LIBERDADE EM CRISTO
Vivendo o Verdadeiro Evangelho conforme a Carta aos Gálatas







INTRODUÇÃO
Muitas mensagens que parecem cristãs não têm, de fato, origem em Deus. O apóstolo Paulo se mostra perplexo ao ver os gálatas abandonando tão rapidamente o verdadeiro evangelho da graça para seguir um falso ensino. Nesta lição, estudaremos o alerta solene do apóstolo: ainda que um anjo do céu pregasse algo diferente, deveria ser rejeitado como anátema. A firmeza na verdade e o discernimento espiritual são essenciais para resistir aos ventos de doutrina. O evangelho genuíno é o de Cristo crucificado, ressuscitado e suficiente para a salvação. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.
TEXTO PRINCIPAL
Pois já dissemos antes e repetimos: se alguém anunciar um evangelho diferente daquele que vocês aceitaram, que essa pessoa seja amaldiçoada! (Gl 1.9 NTLH). Imagine um jovem da Galácia, novo na fé, mas firme no evangelho. Fora alcançado pela pregação de Paulo, havia crido com alegria, experimentado a liberdade em Cristo e andava de modo irrepreensível. Amava a verdade. Amava a cruz. Amava a graça. Então chegaram certos homens de Jerusalém. Eram persuasivos, eloquentes, pareciam profundamente piedosos. Citavam as Escrituras com segurança, usavam vestes chamativas e demonstravam zelo aparente por Deus. Eles não atacavam o evangelho diretamente, antes, insinuavam que algo ainda faltava. Diziam em tom solene: “Cristo é importante, sim… mas não é suficiente”. E assim, com aparência de sabedoria e falsa reverência, começaram a semear dúvidas, despertando culpa e oferecendo um evangelho adulterado, mais rigoroso, mais ritualístico, mais meritório. O jovem, seduzido pela sagacidade das bonitas palavras, achou que seria mais santo, mais devoto e abraçou a nova doutrina. Pensava estar sendo mais fiel, mais espiritual, mas estava sendo enredado. Sem perceber, trocou a graça por regras, a liberdade por pesos, o Filho de Deus por um sistema humano. Os mestres pareciam bons. Suas palavras pareciam bíblicas. Mas por trás de todo aquele brilho havia veneno. É por isso que Paulo se espanta e adverte com severidade (Gl 1.6–9): os falsos mestres são sedutores. Eles não vêm com chifres, mas com aparecia de piedade. Não atacam frontalmente, mas minam sutilmente. E quem os segue, mesmo com boas intenções, caminha para longe de Cristo. Nem toda mensagem aparentemente cristã é verdadeiramente vinda de Deus. Cuidado para não ser seduzido por retórica, aparência e obras. Por esta razão, João escreveu: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1Jo 4.1 NVI).
Três exemplos bíblicos:
1. Nem toda palavra atrativa vem da parte de Deus. Jeremias enfrentou uma geração de profetas que proclamavam uma mensagem de paz, restauração imediata e otimismo nacional. Diante do iminente juízo divino, os falsos profetas ofereciam segurança emocional ao povo, dizendo que o cativeiro terminaria em breve e que tudo acabaria bem. Suas palavras eram agradáveis, mas não vinham do Senhor. Deus declara que eles falavam visões do próprio coração, não aquilo que Ele lhes havia ordenado (Jr 23.16–17,21–22). O povo, carente de discernimento, preferia ouvir o que agradava aos ouvidos, em vez de considerar o que confrontava seus pecados. A lição é clara: o critério da verdade não é a conveniência do conteúdo, mas sua origem em Deus.
2. Nem todo obreiro é aprovado por Deus. O apóstolo Paulo adverte os coríntios quanto a obreiros fraudulentos, que se disfarçavam de apóstolos de Cristo (2 Co 11.13–15). Esses homens se apresentavam com autoridade, linguagem polida e aparência piedosa, mas estavam corrompendo o evangelho da graça. Paulo revela que até mesmo Satanás se transforma em anjo de luz, o que implica que seu ministério pode parecer, externamente, semelhante ao ministério legítimo. A aparência religiosa, por si só, não comprova a origem divina de um ministério.
