5 de setembro de 2026 03:35

CRISTO ENTRE OS FILÓSOFOS: O DEUS DESCONHECIDO SE REVELA

A IGREJA DOS GENTIOS
Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos

1. CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E RELIGIOSO DE ATENAS.

2. OS FILÓSOFOS EPICUREUS E ESTOICOS (At 17.18-21).

3. O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO.

INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos a passagem de Paulo por Atenas, cidade reconhecida por sua tradição filosófica e por sua intensa religiosidade. Diante de um povo cercado por altares e distante do Deus verdadeiro, o apóstolo anunciou o Evangelho no Areópago, tomando como ponto de partida o altar dedicado ao “Deus Desconhecido”. Sua pregação mostra que é possível dialogar com a cultura sem comprometer a verdade, proclamando o Deus
Criador, chamando todos ao arrependimento e anunciando a ressurreição de Jesus Cristo. Preparados? Vamos
aprender juntos a Palavra de Deus.

TEXTO ÁUREO
No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. (At 17.30, NVI). No passado Deus não levou em conta essa ignorância. Mas agora ele manda que todas as pessoas, em todos os lugares, se arrependam dos seus pecados. (At 17.30,NTLH).
Nesta passagem bíblica, Paulo faz três grandes declarações:
• Existiu um período caracterizado pela “ignorância”.
• Deus “não levou em conta” esse período da mesma maneira que agora.
• No presente, Deus ordena universalmente o arrependimento.

  Portanto, o versículo não está ensinando que Deus aprovava a idolatria nem tão pouco que as pessoas do passado estivessem isentas de responsabilidade moral. O próprio discurso de Paulo denuncia a fabricação de imagens como uma compreensão equivocada de Deus (At 17.29). A ideia presente aqui é que, com a revelação trazida por Cristo, iniciou-se uma nova etapa na história da salvação: aquilo que Deus suportou com paciência agora é confrontado por um chamado explícito e universal ao arrependimento. Em conclusão, esse texto não fornece base alguma para estabelecer uma doutrina sobre a salvação dos não evangelizados, pois esse não é o propósito do discurso de Paulo no Areópago. Seu objetivo é anunciar que, com a vinda de Cristo, Deus convoca todas as pessoas, em todos os lugares, ao arrependimento.

VERDADE PRÁTICA
A obra evangelística floresce quando o coração, sensível ao Espírito, discerne os tempos e proclama com ousadia a graça salvadora de Cristo.
Três pontos podem ser destacados na Verdade Prática:
• Dependência do Espírito Santo. A obra missionária depende do poder do Espírito Santo. É o Espírito quem capacita a Igreja para testemunhar o evangelho, convence o pecador e aplica a verdade de Cristo ao coração humano (At 1.8; Jo 16.8-14).
• Compreensão do contexto. Paulo considerava o contexto de seus ouvintes, mas sempre os conduzia à verdade sobre Deus, o pecado, o arrependimento e o juízo (At 17.22-31). A abordagem pode variar; o evangelho permanece inalterado.
• Proclamação do evangelho. A evangelização exige a proclamação clara e corajosa da obra salvadora de Cristo. O pecador precisa ouvir que está debaixo da condenação divina e que o perdão se encontra somente na morte e na ressurreição de Jesus (Rm 3.23-26; 1Co 15.1-4). A graça de Deus não encobre a gravidade do pecado; ela revela a suficiência de Cristo para salvar os homens.

 

1. CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E RELIGIOSO DE ATENAS
Pergunta chave: Como Paulo discerniu o cenário espiritual de Atenas?
Ideia central do ponto: Atenas um grande centro intelectual e filosófico. Paulo se comoveu ao ver a cidade entregue aos ídolos e
proclamou o Evangelho tanto na sinagoga quanto na ágora, alcançando judeus, gentios tementes a Deus e filósofos.
1.1 Atenas: o centro intelectual marcado pela idolatria (At 17.16).
Verdade central: Atenas era célebre por sua filosofia, arte e erudição. Porém, a cidade estava entregue à idolatria e distante do Deus
verdadeiro.
Para refletir: “O seu espírito se comovia em si mesmo” (At 17.16). O coração sensível a Deus se entristece diante da idolatria.
A LIÇÃO DIZ: Quando Paulo chegou a Atenas, por volta do ano 50 d.C., a cidade ainda exercia enorme influência cultural e intelectual, apesar de sua pouca relevância política sob o domínio romano. Berço de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, Atenas destacava-se pelas artes, poesia e filosofia. Contudo, por trás de sua sofisticação, havia uma religiosidade profundamente idólatra e politeísta. Lucas registra a reação
de Paulo, que se comoveu ao ver a cidade “entregue à idolatria” (At 17.16).
O texto bíblico diz:
  Os responsáveis por Paulo levaram-no até Atenas e regressaram trazendo ordem a Silas e Timóteo para que fossem encontrá-lo o mais depressa possível. Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade (At 17.15-16, NAA).  O maior bandeirante do cristianismo acaba de chegar a Atenas, a capital intelectual do mundo, a terra dos grandes luminares do saber humano, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Aristófanes, Eurípedes e o inigualável escultor Fídias. A  Academia de Atenas, fundada por Platão, ainda era um centro intelectual com poucos rivais. Simon Kistemaker diz que Atenas descansava em sua reputação de ser centro das artes, literatura, filosofia, conhecimento e habilidade oratória. Atenas foi a primeira cidade-estado da Grécia desde o século V a.C. Mesmo depois de integrada ao império romano, guardava com orgulho a sua independência intelectual e também se tornou uma cidade livre. Gabava-se de sua rica tradição filosófica, herdada de Sócrates, Platão e Aristóteles. Tinha uma reputação inigualável como a metrópole intelectual do Império. Atenas era uma cidade gloriosa. Qualquer visitante que chegasse nessa cidade nos tempos de Paulo olharia com espanto seus ricos monumentos, seus esplêndidos palácios, seus templos dedicados aos deuses e as glórias de sua tradição. Concordo com Simon Kistemaker quando ele diz: “A despeito de sua distinção por ser o centro do saber e da arte, essa cidade superava todas as outras em cegueira espiritual”. Chegando a essa cidade, o que Paulo viu? Lucas descreve Atenas com o adjetivo grego kateidōlos, empregado somente aqui no Novo Testamento. A palavra significa “cheia de ídolos” ou “coberta de ídolos”. A tradução da ARC, “tão entregue à idolatria”, comunica corretamente a condição espiritual da cidade, embora o termo destaque primeiro aquilo que Paulo contemplava. Havia imagens, altares, santuários e objetos de culto espalhados por toda parte. A idolatria ateniense estava integrada à organização da cidade, às festividades, Chegando a essa cidade, o que Paulo viu? Lucas descreve Atenas com o adjetivo grego kateidōlos, empregado somente aqui no Novo Testamento. A palavra significa “cheia de ídolos” ou “coberta de ídolos”. A tradução da ARC, “tão entregue à idolatria”, comunica corretamente a condição espiritual da cidade, embora o termo destaque primeiro aquilo que Paulo contemplava. Havia imagens, altares, santuários e objetos de culto espalhados por toda parte. A idolatria ateniense estava integrada à organização da cidade, às festividades, à política, à arte e ao modo como os habitantes compreendiam o mundo. Plínio afirmou que, ao tempo de Nero, Atenas estava ornamentada por mais de trinta mil estátuas públicas. Petrônio disse que era mais
fácil encontrar um deus em Atenas do que um homem. Cada templo, cada portão, cada pórtico, cada edifício tinha as suas divindades protetoras. Xenofonte, citado por Champlin, assim descreveu a cidade: “O lugar inteiro é um altar, e a cidade inteira é um sacrifício e uma oferta aos deuses”. Warren Wiersbe observa que, ao chegar a Atenas, o objetivo de Paulo não era ver as atrações da cidade, mas ganhar almas para Cristo. Para Paulo, os artefatos da cidade não eram meros objetos artísticos, mas objetos de uma religião pagã. O que Paulo sentiu? Como ele reagiu a tudo isso? O verbo usado para descrever a reação de Paulo é paroxynō. O termo comunica uma forte perturbação interior e pode envolver indignação. O apóstolo sentiu tristeza pelos atenienses, mas sua reação não deve ser reduzida a compaixão. Ele também foi tomado por zelo porque a glória devida ao Criador estava sendo oferecida às criaturas e às imagens. Paulo conhecia o ensino das Escrituras sobre a exclusividade de Deus e a gravidade da idolatria. Os ídolos de Atenas não representavam formas alternativas e igualmente legítimas de buscar o Senhor. Eram expressões da rebelião humana contra o Criador. Um visitante poderia ficar impressionado com os templos, as esculturas e as realizações intelectuais da cidade. Paulo enxergou tudo isso, porém interpretou o que viu segundo a revelação de Deus. O apóstolo avaliou Atenas pelas categorias das Escrituras, e não pelos critérios de respeitabilidade adotados pela sociedade. A reação de Paulo mostra o que deve acontecer quando o cristão entende e passa a ver a idolatria de seu tempo. Ele não pode se limitar à indignação nem tratar as pessoas com desprezo. Paulo foi impelido a anunciar o Evangelho. A cidade que mais o incomodou tornou-se o lugar onde ele apresentou uma das exposições bíblicas mais conhecidas das Escrituras.

 1.2 O início da evangelização na sinagoga (At 17.17a). Verdade central: Como era seu costume, Paulo iniciou a proclamação do evangelho na sinagoga, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus. Esse método seguia o princípio de anunciar o Evangelho “primeiro ao judeu e também ao grego”.
Para refletir: “Disputava na sinagoga com os judeus e religiosos” (At 17.17). O Evangelho deve ser anunciado com fidelidade onde houver ouvintes. Tenho aproveitado os ambientes que Deus já abriu para falar de Cristo?
A LIÇÃO DIZ: Como era seu costume, Paulo iniciou sua proclamação do Evangelho na sinagoga, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus (At 17.17a). Esse método seguia o princípio apostólico de anunciar o Evangelho primeiro ao judeu e também ao grego (Rm 1.16; At 17.2). Ainda que a comunidade judaica em Atenas fosse pequena, ela oferecia uma base inicial para a exposição das Escrituras e a apresentação de
Jesus como o Messias prometido. A sinagoga permanecia, assim, como espaço estratégico para o anúncio do Evangelho.
O texto bíblico diz:
Por isso, falava na sinagoga com os judeus e os gentios piedosos (At 17.17a, NAA). A presença de uma sinagoga mostra que havia uma comunidade judaica organizada em Atenas. A palavra “religiosos” empregada pela ARC traduz o particípio grego sebomenois, usado em Atos para designar gentios que reverenciavam o Deus de Israel e mantinham algum vínculo com a sinagoga, razão pela qual a tradução NAA é mais assertiva. Essas pessoas haviam demonstrado interesse pela fé judaica, ouviam as Escrituras e rejeitavam parte da idolatria comum ao mundo greco-romano, embora não fossem necessariamente prosélitos plenamente incorporados ao judaísmo. Paulo começou pela sinagoga porque esse procedimento correspondia ao lugar de Israel na história da salvação. Deus havia confiado ao povo judeu as Escrituras, as alianças, as promessas e a esperança messiânica. Jesus veio como o descendente de Davi e o cumprimento das promessas feitas aos patriarcas.

