11 de dezembro de 2025 09:16

O CHAMADO DE JEREMIAS

EXORTAÇÃO, ARREPENDIMENTO E ESPERAÇA
O ministério profético de Jeremias
INTRODUÇÃO
Neste trimestre, iniciaremos uma jornada pela vida e ministério de Jeremias, o “profeta das lágrimas”. Esta primeira lição foca no momento crucial do seu chamado, revelando um Deus soberano que o conheceu e o separou para uma missão extraordinária antes mesmo de seu nascimento. Em meio a uma nação em declínio espiritual e à beira do juízo, Jeremias foi incumbido de proclamar uma mensagem desafiadora de exortação ao arrependimento, mas também de esperança. Ao estudar a natureza de sua vocação e a mensagem que lhe foi confiada, somos convidados a refletir sobre o propósito divino para nossas vidas. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.

TEXTO PRINCIPAL – COMPARANDO TRADUÇÕES
O SENHOR Deus me disse: — Antes do seu nascimento, quando você ainda estava na barriga da sua mãe, eu o escolhi e separei para que você fosse um profeta para as nações. (Jr 1.4,5 NTLH). Olhando para Jeremias 1.4–5, percebemos a forma sobrenatural e extraordinária como Jeremias foi vocacionado por Deus. De modo singular, o profeta é chamado pelo Senhor. Contudo, é importante reconhecer que nem sempre o chamado específico de Deus se dá nesses termos. Devemos evitar transformar experiências particulares em doutrina normativa. Há ocasiões em que o chamado acontece de modo natural, ordinário e simples. Isso não diminui a beleza do chamado divino, nem a nossa responsabilidade de obedecê-lo. Recordo a história de Shofia Müller, cuja voz ecoou nas selvas do Amazonas. Ela afirmou: “Eu não vi anjo algum, não tive revelação, nem sonho; ninguém profetizou para mim. Simplesmente li uma ordem e obedeci.” Assim, tornou-se missionária entre tribos indígenas do Amazonas. O que você está esperando? Os céus se abrirem? Um anjo descer? Uma profecia? Deus já nos deu a sua Palavra. Ele pode, sim, chamar de modo extraordinário; porém, não condicione sua obediência a isso. Comece a servir onde você está, disponha-se ao que Ele já revelou e permita que o Senhor amplie o seu ministério no curso da obediência.

RESUMO DA LIÇÃO

Jeremias afirma que foi “conhecido”, “consagrado” e “constituído profeta às nações” ainda no ventre materno (Jr 1.4–5). Trata-se de uma escolha funcional, orientada à missão profética, não de uma declaração soteriológica (eu te salvei antes de você nascer). Em outras palavras, o texto fala da nomeação de Jeremias para o ofício profético, não de uma “eleição incodicional para salvação”. Esse padrão aparece em outras figuras bíblicas: Sansão foi separado desde o ventre para uma missão específica em Israel (Jz 13.5); João Batista seria “cheio do Espírito Santo, ainda no ventre de sua mãe”, como arauto do Messias (Lc 1.15); Paulo reconhece ter sido “separado desde o ventre de minha mãe” para pregar entre os gentios (Gl 1.15–16). Em todos esses casos, a ênfase recai na vocação ministerial. A Escritura mostra que Deus pode eleger alguém para uma tarefa sem implicar conversão pessoal. Ciro é o exemplo clássico: o Senhor o “chama pelo nome”, “o unge” e o utiliza como instrumento para libertar Israel, mesmo sem ele “O conhecer” (Is 44.28; 45.1, 4–5, 13). O texto sublinha a soberania de Deus sobre a história e a instrumentalidade de Ciro para um proposito especifico. Não há evidência bíblica de que Ciro tenha se convertido.

