Até mesmo Isabel Allende, de 81 anos e uma das maiores escritoras da sua geração, se desculpa quando é elogiada. Percebi isso ao escutar sua entrevista no podcast Wiser Than Me. A partir desse episódio, comecei a me questionar. Eu, aos 33 anos, faço o mesmo. Vejo amigas de todas as idades também agindo dessa forma. Por que é tão difícil pra nós, mulheres, receber elogios? Por que a nossa reação primária é nos desmerecer ou, então, dizer que “calma, não é tudo isso”?Recentemente foi meu aniversário. Estava comemorando e, então, uma mulher mais velha veio até a minha mesa pedir uma foto e dizer como eu a tinha ajudado a superar um processo muito difícil. Ela fez o seguinte comentário: “Te acho o máximo, minhas amigas também. Mas, afinal, quem não te acha, né?” Instantaneamente eu disse: “Eu. Eu não me acho”. Salvo as devidas proporções, porque sei que tenho domínio sobre algumas coisas e outras não, eu não suportei ouvir aquilo. De fato, eu não me acho o máximo, nem perto disso. Eu queria realmente internalizar que o meu papel enquanto influenciadora e certas coisas que defendo ajudam, sim, algumas mulheres. Eu queria ter noção da dimensão e da importância que a minha fala tem. Queria parar de me desculpar por ter sucesso em determinadas áreas da vida e, da próxima vez que receber um elogio, só dizer “obrigada” e ocupar o meu lugar sem achar que estou sendo prepotente ou soberba por aceitar um comentário sincero.Eu ainda não sei direito o que significa ser mulher, acho que ao longo da vida vamos encontrando significado para isso. Antes, eu achava que ser mulher era casar, cuidar da casa, ser boa esposa e mãe. Eu cresci com esse molde de que isso era ser uma mulher de sucesso. Hoje, eu vejo que não adianta casar, cuidar bem da casa, ser boa esposa e mãe se eu não tiver a minha vida pessoal e as minhas aspirações enquanto ser humano realizadas, os meus estudos, a minha saúde mental e física em dia. Tem muitas coisas que eu quero fazer além disso – e eu falo do lugar de uma mulher que já foi casada e teve a casa, a horta, o jardim, a piscina e tudo mais.. Só isso não me satisfaz. Eu não me sinto menos mulher por não ter um homem ao meu lado, e pensar que isso durante tantos anos me paralisou. Para mim, hoje, ser mulher é ter coragem. Coragem de investir mais em mim do que nos outros, de não ser a boazinha na história de alguém, de mudar de direção quando preciso, de dar a mim mesma todo suporte e amor que eu passei a vida inteira dando aos outros.
A gente é muito mais compassiva e empática com os outros do que com nós mesmas. Afinal, mulheres não podem errar. Para a sociedade, temos que ser perfeitas.No mesmo podcast que citei no início do texto, a escritora Isabel Allende fala sobre a importância de se ter um proposito maior na vida, alguma coisa que realmente nos acenda a alma e nos instigue a continuarmos vivos e curiosos. A falta de proposito envelhece, adoece e contribui para fazermos fracas escolhas. Ao alimentar a minha alma, encontro motivos pra acordar todos os dias pela manhã sem achar que a vida opera contra mim. Na humilde opinião de uma mulher que acabou de completar os seus 33 anos, a maneira mais eficiente de ser feliz é dando luz aos meus talentos e desempenhando o que me faz sentir viva, automaticamente mais completa e menos dependente de fatores externos a mim. Nem sempre foi fácil e, muitas vezes, ainda me questiono sobre os meus propósitos, quais são as marcas que quero deixar e pelo que quero ser lembrada. Definitivamente estou mais perto disso agora do que um ano atrás.Embora lute pelo feminismo, ainda enxergo em mim muitas características patriarcais e machistas que são impostas a nós pela sociedade. Existem dias que morro de medo de não ser escolhida (sendo que eu sei que sou eu que tenho que escolher), morro de medo de envelhecer, de não conseguir ser mãe, de aterrorizar os homens a minha volta por conta dos meus ideais, minha força, meu modo de enxergar o mundo, do meu jeito que é sim sensual