3. Nem toda obra ministerial impressionante é fruto de comunhão com Deus. Jesus afirma que muitos, naquele Dia, dirão: “Senhor, Senhor, porventura não temos profetizado em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres?” A resposta será: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.21–23). Essas pessoas apresentavam um currículo religioso admirável, mas não tinham um relacionamento autêntico com Cristo. As obras que impressionam os homens não são o critério para o reconhecimento divino. O discernimento é necessário para que a igreja não se encante com sinais e façanhas externas, mas examine os frutos e a fidelidade doutrinária dos que se dizem enviados por Deus (Mt 7.15–20).




1. UM APÓSTOLO SURPRESO
1. 1 Paulo se mostra impressionado.
A LIÇÃO DIZ: O apóstolo Paulo se declara surpreso com os irmãos gálatas. Os leitores dessa carta eram pessoas que já haviam aceitado Jesus, já conheciam o Evangelho e já haviam experimentado o arrependimento e o perdão dos pecados, mas estavam trilhando uma rota não planejada por Deus. Ele escreve: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1.6). Paulo destaca a expressão “tão depressa” para marcar não só a inconstância dos gálatas, mas também o pouco tempo que levaram para ser convencidos por uma outra doutrina. A Carta aos Gálatas apresenta uma introdução singular. Conforme observa Stott (2018, p. 18), Gálatas não começa como as outras cartas de Paulo. Não há oração, não há ação de graças, não há louvor. Em vez disso, há surpresa, censura e maldição.
Imagine um pastor que dedicou meses de sua vida ensinando um grupo de novos convertidos. Ele os viu, um a um, deixarem os velhos ídolos, se renderem à cruz de Cristo, chorarem ao ouvirem pela primeira vez que a salvação não precisava ser comprada, que não dependia de méritos, mas era dom gratuito da graça de Deus. Ele os viu crescerem. Havia testemunhos, havia liberdade. Eles sabiam que eram salvos pela graça e que Cristo era suficiente. Agora imagine esse mesmo pastor recebendo uma notícia inesperada. Chega uma carta. Uma visita. Um boato confirmado. Aqueles mesmos irmãos que haviam sido libertos pela verdade agora estavam se curvando a um novo ensino. Estavam sendo convencidos de que não era bem assim, de que a graça precisava de um complemento, de que, para serem realmente aceitos por Deus, era preciso fazer mais, seguir ritos, voltar a práticas antigas, tornar-se o que Cristo já havia superado. O pastor era Paulo. E sua reação? Não foi raiva. Não foi desprezo. Foi espanto. “Maravilho-me…” assim começa sua carta. A palavra descreve a reação de quem não esperava tal reviravolta. Paulo se espanta não apenas com o erro, mas com a velocidade do desvio. Ele não entende como aqueles que haviam conhecido a liberdade do Evangelho estavam agora voltando a um jugo de escravidão. Era como se um náufrago, resgatado do mar, pulasse de novo nas ondas por acreditar que agora sabe nadar melhor sozinho. Como se um prisioneiro, perdoado e liberto, voltasse ao cárcere para cumprir uma pena que já foi paga. Paulo não está lidando com pagãos ignorantes. Está falando com irmãos, gente que já havia sido chamada pela graça de Cristo, mas que agora estava se deixando seduzir por um evangelho diferente que na verdade nem evangelho era.
1.2 Da graça para a Lei.
A LIÇÃO DIZ: A surpresa de Paulo se dá por causa da mudança que os gálatas fizeram, de passarem da graça de Deus para a Lei de Moisés.
Pare para refletir. O próprio apóstolo Paulo buscou, por muito tempo, a justificação diante de Deus mediante a observância da lei judaica. No entanto, sua experiência na estrada de Damasco revelou a inutilidade dessa busca e o fracasso do caminho legalista como meio de reconciliação com Deus. A certeza da aceitação definitiva, que jamais alcançaria enquanto estivesse sob a lei, ele recebeu de forma imediata ao se submeter ao Cristo ressurreto. Logo entendeu que a lei, à qual havia dedicado seus dons, talentos e recursos, não fora capaz de impedir sua conduta pecaminosa ao perseguir a Igreja de Deus. Paulo experimentou, de forma jubilosa, a libertação da escravidão da lei por meio da fé em Cristo, e desejava que outros judeus experimentassem essa mesma graça. Diante disso, ver gentios convertidos, que haviam conhecido a salvação sem jamais terem vivido sob a lei, desejarem agora submeter-se ao seu jugo representava, para ele, uma perversão absurda do evangelho.