  Por essa razão, o anúncio apostólico dirigia-se primeiro aos judeus e depois alcançava os gentios (Rm 1.16). A prioridade era histórica e teológica. O Evangelho cumpria aquilo que Deus havia prometido a Israel e, por meio do Messias de Israel, estendia a salvação às nações. Paulo respeitava essa ordem quando procurava a sinagoga ao chegar a uma nova cidade. O verbo traduzido na ARC por “disputava” é dialegomai. A tradução pode transmitir ao leitor moderno a ideia de uma discussão hostil, mas o termo descreve o ato de conversar, argumentar, raciocinar ou apresentar razões. Por essa razão a NAA traduziu o termo usando a expressão “falava”. Paulo não entrava na sinagoga para provocar uma briga. Ele dialogava com os ouvintes e demonstrava, a partir das Escrituras, que as promessas de Deus haviam se cumprido em Jesus. O conteúdo específico de sua exposição na sinagoga de Atenas não foi registrado. O início do capítulo, porém, mostra como Paulo costumava proceder. Em Tessalônica, ele explicou e demonstrou pelas Escrituras que era necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos, concluindo que Jesus era o Cristo anunciado (At 17.2,3). É provável que sua argumentação em Atenas tenha seguido esse mesmo padrão. A sinagoga era um ambiente que exigia uma abordagem diferente das que Paulo praticava quando falava nas praças ou para públicos especificamente não judeus. Entre judeus e gentios tementes a Deus, Paulo podia recorrer diretamente às Escrituras, às promessas messiânicas e à história de Israel. Diante dos filósofos, ele começou pela criação, pela providência divina e pela condição religiosa de Atenas. Falar com uma pessoa que conhece a Bíblia não é igual a conversar com alguém que nunca teve um contato significativo com a fé cristã. O evangelista precisa saber onde começar, quais conceitos necessitam de explicação e quais dúvidas estão impedindo o ouvinte de compreender o Evangelho. Adaptar a explicação não significa alterar o Evangelho. Outro ponto importante que precisa ser dito é que dialogar não significa tratar todas as crenças como igualmente verdadeiras nem transformar a mensagem cristã em uma opinião aberta a qualquer modificação. Paulo ouvia e argumentava, mas anunciava uma verdade recebida de Deus. Ele desejava persuadir seus ouvintes, não negociar a identidade de Cristo. Você já percebeu que muitos conflitos religiosos são promovidos porque cristãos entram em conversas sem a disposição para ouvir e sem o preparo para explicar aquilo em que creem. Paulo sustentou a verdade, apresentou razões e permaneceu disposto a conversar. A evangelização deve visar o coração, mas também a mente das pessoas. O Evangelho deve chamar o pecador ao arrependimento e oferecer a ele os fundamentos para a fé em Jesus.

1.3 A proclamação do Evangelho na ágora (At 17.17b).
Verdade central: Além da sinagoga, Paulo levou o Evangelho à ágora, a praça pública onde se concentrava a vida social, política e intelectual de Atenas. Ali dialogava diariamente com gentios e filósofos.
Para refletir: Tenho levado o Evangelho aos ambientes do meu cotidiano como o trabalho, escola, vizinhança, ou limito minha fé apenas ao meu lar ou a igreja?
A LIÇÃO DIZ: Além da sinagoga, Paulo levou o Evangelho à ágora, a praça pública onde se concentrava a vida social, política e intelectual da cidade (At 17.17b). Ali, dialogava diariamente com gentios e filósofos interessados em “ouvir alguma novidade” (At 17.21). Esse movimento revela que o Evangelho não se restringe aos espaços religiosos, mas deve alcançar o coração da sociedade.

 A evangelização de Paulo em Atenas ocorreu em dois ambientes distintos. Na sinagoga, ele conversava com judeus e gentios tementes a Deus. Na ágora, encontrava pessoas que viviam fora desse contexto religioso e pensavam segundo outras tradições. O apóstolo não abandonou a sinagoga, mas também não permitiu que sua atuação permanecesse limitada a ela. A ágora era o espaço público no qual se desenvolvia boa parte da vida urbana. Negócios eram realizados, notícias circulavam, autoridades exerciam funções e diferentes assuntos eram discutidos. Em Atenas, a praça também possuía grande importância intelectual. Pessoas ligadas às escolas filosóficas encontravam ali a oportunidade para ensinar, ouvir e debater os mais variados assuntos. O texto também informa que a atividade evangelística de Paulo acontecia diariamente. Ele voltava ao mesmo ambiente, encontrava novos ouvintes e mantinha conversas com quem demonstrava interesse. A perseverança fazia parte de seu método evangelístico. O verbo dialegomai, já empregado para sua atuação na sinagoga, também governa o trabalho realizado na praça. O apóstolo procurava comunicar o Evangelho de maneira que seus ouvintes compreendessem aquilo que estava sendo anunciado. O versículo seguinte esclarece que Paulo anunciava “Jesus e a ressurreição” (At 17.18). Ele não foi à praça somente para aprender sobre a filosofia ateniense ou discutir suposições teológicas. Seu interesse pela cultura estava subordinado à missão de tornar Cristo conhecido. A presença de Paulo na ágora mostra que a fé cristã possui uma mensagem para a vida pública. O Evangelho não trata somente de experiências particulares mantidas dentro das quatro paredes da igreja. Ele responde às questões fundamentais da existência humana, pois revela quem é Deus, explica a condição humana e anuncia que a história caminha para o juízo estabelecido pelo Criador. O apóstolo também não esperou que os atenienses fossem até a sinagoga. Ele se dirigiu ao lugar onde estavam. A Igreja sai de Jerusalém, atravessa fronteiras geográficas e culturais e anuncia Cristo em ambientes cada vez mais distantes de sua origem judaica. A ida de Paulo à praça corresponde, em escala local, ao movimento missionário do próprio livro, isto é, a igreja indo em busca dos perdidos. A Igreja não deve abandonar suas reuniões, mas precisa reconhecer que grande parte das pessoas nunca entrará espontaneamente em um templo para ouvir uma exposição bíblica. Elas estão nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades, nos espaços comerciais e nos ambientes de convivência. Desta forma, temos a responsabilidade de entrar nesses lugares com o Evangelho. Anunciar o Evangelho não se resume a entregar um folheto, repetir uma frase ou convidar alguém para
um culto. Essas práticas podem ser úteis, mas Paulo demonstra a importância da conversa paciente e continuada. Algumas pessoas precisam fazer perguntas, apresentar objeções e ouvir explicações antes de compreender a mensagem do Evangelho. Como cristãos, não podemos temer as perguntas difíceis, as dúvidas, os questionamentos daqueles que ainda não servem a Jesus. Pelo contrário, precisamos estar preparados para responder com paciência a razão da nossa fé (1Pe 3.15).
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 1):
1. O que Paulo sentiu ao ver Atenas entregue à idolatria?
2. Por que Paulo iniciou a evangelização na sinagoga?
3. O que era a ágora e por que Paulo pregou ali?
4. O que a atitude de Paulo nos ensina sobre os espaços de proclamação do Evangelho?