1. A NATUREZA DO CHAMADO DE JEREMIAS
1. 1 A pessoa de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: A vida e o ministério de Jeremias são partes de uma mesma história (Jr 1.5). Ele nasceu em uma família de sacerdotes, na cidade de Anatote, nordeste de Jerusalém. A maioria dos estudiosos defende que o seu nascimento se deu entre 650 e 645 a.C., dentro do contexto da reforma espiritual dos dias do rei Josias (Jr 1.2).
O texto bíblico diz:
Palavras de Jeremias, filho de Hilquias, um dos sacerdotes que estavam em Anatote, na terra de Benjamim. A palavra do Senhor veio a ele no décimo terceiro ano do reinado de Josias, filho de Amom e rei de Judá. Veio também nos dias de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, até o fim do décimo primeiro ano do reinado de Zedequias, filho de Josias, rei de Judá. No quinto mês desse ano, os moradores de Jerusalém foram levados ao exílio. (Jr 1.1-3 NAA).
Leia com muita atenção os pontos a seguir:
1.1.1 Contexto cronológico. Os detalhes que compõem o cenário da época de Jeremias estão descritos em 2Reis 22—25; 2Crônicas 34—36.
1.1.2 A família de Jeremias (origem sacerdotal, linhagem e expectativas). Jeremias se apresenta como “filho de Hilquias, um dos sacerdotes de Anatote, na terra de Benjamim” (Jr 1.1). Ele nasceu em ambiente sacerdotal: Torá, pureza cultual e o ensino compunham o seu cotidiano (Dt 33.8–10). Em termos sociais, esperava-se que um jovem de família sacerdotal servisse ao culto, instruindo o povo e guardando a santidade do templo (Ml 2.7). Deus muda expectavas. Seu pai e sua podem está educando você para ser um médico, advogado, psicólogo, nutricionista, etc., mas Deus pode ter outros planos para a sua vida.
1.1.3 A cidade de Jeremias: Anatote. Historicamente, Anatote era cidade sacerdotal (cf. Js 21.18). No entanto, nos dias de Jeremias, essa localidade estava associada à memória de Abiatar, deposto por Salomão por favorecer Adonias (1 Rs 2.26–27). A leitura tradicional observa que, se os sacerdotes de Anatote remontam à casa de Abiatar, então Jeremias nasce de um ramo que perdera proeminência em Jerusalém, agora sob liderança zadoquita (1 Rs 2.35). Jeremias, descendente de uma “linhagem inferior” seria usado por Deus como profeta para repreender reis, os sacerdotes zadoquitas, príncipes, líderes e todo o povo. Essa informação traz bastante esclarecimento sobre as tensões vividas no ministério de Jeremias. Deus usa os improváveis.
1.1.4 O perfil emocional de Jeremias (sensibilidade, “confissões”, lágrimas e resiliência). Poucos livros expõem com tanta nitidez a humanidade de um profeta. Jeremias lamenta, intercede, protesta e debate com Deus nas chamadas “confissões” (Jr 11.18–12.6; 15.10–21; 17.14–18; 18.18–23; 20.7–18). A linguagem de queixa e lamento revela um coração pastoral ferido pela idolatria do povo e pela resistência enfrentada, mas firmemente agarrado ao chamado de Deus. Textos-chave delineiam esse perfil: chora pelo povo (Jr 8.18–9:1), a solidão vocacional marcada até pelo celibato como sinal profético (Jr 16.1–4), o fogo interior que impede o silêncio (Jr 20.9) e a força recebida do próprio Deus, que o faz “muro de bronze” (Jr 1.18–19)