1.3 Outro Evangelho.
A LIÇÃO DIZ: A palavra “outro”, na língua portuguesa, é um pronome indefinido utilizado de forma ampla para designar algo ou alguma coisa que seja da mesma natureza, que seja semelhante ou que seja de outra natureza. Para definir o exato significado, precisaremos saber o contexto em que essa palavra está sendo usada. Na língua grega, a palavra “outro” tem duas percepções distintas, advindas igualmente de duas palavras apontadas: allos, que significa “outro da mesma espécie”, e heteros, “outro de outra espécie”. Veja como a Nova Almeida Atualizada (NAA), traduziu esse texto: Estou muito surpreso em ver que vocês estão passando tão depressa daquele que os chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual, na verdade, não é outro. (Gl 1.6,7a). O texto grego diz: “heteron euangelion ho ouk estin allo”. (Como pronunciar: hé-te-ron eu-an-gué-li-on ró uc és-tin ál-lo). Paulo usa aqui um trocadilho de palavras para desmascarar o outro evangelho anunciado pelos judaizantes. Há duas palavras na língua grega para “outro”: heteros (outro de outra substância, diferente) e allos (outro da mesma substância). Afinal de contas, o que é este “outro evangelho”? O livro de Atos, no capítulo 15, registra o Concílio de Jerusalém, convocado justamente em razão da controvérsia que também motivou a redação da carta aos Gálatas. Alguns judeus cristãos afirmavam: “É necessário circuncidá-los [os gentios] e ordenar-lhes que guardem a Lei de Moisés” (At 15.5). Essa era a essência do “outro evangelho” combatido por Paulo. A própria epístola aos Gálatas explicita os elementos centrais dessa doutrina distorcida que estava sendo disseminada entre os crentes:
1.3.1 Justificação pelas obras da Lei. “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo” (Gl 2.16). Os judaizantes ensinavam que a justificação diante de Deus não se dava apenas pela fé em Cristo, mas exigia o cumprimento da Lei mosaica. Negavam a suficiência do sacrifício de Cristo.
1.3.2 Necessidade da circuncisão. “E, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl 5.2). A circuncisão era imposta como sinal de pertencimento à aliança e como condição de salvação. Ao fazê-lo, os falsos mestres implicavam que a fé em Cristo não bastava.
1.3.3 Observância de dias, meses, tempos e anos. “Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco” (Gl 4.10–11). Os judaizantes insistiam na manutenção de práticas cerimoniais do Antigo Testamento, como se fossem essenciais à vida cristã. Essa exigência contradizia a liberdade que há no evangelho.



2. O ANÁTEMA
2.1 A inquietação dos gálatas
A LIÇÃO DIZ: Um falso ensino tem a capacidade de deixar as pessoas alvoroçadas e inquietas.
Stott (2018, p. 19–20), escreveu
[…] as duas principais características dos falsos mestres são que eles estavam perturbando a igreja e modificando o evangelho. Essas duas ações andam juntas. Adulterar o evangelho implica perturbar a igreja. Não se pode tocar o evangelho e deixar a igreja intocada, porque a igreja é criada e vive pelo evangelho. De fato, os maiores perturbadores da igreja (tanto hoje como na época) não são os de fora que se opõem a ela, ridicularizam-na e perseguem-na, mas os de dentro que tentam modificar o evangelho. São eles que a perturbam. Por outro lado, a única maneira de ser um bom cristão da igreja é ser um bom cristão do evangelho. A melhor maneira de servir à igreja é crer no evangelho e pregá-lo. (STOTT, 2018, p. 19–20). O termo grego tarássō, traduzido como “perturbar”, carrega a ideia de agitação intensa, confusão mental e angústia. Trata-se do mesmo termo usado em Mateus 2.3, quando Herodes ficou “perturbado” ao saber do nascimento de Jesus, e em João 14.1, quando Jesus disse: “Não se turbe o vosso coração”. Assim, o efeito desse falso ensino não era neutro; ele causava instabilidade espiritual e confusão doutrinária nas igrejas. Além disso, Paulo afirma que esses falsos mestres estavam “pervertendo o evangelho de Cristo” (Gl 1.7). O verbo grego metastrephō significa inverter ou transformar algo em seu oposto. Quando o evangelho é adulterado, a igreja é enfraquecida.