2. OS FILÓSOFOS EPICUREUS E ESTOICOS (At 17.18-21)
Pergunta chave: Quais filosofias Paulo confrontou e como elas se opunham ao Evangelho?
Ideia central do ponto: Em Atenas, Paulo confrontou duas filosofias dominantes: os epicureus, que buscavam o prazer e negavam a vida após a morte, e os estoicos, que criam em um deus impessoal e no destino. Como ambas as filosofias contrariavam o Evangelho, seus representantes levaram Paulo ao Areópago para que explicasse o novo ensino que anunciava.
2.1 Os epicureus: o prazer como finalidade da vida (At 17.18).
Verdade central: Os epicureus consideravam o prazer o bem supremo e negavam a ação providencial dos deuses. Para eles, as divindades permaneciam distantes e indiferentes aos assuntos humanos, e a morte representava o fim da existência. Essa concepção se opunha ao Evangelho, que afirma a responsabilidade moral do ser humano, o juízo de Deus e a esperança da vida eterna.
Para refletir: É um grande erro viver buscando prazer imediato como se não houvesse vida após a morte. A filosofia epicurista ecoa hoje no hedonismo e no materialismo. O cristão sabe que há ressurreição e prestação de contas diante de Deus.
A LIÇÃO DIZ: Entre os que confrontaram Paulo em Atenas estavam os filósofos epicureus, seguidores de Epicuro (341-270 a.C.). Eles defendiam o prazer como bem supremo, entendido como ausência de dor e sofrimento. Eram materialistas e negavam a providência divina, admitindo a existência dos deuses apenas de forma distante e indiferente à vida humana. Para eles, a morte representava o fim de tudo, o que justificava uma vida voltada à satisfação imediata dos desejos. Os epicureus receberam esse nome por seguirem os ensinamentos de Epicuro, filósofo que viveu entre 341 e 270 a.C. Sua escola foi estabelecida em Atenas e ficou conhecida como “O Jardim”. Quando Paulo chegou à cidade, o epicurismo já possuía mais de três séculos de existência e continuava exercendo influência no mundo greco-romano. A filosofia de Epicuro procurava oferecer uma explicação completa da realidade e um caminho para a felicidade. Ela abrangia a natureza do universo, o conhecimento, a alma, os deuses, a morte, os desejos e a vida em sociedade. Sua finalidade prática era libertar as pessoas dos medos que perturbavam a existência, especialmente o medo dos deuses e da morte. A matéria constituía a base de sua explicação sobre o universo. Seguindo a tradição atomista, os epicureus sustentavam que todas as coisas eram formadas por átomos em movimento no vazio. O mundo não havia sido criado por um Deus pessoal nem era governado segundo um propósito moral. A realidade resultava de processos materiais, sem depender da ação providencial de uma divindade. Os epicureus não negavam necessariamente a existência dos deuses. Eles os concebiam como seres felizes e imperturbáveis, distantes dos problemas humanos. Esses deuses não haviam criado o mundo, não governavam os acontecimentos e não recompensavam nem castigavam as pessoas. A tranquilidade humana dependia, em parte, de abandonar o medo de uma intervenção divina.

  A alma também era considerada material. Segundo essa concepção, ela era formada por átomos sutis espalhados pelo corpo. Quando a pessoa morria, esses átomos se dispersavam e a consciência deixava de existir. Não haveria sobrevivência pessoal, ressurreição, juízo ou punição depois da morte. A afirmação de Epicuro de que a morte “nada é para nós” procurava eliminar o temor do que aconteceria depois desta vida. Além disso, enfatizamos que o epicurismo não pode ser reduzido à busca imediata e indiscriminada dos prazeres. Essa descrição corresponde muito mais ao hedonismo cirenaico do que ao pensamento de Epicuro. Para o filósofo, o prazer deve ser guiado pela prudência. Logo, isso significa que alguns prazeres precisam ser evitados quando produzem sofrimentos maiores, enquanto certos desconfortos podem ser aceitos porque conduzem a um bem mais elevado no futuro. Por exemplo: alguém pode abrir mão do prazer imediato de comer e beber em excesso, sabendo que esse comportamento poderá causar doenças e comprometer sua qualidade de vida. Da mesma forma, pode aceitar o desconforto de uma dieta, da prática de exercícios físicos ou de um tratamento médico, porque esses sacrifícios momentâneos tendem a produzir saúde e bem-estar duradouros. Para Epicuro, portanto, o verdadeiro prazer não consiste em satisfazer todos os desejos, mas em escolher, com sabedoria, aqueles que conduzem a uma vida tranquila. O prazer exige prudência, avaliação das consequências e domínio dos próprios desejos.

  Essa informação histórica não diminui o conflito entre o epicurismo e o Evangelho. Pelo contrário, nos permite identificar o confronto com maior precisão. O problema não estava somente na busca do prazer. A visão epicurista eliminava o Criador, negava a providência, dissolvia a alma com a morte e recusava qualquer prestação final de contas diante de Deus. Portanto, cada parte do discurso de Paulo atingiu um elemento dessa filosofia. Contra a ideia de um universo formado somente por átomos e vazio, ele anunciou o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe (At 17.24). Contra os deuses distantes e indiferentes, proclamou que Deus dá a todos vida, respiração e todas as coisas (v.25). Contra uma história sem direção, afirmou que o Senhor determina os tempos e os limites das nações (v.26). Os epicureus acreditavam que a morte encerrava a existência consciente. Paulo anunciava que Deus ressuscitou Jesus corporalmente dentre os mortos e que essa ressurreição confirmava a realidade do juízo futuro (vv.18,31). Aquilo que a filosofia epicurista considerava impossível ocupava uma posição fundamental no Evangelho. O anúncio do juízo também destruía a segurança oferecida por uma vida sem responsabilidade diante do Criador. Se Deus estabeleceu um dia no qual julgará o mundo com justiça, a morte não encerra a história do ser humano. Todos prestarão contas ao Senhor. A tranquilidade baseada na inexistência do juízo não pode permanecer diante da realidade do Evangelho. Paulo não procurou tornar o Evangelho aceitável retirando dele as verdades que contrariavam seus ouvintes.
2.2 Os estoicos: razão, destino e impessoalidade divina (At 17.18).
Verdade central: Os estoicos valorizavam razão, virtude e autocontrole, defendendo submissão ao destino. Concebiam Deus como força impessoal que permeava tudo, não como ser pessoal. Eram panteístas e fatalistas, negando a ressurreição. Essa posição se opõe à
fé em um Deus pessoal e amoroso.
Para refletir: Minha fé está firmada em um Deus pessoal que se relaciona comigo e age na história.
A LIÇÃO DIZ: Também dialogavam com Paulo os filósofos estoicos, seguidores de Zeno (333-263 a.C.). Valorizavam a razão, a virtude e o autocontrole, defendendo que o homem deveria submeter-se ao destino e controlar as emoções. Embora cressem em uma divindade, concebiam Deus não como um ser pessoal, mas como uma força impessoal que permeava todas as coisas. Eram panteístas e fatalistas, negando tanto a ressurreição do corpo quanto a imortalidade individual da alma, posição que se opunha diretamente à fé cristã (At 17.18; 1Co 15.12).