1.2 A vida de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: A relação de Deus com Jeremias não começou a partir de seu chamado, mas remonta a um período no qual o profeta não tinha consciência de sua própria existência (Jr 1.5). Deus conhecia Jeremias antes que o formasse. A consciência da soberania do Eterno inibiria o profeta de apresentar quaisquer possíveis obstáculos para atender o seu chamado, afinal, Ele conhecia todas as suas limitações. A consagração de Jeremias ocorreu antes de seu nascimento. A palavra do Senhor veio a mim, dizendo: “Antes de formá-lo no ventre materno, eu já o conhecia; e, antes de você nascer, eu o consagrei e constituí profeta às nações.” (Jr 1.4,5 NAA). O chamado de Jeremias é rico em seu conteúdo doutrinário e prático. Entre seus ensinamentos importantes estão os seguintes:
1.2.1 Deus é o Senhor da vida. Deus formou Jeremias no ventre. Jeremias tinha pais biológicos, é claro, mas o próprio Deus o moldou e o teceu no ventre de sua mãe. Dizer às crianças que perguntam de onde vêm os bebês que eles vêm de Deus é boa teologia. E também não é má ciência. O Senhor da vida usa os processos naturais que ele projetou para plantar a vida humana no útero.
1.2.2 Um feto é uma pessoa. Esse versículo testifica que a relação pessoal entre Deus e seu filho ocorre no útero, ou até mesmo antes.
1.2.3 Todo cristão tem um chamado. Há um chamado geral, é claro, para crermos em Jesus Cristo. Mas todo aquele que crê em Cristo também tem um chamado especial para uma esfera específica de obediência e ministério. Talvez você ainda esteja tentando descobrir qual é o plano de Deus para você. Muitos cristãos desejam saber o que Deus está chamando-os para fazer. Se você não tem certeza, há pelo menos uma que você pode fazer. Faça tudo o que você já sabe que Deus quer que faça. Você não pode esperar estar pronto para o chamado de Deus, ou mesmo para reconhecer o chamado de Deus, a menos que esteja obedecendo ao que o Senhor já revelou. Isso inclui as coisas óbvias, como passar tempo em oração e estudo da Bíblia, servir às pessoas com as quais convive, permanecer ativo na adoração na igreja e ser testemunha de Deus no mundo. Portanto, enquanto aquilo que não é especifico não fica claro por meios ordinários ou extraordinários, natural ou sobrenatural, sua obediência deve coloca-lo em ação. Jeremias sabia o que Deus queria que ele fizesse. No entanto, mesmo depois de receber seu chamado divino, ele ainda era um candidato hesitante: “ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (Jr 1.6). Jeremias tinha duas objeções principais quanto a se tornar um profeta: sua falta de eloquência e sua falta de experiência. Parafraseando: “Ahh, espere um segundo, Senhor… sabe esse papo todo de profeta-para-as-nações? Então, não soa como uma ideia tão boa assim. A profecia não é um dos meus dons espirituais. Como o senhor sabe, tirei notas C em retórica na sinagoga. Além disso, sou apenas um adolescente”. As dúvidas de Jeremias encontram um eco no romance de J. R. R. Tolkien, A sociedade do anel. Um hobbit chamado Frodo foi escolhido para ir numa longa e perigosa jornada para destruir o único Anel de poder, uma busca que ele próprio não escolheria. “Não sou talhado para buscas perigosas. Gostaria de nunca ter visto o Anel! Por que veio a mim? Por que fui escolhido?A resposta dada a Frodo é semelhante àquela que os profetas de Deus frequentemente recebem: “Perguntas desse tipo não podem ser respondidas. […] Pode ter certeza de que não foi por méritos que outros não tenham; pelo menos não por poder ou sabedoria. Mas você foi escolhido e, portanto, deve usar toda força, coração e esperteza que tiver”. Quando Deus faz a seus servos um chamado claro, ele não aceita nenhuma desculpa. Jeremias havia esquecido que Deus não é limitado pela fraqueza humana. O próprio Deus possui todo o necessário para que Jeremias cumpra o seu chamado. Na verdade, capacitar instrumentos fracos para realizar trabalhos duros é o procedimento operacional padrão de Deus.
1.3 O ministério de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: Ele nasceu com o propósito de honrar a Deus, representando-o diante do povo (Jr 1.5.7,10,17,18). Os profetas eram levantados pelo Senhor e tinham o dever de transmitir a sua mensagem ao povo com fidelidade. Essa era a sua principal missão, distinguindo assim o verdadeiro profeta do falso (Jr 14.14; 23.16,26,30). No caso de Jeremias, vemos que as expressões “Disse-me o Senhor” e “Ouvi a palavra do Senhor” são recorrentes ao longo de todo o livro e, juntas, refletem a dinâmica do seu ministério.
Conforme a Bíblia, os sacerdotes e os profetas exerciam funções distintas, ainda que ambos estivessem vinculados à aliança com Deus.
• O Ministério Sacerdotal era hereditário, vinculado à tribo de Levi e à casa de Arão (Nm 3.10; Dt 18.1-5). Sua função central era o culto, o ensino e os sacrifícios. O sacerdote era mediador do povo para Deus, garantindo a reconciliação por meio dos rituais.
O Ministério Profético, em contraste, não dependia de linhagem, mas do chamado direto de Deus. O profeta era porta-voz divino, trazendo palavra viva, muitas vezes acusatória, que confrontava reis, sacerdotes e o povo com sua infidelidade (Am 7.14-15). Enquanto o sacerdote mantinha a ordem, o profeta frequentemente desestabilizava a falsa ordem para chamar os ouvintes à conversão. Assim, se o sacerdote trabalhava no eixo culto–sacrifício, o profeta atuava no eixo aliança–ética, denunciando injustiça, idolatria e conclamando o povo a obediência (Jr 7.22-23).
1.3.1 Chamado Divino. O profeta não se autoproclama, mas é chamado diretamente por Deus para falar em Seu nome. Esse chamado é muitas vezes acompanhado de uma experiência marcante (como Isaías em Isaías 6.1-8 ou Jeremias em Jeremias 1.4-10.
1.3.2 Fidelidade ao Pacto. O ministério profético é profundamente enraizado na aliança entre Deus e Israel. O conteúdo da exortação profética está muito assoado ao conteúdo do livro de Deuteronômio. O profeta autêntico fala em harmonia com a revelação anterior. Ele não contradiz a Lei de Moisés nem inventa uma mensagem nova.
1.1.3 Mensagem de julgamento e esperança. O verdadeiro profeta não suaviza a mensagem: ele anuncia tanto o juízo pelos pecados quanto a esperança da restauração.
1.1.4 Vida Marcada por sacrifício e integridade. Os profetas frequentemente sofrem oposição, perseguição e rejeição.
1.1.5 Confirmação pela realização da Palavra proclamada. De acordo com a tradição bíblica (cf. Dt 18.21-22), a autenticidade de um profeta também se manifesta na realização das palavras que anuncia, não necessariamente de imediato, mas dentro do agir soberano de Deus.

