo de desigualdade e de uma piora na qualidade do consumo”, afirmou.O chefe da autoridade monetária reforçou que a omissão do BC no combate à inflação teria sido muito mais custosa para a sociedade do que o aumento da Selic.Segundo Campos Neto, se o Copom tivesse atuado de forma política e evitado aumentar os juros no período eleitoral, a inflação deste ano seria próxima de 10% e, para obter as mesmas projeções atuais, o BC teria que elevar a taxa Selic para 18,75%.O presidente do BC também voltou a citar como antiexemplo os casos da Argentina, que enfrenta uma inflação desenfreada, e da Turquia, que baixou os juros e hoje tem de lidar com o aumento da pobreza.

“O combate à inflação é o melhor instrumento social que existe hoje, tem vários estudos que mostram isso”, disse. “No caso da Argentina, a pobreza aumentou 53% e hoje alcança quase 40% da população.”

Quanto à comunicação, Campos Neto destacou novamente que a autoridade monetária atua de forma técnica. “Em todas as atas [do Copom] desde 2019, toda vez que uma medida fiscal alterava a trajetória da dívida, o BC se expressou nas suas comunicações”, afirmou.

Segundo o chefe da autarquia, um dos fatores para os altos juros no Brasil é o fato de o governo brasileiro ter uma dívida bruta –que atingiu 73% do PIB (R$ 7,4 trilhões) em fevereiro– maior do que a média internacional. “Não é explosiva, mas é maior que a média”, disse.

O grande volume concedido no crédito direcionado, em boa parte com juros subsidiados, e o baixo nível de recuperação de crédito por parte das instituições financeiras devido à alta inadimplência dos tomadores de empréstimos são outros motivos citados por Campos Neto para explicar por que os juros são elevados no país.

O presidente do BC também foi chamado ao Senado para prestar informações sobre erro ocorrido na compilação de dados na série histórica do fluxo cambial –volume de dólares que entram e saem do país. Após a revisão, a autoridade monetária informou que o país registrou em 2022 saída de US$ 3,233 bilhões, em vez de entrada de US$ 9,574 bilhões.

De acordo com Campos Neto, o erro foi reajustado, não houve negligência e os procedimentos foram aprimorados para que o problema não volte a se repetir. “Quando a gente corrigiu, teve pouco efeito nos mercados”.