  O estoicismo surgiu em Atenas por volta do ano 300 a.C., quando Zenão de Cítio começou a ensinar em um pórtico conhecido como Stoa Poikile, expressão que pode ser traduzida como “Pórtico Pintado”. O nome da escola filosófica veio desse local. Seus seguidores procuravam responder a uma questão prática: como o ser humano pode viver bem em um mundo sujeito a perdas, sofrimentos e acontecimentos que não podem ser controlados? A resposta que davam estava na vida conduzida pela razão, na prática da virtude e na aceitação da ordem estabelecida pelo destino. A virtude era considerada o verdadeiro bem e o único fundamento seguro para uma vida feliz. Para os estoicos, o universo era governado por um princípio racional chamado logos. Esse princípio permeava toda a realidade e estabelecia uma ordem necessária para os acontecimentos. Viver de acordo com a natureza significava ajustar a própria vida a essa razão universal. Por isso, o homem sábio deveria aprender a distinguir entre aquilo que dependia de suas escolhas e aquilo que estava fora de seu controle. Sua responsabilidade consistia em governar os próprios juízos, agir virtuosamente e aceitar sem revolta as circunstâncias que não poderia mudar. Essa filosofia produzia uma ética de disciplina, perseverança e autocontrole que certamente impressionava muitos ouvintes de Paulo. As paixões eram vistas como julgamentos desordenados que perturbavam a razão. O ideal da apatheia (paz interior) consistia na libertação desses impulsos irracionais, permitindo que o sábio agisse de modo equilibrado. No entanto, o problema dessa perspectiva filosófica não estava na busca por uma vida disciplinada, mas na confiança de que o ser humano poderia alcançar a verdadeira liberdade mediante o governo racional de si mesmo. A doutrina estoica acerca de Deus também se chocava com a mensagem apostólica. Embora utilizassem palavras como “Deus”, “Zeus”, “providência” e logos, os estoicos não concebiam Deus como o Criador pessoal, distinto da criação. A divindade era entendida como a razão ativa que penetrava e organizava o próprio universo. Deus e o mundo pertenciam à mesma realidade. Por essa razão, o estoicismo pode ser caracterizado como uma forma de panteísmo: o divino estava presente em todas as coisas porque constituía o princípio racional do cosmos. Paulo começará seu discurso corrigindo precisamente essa concepção. O Deus anunciado pelo apóstolo “fez o mundo e tudo o que nele há” e é “Senhor do céu e da terra” (At 17.24). Deus não é a alma do universo nem uma força presente na matéria. Ele é o Criador soberano, anterior à criação e distinto dela. Ao mesmo tempo, permanece próximo de suas criaturas, sustenta-lhes a existência e governa a história. 

   A submissão estoica ao destino igualmente difere da confiança bíblica na providência divina. O destino, para o estoicismo, correspondia à ordem necessária e racional do cosmos. Paulo, porém, apresenta um Deus pessoal que criou as nações, determinou seus tempos e estabeleceu os limites de sua habitação (At 17.26). A história não está submetida a uma sequência impessoal de causas, mas ao governo sábio do Senhor. A disciplina estoica pode oferecer observações úteis sobre prudência, responsabilidade e domínio próprio, mas não pode resolver o problema mais profundo do coração humano. O pecado não é vencido apenas pela educação da vontade. O domínio próprio apresentado no Novo Testamento é fruto do Espírito Santo (Gl 5.22,23), desenvolvido em uma vida de comunhão com Cristo.
2.3 Paulo levado ao Areópago: o Evangelho diante da cultura (At 17.19-21). Verdade central: Paulo foi levado ao Areópago, o conselho de sábios atenienses. Alguns o desprezaram, chamando-o de “paroleiro”;outros ficaram curiosos com seu “ensino estranho” sobre Jesus e a ressurreição. O cristão deve estar preparado para apresentar a sua fé em contextos intelectuais desafiadores.

 Para refletir: O Evangelho confronta toda filosofia humana sem perder sua essência.
A LIÇÃO DIZ: Diante das reações diversas, Paulo foi levado ao Areópago, local que designava tanto a Colina de Marte quanto o conselho de sábios atenienses. Alguns o desprezaram, chamando-o de “paroleiro”, enquanto outros demonstraram curiosidade diante do “ensino estranho” que anunciava Jesus e a ressurreição (At 17.19-21).
O texto bíblico diz:
Então, tomando-o consigo, levaram-no ao Areópago, dizendo: — Podemos saber que nova doutrina é essa que você ensina? Pois você nos traz aos ouvidos coisas estranhas e queremos saber o que vem a ser isso.Acontece que todos os de Atenas e os estrangeiros residentes não se ocupavam com outra coisa senão dizer ou ouvir as últimas novidades (At 17.19-21, NAA). A pregação de Paulo na praça despertou reações distintas entre os ouvintes. Alguns filósofos o trataram com desprezo e perguntaram: “Que quer dizer este paroleiro?” (At 17.18). Outros perceberam que aquela mensagem continha ideias diferentes das que circulavam em Atenas. O anúncio de Jesus e da ressurreição provocou curiosidade suficiente para que Paulo fosse conduzido ao Areópago, onde poderia apresentar sua doutrina de maneira mais organizada. O termo traduzido como “paroleiro” é spermológos. Seu sentido literal descrevia uma ave que recolhia sementes espalhadas pelo chão. Com o tempo, a palavra passou a ser aplicada de modo depreciativo a pessoas que recolhiam fragmentos de informações em diferentes lugares e depois os repetiam sem verdadeira compreensão do que estava sendo dito. Os filósofos estavam chamando Paulo de catador de ideias, um pregador intelectualmente superficial que reunia pensamentos alheios e tentava apresentá-los como se fossem seus. A ironia dessa classificação se torna evidente no desenvolvimento da narrativa. Os atenienses julgavam Paulo com base em seus próprios critérios de prestígio intelectual, mas o apóstolo era o único naquela praça que conhecia a verdade acerca de Deus, do ser humano e da história. A cultura de Atenas possuía uma longa tradição filosófica, monumentos impressionantes e intensa atividade religiosa, mas continuava ignorante a respeito do Criador. O suposto “paroleiro” anunciava a mensagem de que os sábios da cidade mais necessitavam.