2. A MENSAGEM DE JEREMIAS
2.1 Os dias de Jeremias.

A LIÇÃO DIZ: O profeta desempenhou o seu ministério durante um dos períodos mais sombrios da história de Judá. Jerusalém foi destruída pelo exército babilônico como juízo de Deus, fruto da má escolha do povo em trocar o Senhor, “manancial de águas vivas” por “cisternas rotas, que não retêm águas” (Jr 2.13).
Vamos conhecer um pouco os dias nos quais Jeremias profetizou:
2.1.1 Idolatria e sincretismo religioso. O povo abandonou o Senhor, a fonte de água viva, e buscou cisternas rachadas que não retêm água (Jr 2.13). Essa metáfora resume a substituição do culto ao Deus vivo pela adoração de Baal e deuses estrangeiros, muitas vezes acompanhada de práticas vergonhosas nos “altares dos bosques” (Jr 3.6).
2.1.2 Culto vazio e confiança falsa no templo. O chamado Sermão do Templo (Jr 7.1-15) denuncia a crença de que a simples presença do templo garantiria a segurança da nação, mesmo enquanto o povo praticava injustiça, opressão e violência.
2.1.3 Injustiça social e corrupção das lideranças. Jeremias acusa os poderosos de oprimir pobres, órfãos e estrangeiros, enquanto enriqueciam por meio da fraude (Jr 5.26-28). Os profetas e sacerdotes se corromperam, profetizando mentiras e explorando o povo, produzindo um sistema de conluio entre religião e poder.
2.1.4 Falsos profetas e rejeição da palavra de Deus. Um dos pecados mais graves era seguir líderes religiosos que prometiam paz onde não havia paz (Jr 6.14). Esses falsos discursos confortavam o povo em sua rebeldia, afastando-o do arrependimento genuíno.
2.1.5 Quebra da aliança e rebeldia persistente. Israel é descrito como um povo de “coração incircunciso” (Jr 9.25-26), incapaz de fidelidade. Mesmo após repetidos convites ao arrependimento (Jr 3.12-14), Judá preferiu alianças políticas com Egito e Babilônia, em vez de confiar em Javé.
2.1.6 Sacrifício infantil e práticas abomináveis. Jeremias denuncia o sacrifício de crianças no vale de Hinom (Jr 7.31), prática que marca o ápice da degradação religiosa e social, símbolo da completa inversão dos valores da aliança.
2.2 As duas visões de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: No momento de seu chamado, Jeremias recebeu duas visões e cada uma com um significado segundo a missão para a qual fora designado pelo Senhor (Jr 1.11.13). A primeira visão foi a de uma vara de amendoeira (1.11). A segunda visão foi a de uma panela a ferver inclinada para o norte.
A palavra do Senhor veio a mim, dizendo: — O que você está vendo, Jeremias? Respondi: — Vejo um ramo de amendoeira. O Senhor me disse: — Você viu bem, porque eu estou vigiando para que a minha palavra se cumpra. Outra vez a palavra do Senhor veio a mim, dizendo: — O que você está vendo? Eu respondi: — Vejo uma panela fervendo, cuja boca se inclina do Norte para cá. Então o Senhor disse: — Do Norte se derramará o mal sobre todos os habitantes da terra. Pois eis que convoco todas as tribos dos reinos do Norte, diz o Senhor; elas virão, e cada reino porá o seu trono à entrada dos portões de Jerusalém e contra todas as suas muralhas ao redor e contra todas as cidades de Judá. (Jr 1.11-15 NAA).
A primeira visão foi de um ramo de amendoeira. Em um jogo de palavras (cf. Am 8.1–2), Deus disse que estava vigiando para ver que sua palavra se cumprisse (v. 12; hebraico šāqēd, “amendoeira”, e šōqēd, “vigiar”). A amendoeira era chamada de árvore “desperta” porque floresce cedo na primavera, enquanto outras árvores permanecem dormentes. Anatote ainda é um centro de cultivo de amêndoas. O propósito da visão era advertir que os anúncios de juízo feitos por profetas anteriores não haviam sido esquecidos. Sempre que Jeremias e o povo de Judá vissem a amendoeira, deveriam lembrar que seu Deus estava vigiando sobre eles, vendo as maldades cometidas e aquilo que era praticado em oculto (5.6; 31.28). Geralmente, aplicamos esse texto de forma positiva em relação ao cumprimento