2.2 Ainda que um anjo do céu.
A LIÇÃO DIZ: Paulo deixa expresso que, mesmo que um anjo, identificando-se como sendo enviado por Deus, venha apresentar uma mensagem diferente da sua, seja considerado maldito. Hendricksen (2009, p. 55–56) parafraseia Gálatas 1.8 da seguinte maneira:
“Ainda que nós, os representantes humanos de Deus (eu, Paulo, e meus cooperadores), ou um bom anjo, que desça dos céus na radiante luz de sua perfeita santidade, começasse a pregar-lhes qualquer outra boa nova diferente – e portanto contrária – ao evangelho que nós anteriormente (na primeira viagem missionária e na primeira etapa da segunda viagem missionária) lhes pregamos, que ele (eu mesmo, meus auxiliares, aquele anjo) seja amaldiçoado. O Islamismo e o Mormonismo constituem-se em exemplos claros de religiões que se fundamentam sobre supostas revelações angélicas contrárias à mensagem central do Evangelho cristão. O Islamismo foi fundado por Maomé no século VII, após uma experiência em que alegou ter recebido revelações do anjo Gabriel (Jibril). Já o Mormonismo, conhecido formalmente como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, teve sua origem no século XIX com Joseph Smith, que afirmou ter recebido revelações e orientações do anjo Morôni.
2.3 Anátema.
A LIÇÃO DIZ: A palavra “anátema” é oriunda do hebraico herem, e pode ter dois sentidos: algo devotado a uma divindade e, ao mesmo tempo, excluído da utilização humana — como relatado em Josué 6.17, quando os despojos de Jericó deveriam ser separados para Deus, não podendo ser usados pelos israelitas. Essa ordem não foi seguida por Acã. O anátema foi tão sério que Acã e sua família pagaram o preço da ganância com a vida. O segundo sentido é mais radical, pois representa anathematizo: colocar alguém ou algo debaixo de maldição. Mesmo que um anjo viesse até eles e lhes ensinasse um outro Evangelho, que fosse maldito e condenado.
Quando Paulo declara que quem prega outro evangelho deve ser anátema (Gl 1.8–9), ele está afirmando algo muito sério: perverter o evangelho não é apenas erro teológico, é um pecado que conduz à perdição.
Essa indignação não era exclusividade de Paulo. Jesus foi duro com os religiosos hipócritas (Mt 23.13). Pedro, João e Judas também denunciaram falsos mestres que distorciam a verdade (2 Pe 2; 2 Jo 7–11; Jd 3–19). O verdadeiro seguidor de Cristo ama o evangelho e não aceita que ele seja adulterado, pois sabe que essa mensagem é o único caminho de salvação para um mundo perdido (Rm 10.14–15). Quem modifica a mensagem do evangelho, seja acrescentando exigências humanas ou removendo verdades fundamentais, coloca-se sob a maldição divina. Como advertiu o livro de Apocalipse, “Deus tirará a sua parte do livro da vida” (Ap 22.18–19).
Estas são verdades fundamentais da fé cristã:
• A divindade de Cristo e seu nascimento virginal;
• A autoridade plena das Escrituras;
• A realidade da queda de Adão e da corrupção humana;
• A perdição da humanidade sem Cristo;
• A salvação pela graça, mediante a fé no sacrifício de Jesus;
• A ressurreição corporal de Cristo;
• A veracidade dos milagres bíblicos;
• A existência de Satanás e dos demônios;
• A doutrina do inferno;
• E a volta literal de Jesus Cristo.
Quando qualquer uma dessas doutrinas é negada ou relativizada, o evangelho perde sua integridade e poder. E onde o evangelho é corrompido, vidas são enganadas. Por isso, Paulo não hesita: quem prega outro evangelho, mesmo que pareça piedoso, seja considerado maldito. Porque o evangelho é a boa nova de Deus e não pode ser alterado sem consequências eternas.





3. AGRADAR AOS HOMENS OU A DEUS
3.1 Repetindo a advertência.
A LIÇÃO DIZ: Como o assunto é muito sério, Paulo repete a observação. Não poderia haver dúvidas sobre a força das palavras paulinas, pois o assunto era grave.
Paulo repete sua repreensão em Gálatas 1.9 para enfatizar a gravidade e a urgência do perigo que os gálatas estavam enfrentando. A repetição não é mera retórica, mas uma forma intencional de reforçar a seriedade da mensagem.