  O Areópago designava originalmente uma colina rochosa situada a noroeste da Acrópole. Seu nome significa “Colina de Ares”, chamada pelos romanos de “Colina de Marte”. O mesmo termo também identificava o antigo conselho de Atenas, uma instituição de grande prestígio que exercia funções judiciais, religiosas e cívicas. Por isso, não é possível determinar com absoluta certeza se Lucas pretende destacar o local da reunião, o conselho reunido ou ambos. O mais importante para a interpretação é que Paulo passou a falar diante de um público capaz de avaliar a natureza de seu ensino. A pergunta feita a Paulo, nesta ocasião, revela a mistura de curiosidade e superioridade intelectual presente em seus ouvintes: “Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?” (At 17.19). O verbo “poderemos” não expressa incapacidade, mas uma solicitação para que o apóstolo explique seu ensino. Eles reconheciam que Paulo apresentava algo novo, mas ainda o tratavam como objeto de investigação filosófica. Para eles, o evangelho era mais uma ideia a ser examinada. Para Paulo, era a revelação de Deus que exigia arrependimento e fé. Lucas acrescenta que “todos os atenienses e estrangeiros residentes de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade” (At 17.21). Essa observação trata-se de uma caracterização da inclinação cultural daquele ambiente. Atenas valorizava discussões, debates e novidades intelectuais.

 A mudança da praça para o Areópago demonstra como Deus pode transformar uma oposição numa oportunidade missionária. Os filósofos pretendiam provar Paulo examinar suas palavras, mas acabaram oferecendo-lhe um auditório. Aquele que parecia estar sendo avaliado recebeu a oportunidade para confrontar as convicções de seus avaliadores. Paulo não recusou o convite por considerar aqueles homens arrogantes ou idólatras. Tampouco tentou impressioná-los com uma exibição de erudição. O apóstolo aceitou a oportunidade e organizou sua exposição a partir das questões presentes naquele contexto. Ele conhecia o pensamento de seus ouvintes, observava seus costumes e sabia utilizar elementos de sua cultura. Contudo, sua mensagem continuava governada pela revelação divina. Que desafio esse texto nos impõe. O crente deve conhecer as Escrituras, compreender as principais perguntas de seu tempo e explicar por que o evangelho oferece respostas verdadeiras. A dependência do Espírito Santo não dispensa o estudo cuidadoso. Paulo estava preparado porque sua mente havia sido formada pela
Palavra de Deus e sua vida estava comprometida com a obra missionária.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 2):
1. O que os epicureus defendiam e por que isso colidia com o Evangelho?
2. Como os estoicos concebiam Deus e por que isso se opõe à fé cristã?
3. O que era o Areópago e por que Paulo foi levado até lá?
4. Como alguns filósofos reagiram à pregação de Paulo?

3. O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO
Pergunta chave: Como Paulo anunciou o Deus verdadeiro aos atenienses?
Ideia central do ponto: No Areópago, Paulo tomou o altar dedicado “Ao Deus Desconhecido” como ponto de partida para anunciar o Deus  verdadeiro. Proclamou o Senhor como Criador e Sustentador de todas as coisas, declarou que todos são chamados ao arrependimento e afirmou que Deus julgará o mundo por meio de Jesus Cristo, cuja ressurreição confirma sua autoridade.
3.1 Observação cultural como ponto de contato com o Evangelho (At 17.22,23).
Verdade central: Paulo observou a religiosidade dos atenienses e mencionou o altar ao Deus Desconhecido. Ele usou esse elemento como ponto de partida para anunciar o Deus verdadeiro.
Para refletir: Não podemos confundir ponte cultural com concessão doutrinária. Paulo dialogou com a cultura, mas não negociou a verdade.
A LIÇÃO DIZ: O apóstolo inicia o seu discurso reconhecendo a religiosidade dos atenienses e menciona o altar dedicado “Ao Deus Desconhecido”. Em vez de confrontar diretamente a idolatria, utiliza esse elemento cultural como ponto de partida para anunciar o Deus verdadeiro.
O texto bíblico diz: Então Paulo, levantando-se no meio do Areópago, disse: — Senhores atenienses! Percebo que em tudo vocês são bastante religiosos, porque, andando pela cidade e observando os objetos de culto que vocês têm, encontrei também um altar no qual aparece a seguinte inscrição: “Ao Deus Desconhecido”. Pois esse que vocês adoram sem conhecer é precisamente aquele que eu lhes anuncio (At 17.22-23, NAA). A primeira atitude de Paulo diante do Areópago foi demonstrar que havia observado cuidadosamente a vida religiosa da cidade. Enquanto caminhava por Atenas, ele examinou seus altares, imagens e objetos de culto, procurando compreender como os atenienses concebiam o mundo divino. Para ele, a multiplicação dos santuários não comprovava nenhum avanço espiritual, mas revelava uma profunda ignorância acerca do Criador.