das promessas de Deus de abençoar. Mas, o texto fala de juízo. Deus não deixará a maldade impune. Na segunda visão, que pode ou não ter ocorrido imediatamente após a primeira, Jeremias viu uma panela fervente (literalmente “uma panela soprada”, isto é, uma panela colocada sobre uma chama atiçada pelo vento). Era uma panela de cozinhar (2Rs 4.38) ou um alguidar de lavar (Sl 60.8), objeto comum nas casas israelitas. Jeremias a vira muitas vezes, mas agora a enxergou sob nova luz, como símbolo de juízo iminente. A panela inclinava-se a partir do norte, isto é, em direção ao sul, com o líquido prestes a transbordar. O desastre iminente sobre Judá é comparado ao derramamento do conteúdo de uma panela em ebulição, que escaldaria o povo de Judá. O sentido da visão é inequívoco. Ela retrata a certeza do juízo de Deus que viria sobre Jerusalém por meio de uma invasão inimiga vinda do norte e, portanto, a urgência da mensagem de Jeremias. Numa época em que o poder assírio chegava ao fim com a morte de seu último grande monarca, Assurbanípal, em 627, o povo se inclinava a crer que as ameaças do norte haviam cessado. Ridicularizavam os alertas de perigo feitos por Jeremias. A maioria dos estudiosos já não identifica o inimigo anônimo como citas, mas como babilônios (ver Hc 1.5–11). Geograficamente, a Babilônia ficava a leste de Judá, mas seus exércitos não arriscariam cruzar o deserto arábico inóspito. Em vez disso, seguiriam o rio Eufrates para o norte, até a Síria, e de lá invadiriam Judá pelo norte. No momento da visão, Jeremias não poderia saber que o inimigo do norte seriam os babilônios e seus aliados.
2.3 Destinatário e conteúdo da mensagem de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: Jeremias foi enviado ao povo de Judá, Reino do Sul, cuja capital era Jerusalém, embora, há momentos em que ele é visto se dirigindo ao Reino do Norte, Israel, com a capital em Samaria (3.12; 31.2-6,15-22). No que diz respeito ao destinatário, Jeremias é constituído “profeta às nações” (Jr 1.5). Isso significa que, embora sua palavra imediata fosse dirigida a Judá e Jerusalém, seu alcance ultrapassava fronteiras. Os comentaristas ressaltam que essa designação amplia a relevância de sua missão: não se tratava apenas de corrigir os pecados internos do povo da aliança, mas de mostrar que a soberania de Javé envolve todos os povos. No início do livro, fica patente a dimensão universal da palavra profética: Judá seria o foco imediato do julgamento, mas Babilônia, Egito e outras nações também estariam sob o mesmo olhar divino. Assim, Jeremias é chamado a confrontar tanto o povo da aliança que se afastou de seu Deus quanto os poderes estrangeiros que, em sua arrogância, se julgavam autônomos.
Quanto ao conteúdo da mensagem de Jeremias, a Bíblia diz:
Depois, o Senhor estendeu a mão e tocou na minha boca. E o Senhor me disse: “Eis que ponho as minhas palavras na sua boca. Veja! Hoje eu o constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e derrubar, para destruir e arruinar, e também para edificar e plantar.” (Jr 1.9,10 NAA).
Sua palavra tem alcance internacional (“nações e reinos”), o que confirma que sua missão vai além das fronteiras de Judá. Ele não é apenas profeta de uma cidade ou de uma tribo, mas intérprete da vontade de Deus para todo o cenário geopolítico de seu tempo. Os seis verbos apresentam um duplo movimento. Os quatro primeiros (“arrancar, derrubar, destruir, arruinar”) descrevem o caráter de juízo da palavra profética. Trata-se de expor o pecado, mostrar a futilidade da confiança enganosa, anunciar a queda de estruturas religiosas e políticas. A mensagem de Jeremias é inicialmente desconstrutiva: desfaz seguranças falsas para abrir espaço ao agir soberano de Deus. Os dois últimos verbos (“edificar, plantar”) apontam para a dimensão construtiva e restauradora da missão profética. A restauração acontece depois que o terreno foi limpo pela disciplina.