e extrovertido (e eu parei de me desculpar por isso). Já escutei de amigas de diversas idades que eu deveria ser um pouco menos, dar menos opinião, ser menos questionadora, me fazer um pouco mais de desentendida sobre assuntos que eu sei que domino, talvez usar roupas que não mostrem tanto o corpo nesse calor do Rio de Janeiro. Veja como isso também é um problema: eu sempre gostei de usar pouca roupa, eu sempre gostei de andar sem sutiã, eu sempre gostei de sentir o vento na minha pele. E não é isso que me faz ser mais ou menos mulher, é apenas como gosto de me sentir. Sim, sou uma pessoa que sente e se permite experimentar sensações, não sou mais uma boneca projetada para agradar os outros. É claro que tenho medo, medo de ficar sozinha, medo de não ter uma família, medo de não ser mãe, medo de não atender às expectativas. Mas tento me desvencilhar desses sentimentos e me libertar disso.Fico pensando que, se eu não tivesse nascido nesta formatação, com o meu corpo do jeito que é (sem tirar as partes do que já fiz pra moldá-lo), que eu sei que se encaixa nos padrões impostos até hoje pela sociedade, se eu seria ouvida, se você estaria lendo essa coluna. Como as mulheres são sempre julgadas primeiro por sua aparência, não é mesmo? Tento desconstruir isso ao meu redor e também em mim mesma.Era muito mais fácil arrumar um parceiro quando eu não dominava certos assuntos. Acontece que, quando tirei certos véus dos meus olhos, não há como voltar atrás. O conhecimento tem um preço que eu estou feliz em pagar, porque sinto no meu coração que estou na direção certa, e eu também consigo perceber isso através da fluidez com que estou escrevendo esse texto.Esses dias, uma amiga que eu amo muito me ligou reclamando sobre o antigo relacionamento. Eu disse: “Você faz terapia, tem estratégia profissional, é incrível. Vai duvidar de tudo isso por conta de outra pessoa?” O curioso é que todas nós já fomos essa amiga. Quantas milhares de vezes procuramos validação através do outro, quantas milhares de vezes deixamos que os outros determinem o nosso valor. Prefira ser independente e passar por suas tempestades com dignidade do que ficar à mercê implorando migalhas de afeto. Isso é muito mais recompensador, é um gesto de amor-próprio. É evidente que a teoria é mais fácil que a prática, mas quanto mais fazemos, mais natural fica.O que tem me trazido mais alegria com a idade e com a maturidade é a liberdade de não ter que agradar todo mundo. Cada vez mais sou o meu modelo ideal. É claro que me sinto um caos em alguns dias, e eles também são importantes, pois ambos ajudam a construir a sensação de estar na minha própria pele.A tarefa mais importante da minha vida ultimamente tem sido desconstruir a relação de competição que estabeleci com as mulheres ao longo dos anos, já fiz tantas escolhas erradas por escolher esses caminhos. Perdi amizades importantes por não conseguir enxergar esses padrões dentro de mim. Já me machuquei tanto por pensar que precisava ser a melhor, a mais desejada, a mais cobiçada. Como isso fomenta a cultura machista, que facilita a vida dos homens e piora tanto a nossa, além de realmente custar caro – tratamentos infinitos, cirurgias plásticas, cremes e mais cremes, preenchimento, laser e mais um milhão de coisas que aparecem para nos lembrar que não estamos perfeitas e que precisamos fazer mais, porque nunca será o suficiente.Eu luto para que a minha alma vença, eu luto por quem eu sou e sei que, ao fazer isso e não me esconder nem me diminuir, eu alimento isso em você também. Quando uma mulher se liberta das amarras, ela liberta as outras também. Não sejamos menos para que seja confortável ou facilite a vida dos outros, sejamos o máximo que podemos ser. Gostaria de terminar este texto destinado às mulheres pedindo que você não se cale, não se esconda, não se conforme, não desista, não se encolha, não aceite nada menos do que você sabe que merece. Gaiolas de ouro continuam sendo gaiolas. Liberte-se.