 O termo grego deisidaimonésteros, expressão usada por Paulo para descrever os atenienses, pode transmitir uma avaliação positiva, “muitoreligiosos”, ou uma censura, “supersticiosos”. A tradução empregada pela revista conserva o segundo sentido, enquanto outras versões preferem “muito religiosos”. É provável que Paulo tenha utilizado uma expressão deliberadamente cuidadosa, capaz de reconhecer a intensa devoção dos ouvintes sem aprovar o conteúdo de sua religião. Paulo não iniciou seu discurso insultando os atenienses, pois uma ofensa desnecessária fecharia os ouvidos de seu público antes que a mensagem do evangelho fosse proclamada. Ao mesmo tempo, não declarou que a sinceridade deles era suficiente para que fossem salvos. Uma pessoa pode ser intensamente religiosa e permanecer distante do conhecimento verdadeiro de Deus. A quantidade de altares em Atenas demonstrava devoção que eles tinham, mas também denunciava incerteza, medo e ignorância. Entre os numerosos objetos de culto, Paulo encontrou um altar com a inscrição: “Ao Deus Desconhecido”. Escritores antigos mencionam a existência, em Atenas, de altares dedicados a deuses desconhecidos. Esses altares provavelmente expressavam o receio de que alguma divindade tivesse sido esquecida e, por isso, pudesse sentir-se ofendida. Os atenienses procuravam assegurar que nenhum poder divino
permanecesse completamente sem a devida homenagem. A cidade possuía templos, sacerdotes, sacrifícios e altares, mas admitia que poderia existir uma divindade que ainda não conhecia. Toda a sua erudição não havia eliminado a ignorância que tinham a acerca do Deus verdadeiro. O altar funcionava como uma confissão involuntária de que o conhecimento religioso dos atenienses era incompleto. Paulo utilizou essa confissão como ponto de partida: “Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que eu vos anuncio” (At 17.23).

O altar ao DEUS DESCONHECIDO ofereceu um ponto de contato, não o fundamento da mensagem. O fundamento continuou sendo a revelação do Deus verdadeiro. Paulo partiu de algo conhecido por seus ouvintes e os conduziu ao que desconheciam. Paulo adaptou a comunicação, não a verdade. Na sinagoga, recorria diretamente à história de Israel e às promessas messiânicas. No Areópago, começou com a criação, a providência e a dependência de toda a humanidade. O ponto de partida mudou porque os ouvintes eram diferentes. A pregação bíblica dirigida ao Areópago nos ensina que como evangelistas (a missão de evangelizar e não o ofício) precisamos realizar dois movimentos. O primeiro consiste em aproximar-se do ouvinte,compreender sua linguagem e reconhecer as questões que ele enfrenta. O segundo consiste em conduzi-lo  para fora de suas falsas crenças, apresentando a verdade revelada por Deus. Precisamos do poder do Espírito, mas também de uma abordagem inteligente, racional e bíblica para chegar em cada pessoa.

3.2 O Deus Criador, Sustentador e Senhor da história (At 17.24-29).
Verdade central: Paulo proclamou Deus como Criador do mundo, Senhor do céu e da terra, Sustentador da vida e soberano sobre as nações. Deus não pode ser reduzido a templos ou imagens.
Para refletir: “Deus, que fez o mundo e tudo que nele há” (At 17.24). O Deus verdadeiro é Criador e Senhor de todas as coisas.
A LIÇÃO DIZ: Na sequência, Paulo proclama Deus como Criador do mundo e de tudo o que nele há, Senhor do céu e da terra, que não habita em templos feitos por mãos humanas nem depende do serviço humano (vv.24,25). Afirma a unidade da raça humana e a soberania divina sobre os tempos e limites das nações (v.26), revelando que o propósito de Deus é que os homens o busquem (v.27). Ao citar poetas gregos, Paulo mostra que até na cultura pagã há vestígios da verdade, mas conclui que Deus não pode ser comparado a imagens materiais (v.29). Paulo começou sua exposição afirmando que o Deus desconhecido dos atenienses é o Criador do mundo. O universo não surgiu por acaso nem resultou da ação independente de forças eternas. Com tal declaração, como vimos, Paulo estava confrontando os epicureus e estoicos. Os primeiros atribuíam a origem do mundo ao movimento dos átomos e concebiam os deuses como distantes dos assuntos humanos. Os estoicos
identificavam a divindade com a razão presente no universo. Paulo apresentou outra verdade: Deus criou todas as coisas, permanece distinto da criação e sustenta tudo o que existe. Ao chamá-lo de “Senhor do céu e da terra”, Paulo declarou que Deus governa toda a realidade e não divide seu domínio com outras divindades. Sua exposição estava fundamentada no Antigo Testamento, especialmente no relato da criação e na mensagem dos profetas acerca do Senhor que governa as nações e não pode ser comparado aos ídolos. Paulo também asseverou que Deus “não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 17.24). Você consegue perceber como essa declaração confrontava a religiosidade ateniense, conhecida por seus templos monumentais. Nenhuma construção poderia conter o Senhor do universo. Estêvão já havia ensinado essa verdade ao citar Isaías: o céu é o trono de Deus, e a terra, o estrado de seus pés (At 7.48,49; Is 66.1). A questão não é a importância dos lugares de culto, mas o fato de que Deus jamais pode ser limitado a um edifício. O Deus verdadeiro também não é servido por mãos humanas “como se precisasse de alguma coisa” (At 17.25). Os pagãos ofereciam sacrifícios para alimentar seus deuses ou conquistar seus favores. Paulo inverteu essa lógica: Deus não recebe dos homens aquilo que lhe falta, pois é ele quem “a todos dá vida, respiração e tudo mais”. Nós o servimos porque dependemos dele. O filósofo, o trabalhador e o governante permanecem vivos porque Deus sustenta cada respiração. Na sequência, Paulo enfatizou que Deus “de um só fez toda a humanidade” (At 17.26), referência que provavelmente remete a Adão. Essa origem comum confrontava o orgulho dos atenienses, que se consideravam superiores aos estrangeiros. Todos os povos pertencem à mesma humanidade criada por Deus. As diferenças culturais não estabelecem diferentes graus de dignidade. Todos foram atingidos pelo pecado e precisam da salvação oferecida em Cristo. O governo de Deus alcança também os tempos e os limites das nações. Impérios surgem, fronteiras mudam e governos desaparecem sob sua autoridade. A história não é conduzida por um destino impessoal, como pensavam os estoicos, mas pela vontade soberana do Senhor. Deus dirige os acontecimentos para que os homens o busquem, embora, por causa do pecado, procurem-no como quem tateia na escuridão.