3. A MENSAGEM DE JEREMIAS E OS SEUS EFEITOS
3.1 A resposta do povo.
A LIÇÃO DIZ: Toda mensagem divina é um chamado e requer uma resposta dos que a ouvem. Diante da mensagem de Jeremias, o povo foi indiferente e maldoso, vindo, inclusive, a persegui-lo.
Como o povo reagiu a mensagem profética?
3.1.1 Conspiração. Conterrâneos do profeta planejaram matá-lo para silenciar sua profecia. Deus revelou a trama e pronunciou juízo contra os conspiradores de Anatote (Jr 11.18–23; 12.6).
3.1.2 Agressão física e humilhação pública. Pasur, sacerdote e superintendente do templo, mandou açoitar Jeremias e colocá-lo no tronco, expondo-o à vergonha. O profeta renomeou o agressor como “Terror ao redor” (Jr 20.1–6).
3.1.3 Prisão e tentativa de silenciamento por autoridades religiosas e civis. Após o sermão do templo, sacerdotes, profetas e o povo prenderam-no e exigiram sua morte. (Jr 26.1–24).
3.1.4 Desprezo régio pela Palavra. Jeoaquim queimou, coluna por coluna, o rolo ditado por Jeremias a Baruque, recusando-se a ouvir o chamado ao arrependimento. Deus ordenou reescrever o rolo com “muitas palavras semelhantes” (Jr 36.1–32).
3.1.5 Prisão, espancamento e cárcere. Acusado de deserção para os caldeus, Jeremias foi espancado pelos oficiais e lançado na casa do escrivão Jônatas transformada em prisão. Depois foi transferido para o pátio da guarda, onde continuou a falar em nome do Senhor (Jr 37.11–21).