3.2 O que agrada aos homens.
A LIÇÃO DIZ: Os judaizantes bajulavam os gentios, e com palavras doces os desviavam dos caminhos do Senhor. As palavras de Paulo poderiam soar como amargas, mas eram o remédio que os gálatas deveriam tomar. Os mestres judaizantes não se limitaram a atacar o apostolado de Paulo e a sua mensagem. Eles passaram também a questionar suas motivações. Alegavam que o apóstolo diminuía as exigências do evangelho a fim de conquistar o favor dos homens. Acusavam-no de isentar os crentes gentios da circuncisão apenas para agradá-los. Insinuavam que Paulo ajustava sua pregação para torná-la mais atraente e, assim, ganhar a aprovação das pessoas. Entretanto, Paulo não era bajulador, mas pregador da verdade. Jamais transigiu com a fidelidade doutrinária para agradar a homens, nem vendeu sua consciência por qualquer vantagem pessoal. Leiamos dois textos bíblicos bastante claros: “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus. Pelo contrário, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus.” (2 Co 2.17 NAA).
Pois a nossa exortação não procede de erro ou de intenções impuras, nem se baseia no engano. Pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de ele nos confiar o evangelho, assim falamos, não para agradar as pessoas, e sim para agradar a Deus, que prova o nosso coração. A verdade, como vocês sabem, é que nunca usamos de linguagem de bajulação, nem de pretextos gananciosos. Deus é testemunha disso. Também jamais andamos buscando elogios das pessoas, nem de vocês, nem de outros. (1Ts 2.3-6 NAA).
A adulteração do evangelho muitas vezes acontece não por erro doutrinário explícito, mas por uma tentação sutil: agradar ao público.
Conclui-se que:
• Evangelho bajulador é como maquiagem em um doente: esconde o problema, mas não cura.
• Pregar só o que agrada é como dar doces a quem precisa de remédio.
• A busca por aplausos faz da pregação um palco, não um púlpito.
• Quem só diz o que o povo quer ouvir, logo perderá o que Deus quer dizer.
3.3 O que agrada a Deus.
A LIÇÃO DIZ: Se fosse para agradar aos homens, ele poderia deixar a situação nas igrejas da Galácia correr sem qualquer interferência. O Hernandes Dias Lopes (2011, p. 59), argumenta que: “quem é servo de Cristo não depende de elogios nem se desencoraja com as críticas. Quem é servo de Cristo não está atrás de sucesso nem de glórias humanas. Quem é servo de Cristo não muda a mensagem para atrair os ouvintes. O propósito do ministério de Paulo não era agradar aos homens, mas servir a Cristo.” O termo grego doulos não significa apenas “funcionário” ou “colaborador”, mas escravo voluntário, alguém que abriu mão dos próprios direitos para viver inteiramente sujeito ao senhorio de Jesus. Não vivemos para agradar os homens, mas para obedecer à vontade do Senhor, mesmo que isso custe a aprovação dos homens.
Ser doulos de Cristo é viver debaixo de sua autoridade, pronto para obedecer, pronto para sofrer, pronto para falar a verdade. O servo verdadeiro não negocia a Palavra. Ele agrada ao seu Senhor porque não se pertence mais.

CONCLUSÃO
O evangelho não pode ser negociado. Ele é a revelação da graça de Deus em Cristo, suficiente para salvar, transformar e sustentar o crente até o fim. Quando adulterado, seja por adições legalistas, omissões convenientes ou motivações humanas, ele perde sua essência, confunde os irmãos e enfraquece a igreja. Por isso, Paulo foi tão enfático: mesmo que um anjo do céu anuncie outro evangelho, deve ser rejeitado. Quem é servo de Jesus não vive para agradar aos homens, mas para obedecer ao Senhor, custe o que custar. Que permaneçamos firmes no evangelho verdadeiro, sem concessões nem desvios.













REFERÊCIA BIBLIOGRAFICA
BRUCE, F. F. Gálatas: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2024.
GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984.
HARLEY, Henry H. Manual Bíblico de Halley. São Paulo: Vida Nova, 2002.
WIERSBE, Warren. Comentário do Novo Testamento. Santo André: Geográfica, 2017.
KEENER, C. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia — Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2017.
LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.
NOTAS 01
OSBORNE, Grant. Gálatas: comentário expositivo. São Paulo: Editora Carisma, 2023.