   Ao declarar que Deus “não está longe de cada um de nós”, Paulo voltou a confrontar os filósofos. Contra os epicureus, afirmou que Deus está próximo e sustenta a existência humana. Contra os estoicos, mostrou que essa proximidade não significa que Deus faça parte do universo. O Criador está presente e atua na criação, mas não se confunde com ela. Paulo reforçou seu argumento citando uma linguagem conhecida dos atenienses: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” e “dele também somos geração” (At 17.28). A segunda frase pertence ao poema NFenômenos, de Arato. O apóstolo não colocou a poesia grega no mesmo nível das Escrituras nem aprovou sua visão religiosa. Ele utilizou um texto conhecido de seus ouvintes para demonstrar que toda a humanidade depende do verdadeiro Deus. Se recebemos de Deus a vida, não podemos representá-lo por meio de ouro, prata ou pedra. Deus fez o homem; o homem não pode fabricar Deus. A idolatria inverte essa ordem ao criar uma divindade conforme os desejos humanos. Ainda hoje, muitos imaginam um deus que aprove suas escolhas, não julgue o pecado e não
exija arrependimento. Paulo nos ensina que nossa compreensão de Deus deve ser corrigida pelas Escrituras. Ele é o Criador, o Sustentador e o Senhor da história.
3.3 O chamado ao arrependimento e o anúncio do Juízo (At 17.30,31).
Verdade central: Paulo concluiu seu discurso com um chamado ao arrependimento e o anúncio do juízo vindouro. A ressurreição de Jesus Cristo é a garantia de que Deus julgará o mundo com justiça por meio daquele que constituiu como Juiz.
Para refletir: “Anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam” (At 17.30). O chamado de Deus é universal e urgente.
A LIÇÃO DIZ: Paulo encerra o discurso com um chamado direto ao arrependimento, afirmando que Deus agora ordena que todos se arrependam, pois estabeleceu um dia em que julgará o mundo com justiça por meio de Jesus Cristo, confirmado pela ressurreição (vv.30,31; 1Co 15.1-23). A reação é mista: alguns zombam, outros desejam ouvir novamente, e poucos creem, entre eles Dionísio e Dâmaris (vv.32-34). Paulo encerrou seu discurso explicando que Deus havia tolerado “os tempos da ignorância” (At 17.30). Essa ignorância tratava-se do desconhecimento espiritual acerca do Deus verdadeiro. A cidade estava repleta de altares, mas seus habitantes continuavam afastados do Criador. Deus conteve a execução imediata do juízo e demonstrou paciência com as nações. Essa tolerância oferecia a oportunidade para o arrependimento, mas não transformava o pecado em uma prática legítima. A demora do julgamento revelava misericórdia de Deus, não indiferença quanto ao mal. Desta forma, a palavra “agora” assinalava uma nova etapa no plano de Deus. Cristo havia morrido e ressuscitado, o Espírito Santo fora derramado e o evangelho estava sendo anunciado entre as nações. Os atenienses já possuíam o testemunho da criação e da providência, mas agora ouviam a mensagem da ressurreição. A revelação recebida aumentava sua responsabilidade diante de Deus. Por essa razão, Deus “ordena a todos, em todo lugar, que se arrependam” (At 17.30). O verbo metanoeō descreve uma mudança de mente e direção. Para aqueles ouvintes, arrepender-se significava abandonar os ídolos, renunciar às falsas concepções acerca de Deus e voltar-se para o Criador revelado por meio de Jesus Cristo.

  Paulo, portanto, apresentou a razão para tamanha urgência: Deus estabeleceu o dia em que julgará o mundo com justiça (At 17.31). A história caminha para um momento determinado pelo próprio Senhor. Atenienses e estrangeiros, filósofos e iletrados comparecerão diante do mesmo tribunal. Deus conhece perfeitamente as ações, os pensamentos e as motivações dos homens, por isso sua sentença será plenamente justa. Esse julgamento acontecerá por meio “do homem que destinou”, isto é, Jesus Cristo. Lucas já havia informado que Paulo anunciava Jesus e a ressurreição na praça (At 17.18). Aquele que veio como Salvador também exercerá a função de Juiz. A reação dos ouvintes foi mista. Alguns zombaram porque a ressurreição contrariava suas convicções. Outros disseram que ouviriam Paulo novamente, resposta que poderia indicar interesse ou um simples adiamento. Lucas não informa se tiveram outra oportunidade. Postergar o arrependimento é perigoso porque ninguém possui garantia de que ouvirá novamente o chamado de Deus. Outros, porém, creram. Lucas menciona Dionísio, membro do Areópago, Dâmaris e mais algumas pessoas (At 17.34). Embora os resultados pareçam modestos em comparação com os de outras cidades, os missionários não fracassaram. Cristo foi anunciado em um ambiente dominado pela idolatria, e pessoas responderam com fé ao chamado do Evangelho. A eficiência do mensageiro não pode ser medida somente pela quantidade de conversões imediatas, mas pela sua a Deus e as Escrituras. O desfecho nos ensina que devemos anunciar toda a verdade do Evangelho e deixar os resultados comDeus. Alguns zombarão, outros adiarão e alguns crerão. Uma mensagem que ignora o pecado, o arrependimento
e o juízo não correspondem à pregação apostólica.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 3):
1. Como Paulo usou o altar ao Deus Desconhecido em seu discurso?
2. Que verdades sobre Deus Paulo proclamou no Areópago?
3. Por que a ressurreição de Cristo confirma o anúncio do Juízo?
4. Como o discurso de Paulo orienta o cristão no diálogo com a cultura?

CONCLUSÃO
Agradecemos a Deus pela oportunidade de concluirmos mais uma pré-aula. Nesta lição, aprendemos que Paulo anunciou o evangelho a um público idolatra, mas o fez com muito respeito e fidelidade as Escrituras. Ele apresentou o Deus Criador, chamou os homens ao arrependimento e proclamou a ressurreição de Cristo e o juízo vindouro. Esperamos você na próxima pré-aula, em nome de Jesus. Deus abençoe. Amém.

 

 

REFERÊNCIAS
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Tradução: C. E. S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2014.
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LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.

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