3.1.6 Cova lamacenta e risco de morte por inanição. Líderes acusaram Jeremias de desmoralizar o povo e conseguiram lançá-lo numa cisterna sem água, apenas lama, para morrer lentamente. Um estrangeiro, Ebede-Meleque, intercedeu junto a Zedequias e organizou o resgate com cordas e trapos, demonstrando a providência de Deus por meios improváveis (Jr 38.1–13).
3.1.7 Coerção pós-queda e deportação forçada ao Egito. Após a queda de Jerusalém, Jeremias exortou o remanescente à obediência. Rejeitaram a Palavra, acusaram-no de falsidade e o levaram à força para o Egito, onde continuou denunciando a idolatria. A tradição judaica posterior menciona sua morte ali, mas a Escritura não registra esse desfecho explicitamente (Jr 40–44; observar 43.1–7; 44.15–19).
3.1.8 Hostilidade social, isolamento e escárnio. Para além dos atos oficiais, Jeremias descreve zombaria, difamação e solidão ministerial, marcas internas de perseguição que acompanham a fidelidade profética (Jr 15.10, 15–18; 15.17; 20.7–10).
3.2 O sofrimento de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: A humanidade e as limitações de Jeremias podem ser observadas em seu sofrimento ao longo de sua trajetória. O sofrimento do profeta se manifestou, externamente, na perseguição de seus inimigos (Jr 20.1-3) e nas dúvidas provocadas pela injustiça e a maldade humana. Os sofrimentos de Jeremias e a reação do povo à mensagem profética estão interligados, de modo que o ponto anterior esclarece adequadamente este subponto. Provação por ameaças de morte (11.18–23); provação por isolamento (15.15–21); provação por tortura no tronco (19.14–20.18); provação por prisão (26.7–24); provação por desafio (28.10–16); provação por destruição do rolo (36.1–32); provação por violência e encarceramento (37.15); provação pela fome (38.1–6); provação por correntes (40.1); provação pela rejeição (42.1–43.4).
3.3 O cumprimento das profecias de Jeremias.
A LIÇÃO DIZ: Jeremias chorou pela condição espiritual do povo de seus dias (Jr 9.1), antecipando cerca de 600 anos o que Jesus faria em seu ministério terreno (Lc 19.41). Ele falou a respeito da tristeza de Deus pela condição espiritual de seu povo, sobre a iminente destruição de Jerusalém e chamou o povo ao arrependimento. Pregar o arrependimento era a principal missão do ministério de Jeremias (Jr 18.7-11). Parte das profecias dele se cumpriram e parte delas ainda se cumprirão (Jr 33.14-18). O desejo do profeta, de que o povo se convertesse a Deus, será cumprido (Jr 32.38-41). No nível histórico, Jeremias anunciou a queda de Jerusalém, a destruição do templo e o exílio babilônico. Essas palavras se cumpriram de forma visível na invasão de 586 a.C. (Jr 7.14-15; Jr 25.8-11). Também predisse os setenta anos de cativeiro e o retorno do povo, promessa confirmada pelo decreto de Ciro (Jr 29.10). No campo da promessa, Jeremias falou de uma realidade que ia além da restauração política. Ele anunciou a nova aliança, na qual a lei de Deus seria gravada no coração e o perdão seria definitivo (Jr 31.31-34). Anunciou também o “Renovo justo”, descendente de Davi que reinaria com justiça (Jr 33.14-16). Essas palavras apontam para Cristo, em quem a nova aliança é inaugurada e em quem as promessas de justiça e restauração encontram seu cumprimento inicial e final. Assim, Jeremias nos mostra que a profecia é palavra que se cumpre em duas direções: no juízo histórico sobre o pecado do povo e na esperança de uma restauração plena em Deus.


CONCLUSÃO
A minha oração é: Que o Senhor arranque em nós as seguranças falsas e plante vida nova, dando-nos coragem para denunciar o pecado com compaixão e anunciar esperança sem maquiar a verdade. Cumpramos o nosso chamado com fidelidade.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HAYS, J. Daniel. Jeremias e Lamentações. Série Comentário Expositivo. São Paulo: Vida Nova, 2024.
MACKAY, John L. Comentário do Antigo Testamento: Lamentações. Tradução de Markus Hediger. São Paulo: Cultura Cristã, 2018.
THOMPSON, J. A. O comentário de Jeremias. 1. ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2022.
DEARMAN, J. Andrew. Jeremiah and Lamentations. Grand Rapids: Zondervan, 2002. (The NIV Application Commentary).

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