O termo descritivo “judaizantes” é usado para tratar de um grupo de cristãos judeus que queriam tornar todos os cristãos praticantes do judaísmo. […] Para eles, ser circuncidados e seguir todos os regulamentos e ordenanças da Torá (a lei mosaica) era necessário para que os cristãos alcançassem a salvação. Na verdade, eles estavam substituindo a cruz pela lei. (OSBORNE, 2023, p. 26).
Substituir o sacrifício expiatório de Cristo na cruz por qualquer outra coisa — mesmo a lei — como a base da salvação é heresia. Isso é extremamente importante para nós hoje, quando muitas das chamadas igrejas estão buscando fontes alternativas — como boas obras ou adesão a certas práticas eclesiásticas — para a salvação. (OSBORNE, 2023, p. 26–27).
Paulo retrata fortemente a severidade da heresia, tentando pontuar o quão grave a situação se tornou. É fundamental que a igreja diferencie entre desacordo doutrinário, no qual debatemos, mas concordamos em discordar, e ensino que é claramente falso, contra o qual nós, como cristãos ortodoxos, devemos ir para a guerra. A heresia real altera e distorce (v. 7) o verdadeiro evangelho e mina a própria base da fé cristã. (OSBORNE, 2023, p. 27).
Falhar em guardar as doutrinas essenciais da fé e permitir que ensinamentos alternativos sobre Cristo e a salvação entrem sorrateiramente na igreja destruirão a fé cristã e levarão tanto os provedores quanto os adeptos da falsa religião ao julgamento eterno. Não existe tal coisa como um evangelho “diferente”; qualquer coisa que se afaste do único evangelho verdadeiro não é nenhum evangelho. É uma heresia. A mensagem de Paulo para aqueles que ocupam posições de liderança cristã é a de que devemos nos tornar professores das verdades de Deus e conduzir nossas igrejas para o emocionante mundo do ensino bíblico. Há demasiada pregação maliciosa de líderes cristãos que procuram entreter em vez de treinar. Aqueles que fazem isso estão pregando para “aqueles que têm comichão no ouvido” (2Tm 4.3), dizendo à congregação o que eles querem ouvir, em vez do que Deus quer que eles ouçam. (OSBORNE, 2023, p. 30).
NOTA 02
STOTT, John, et al. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa: Ultimato, 2018.
Em todas as outras cartas, depois de saudar seus leitores, Paulo continua a orar por eles ou a louvar e agradecer a Deus. Somente na carta aos gálatas não há oração, não há louvor, não há agradecimento e não há recomendação. Em vez disso, ele se volta para o seu tema de uma vez, com uma nota de extrema urgência. Ele expressa espanto com a inconstância e a instabilidade dos gálatas. Os gálatas são traidores religiosos, desertores espirituais. Estão se afastando daquele que os chamou na graça de Cristo e aceitando outro evangelho. (STOTT, 2018, p. 18).
Os falsos mestres que os estavam influenciando eram, claro, “judaizantes”. Não negavam que se deve crer em Jesus para obter salvação, mas enfatizavam que é preciso também ser circuncidado e guardar a lei. Em outras palavras, por meio da obediência à lei, é preciso terminar o que Cristo começou. É preciso adicionar as próprias obras à obra de Cristo. […] A obra de Cristo é uma obra consumada; o evangelho de Cristo é um evangelho de graça gratuita. A salvação é somente pela graça, somente pela fé, sem mistura alguma de obras ou méritos humanos. Deve-se unicamente ao gracioso chamado de Deus, e não a alguma boa obra de nossa parte. (STOTT, 2018, p. 18).
É impossível abandonar o evangelho sem abandonar Deus. Desviar-se do evangelho da graça é desviar-se do Deus da graça. (STOTT, 2018, p. 18).
[…] as duas principais características dos falsos mestres são que eles estavam perturbando a igreja e modificando o evangelho. Essas duas ações andam juntas. Adulterar o evangelho implica perturbar a igreja. Não se pode tocar o evangelho e deixar a igreja intocada, porque a igreja é criada e vive pelo evangelho. De fato, os maiores perturbadores da igreja (tanto hoje como na época) não são os de fora que se opõem a ela, ridicularizam-na e perseguem-na, mas os de dentro que tentam modificar o evangelho. São eles que a perturbam. Por outro lado, a única maneira de ser um bom cristão da igreja é ser um bom cristão do evangelho. A melhor maneira de servir à igreja é crer no evangelho e pregá-lo. (STOTT, 2018, p. 19–20).









