A IGREJA EM JERUSALÉM
Doutrina, Comunhão e Fé: A Base para o Crescimento da Igreja em meio às Perseguições









INTRODUÇÃO
Muitas vezes imaginamos a vida cristã como um caminho de paz e segurança. No entanto, desde os primeiros dias da Igreja, seguir a Cristo significou enfrentar oposição, rejeição e, em alguns casos, até a morte. Estêvão, um dos primeiros diáconos, não apenas serviu com dedicação, mas também testemunhou sua fé diante de líderes hostis. Sua coragem revela que a Igreja não nasceu para se esconder, mas para brilhar em meio às trevas. Nesta lição, aprenderemos que o verdadeiro discipulado exige disposição para se arriscar por causa do Evangelho. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.
TEXTO ÁUREO
Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para o céu e viu a glória de Deus, e viu Jesus em pé no lugar de honra, à direita de Deus. (At 7.55 NVT). Vamos considerar uma parte mais ampla da narrativa e, no desenvolvimento da lição, comentaremos em detalhe a vida e o martírio de Estêvão presentes nesse versículo. Lucas enfatizou os discípulos como comunidade de profetas batizados com o Espírito e relatou os atos dessa comunidade cheia do Espírito. Assim que a negligência das viúvas dos crentes de fala grega foi resolvida, a atenção passa para seis líderes pentecostais, começando por Estêvão e terminando por Paulo (At 6.8—28.31). A partir desse ponto, Lucas dedica sua narrativa a esses seis líderes: Estêvão, Filipe, Barnabé, Ágabo, Pedro e Paulo. Dentro dessa moldura, Estêvão é a primeira figura destacada (6.8–7.60). Sua história cumpre duas funções:
1. Testemunho inspirado: ele aparece como homem cheio de graça e poder, realizando sinais e defendendo a fé diante do Sinédrio.
2. Prelúdio da missão fora de Jerusalém: sua morte não é apenas um registro trágico, mas um ponto de virada. A perseguição que se segue espalha os discípulos e abre caminho para que a mensagem alcance a Judeia e Samaria.
VERDADE PRÁTICA
A igreja foi capacitada por Deus para enfrentar um mundo que é hostil à sua fé e valores.
1. Capacitação. A igreja não foi deixada sozinha para enfrentar as pressões do mundo. Ademais, a hostilidade do mundo não pode ser enfrentada apenas com força humana ou argumentos, mas com a presença e capacitação sobrenatural de Deus.
2. Fidelidade em meio à oposição. A hostilidade é uma realidade para os seguidores de Jesus, pois o mundo rejeitou o próprio Senhor (Jo 15.18-20). A igreja precisa entender que ser fiel à Palavra muitas vezes significa enfrentar rejeição, críticas ou até perseguição. Contudo, a fidelidade é o que dá credibilidade ao testemunho e mostra que nossa confiança está em Deus, não em aprovação humana.
3. A oposição como oportunidade de avançar. A morte de Estêvão parecia um revés, mas se tornou um marco para a expansão do evangelho (At 8.1). O sofrimento e a perseguição não destruíram a igreja; ao contrário, foram usados por Deus para espalhar a mensagem de Cristo por todo o mundo conhecido.







1. ESTÊVÃO E A IGREJA QUE TEM SUA FÉ CONTESTADA
1.1 Aprendendo com Estêvão.
A LIÇÃO DIZ: Com Estêvão, em Atos 6 e 7, aprendemos que a fé cristã sempre será questionada. Ele enfrentou oposição, e todo cristão também enfrentará. A fé será colocada à prova, sem espaço para indecisão. Além disso, Estêvão nos ensina que todo cristão deve saber defender sua fé. Explicar e sustentar as crenças cristãs é uma responsabilidade da Igreja, e cada crente precisa entender no que acredita e como responder a desafios. No entanto, em um mundo que muitas vezes se opõe ao Cristianismo, não basta apenas defender a fé é preciso estar preparado até mesmo para enfrentar perseguições.
Vamos ao texto bíblico:
Estêvão, cheio de graça e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. (At 6.8 NAA). A narrativa sobre Estêvão constitui um ponto de virada em Atos. Ela encerra uma série de três julgamentos perante o Sinédrio. O primeiro terminou em advertência (4.21), o segundo em açoites (5.40), e o de Estêvão em morte. O episódio de Estêvão é o clímax do testemunho aos judeus de Jerusalém, tema central de Atos 2–5. Até esse momento, a oposição crescente dos líderes judeus contra os cristãos havia sido contida pelo favor do povo em relação ao movimento. Mas o cenário mudou: o povo se uniu à resistência contra Estêvão. O historiador Lucas destaca, dentre os sete diáconos, o primeiro da lista, Estêvão. Ele foi fiel tanto em sua vida quanto em sua morte. Viveu de forma superlativa e morreu de modo exemplar. Coroa é o significado do nome de Estêvão, o diácono que se tornou o protomártir do cristianismo. Assentou-lhe bem o nome porque foi o primeiro a receber a coroa do martírio na igreja. Se existe uma palavra que caracteriza a vida de Estêvão é cheio. Ele era um homem cheio de Deus. Sua vida não era apenas irrepreensível, mas também plena. Destacamos aqui alguns aspectos dessa plenitude.
1.1.1 Estêvão era cheio do Espírito Santo (6.3,5). Todo homem está cheio de alguma coisa. Está cheio do Espírito ou de si mesmo. Está cheio de Deus ou de pecado.
1.1.2 Estêvão era cheio de fé (6.5). Estêvão fora salvo pela fé, vivia pela fé, vencia o mundo pela fé e era cheio de fé.
1.1.3 Estêvão era cheio de sabedoria (6.3). Sabedoria é mais do que conhecimento; é o uso correto do conhecimento.
1.1.4 Estêvão era cheio de graça (6.8). Havia em Estêvão abundante graça. Sua vida era uma fonte de bênção.
1.1.5 Estêvão era cheio de poder (6.8). Estêvão era um homem revestido com o poder de Deus para fazer milagres e muitos sinais entre o povo.
Implicações:
1.1.6 Estêvão, o apologista cheio do Espírito. Estêvão não respondeu aos opositores com arrogância, mas com a sabedoria e o poder do Espírito Santo. Seu testemunho revela que a defesa da fé exige mais do que argumentos; exige vida cheia de Deus. Para nós, a aplicação é clara: cada cristão deve conhecer sua fé, mas sobretudo depender do Espírito para testemunhar com graça em um mundo que questiona o evangelho.
1.1.7 Estêvão, amado pelo céu e rejeitado pelo mundo. Esse contraste mostra a realidade da vida cristã: a fidelidade a Cristo traz a aprovação do céu, mas também a oposição do mundo. Assim, o discípulo de Jesus não deve se surpreender com críticas ou hostilidade, pois seguir a Cristo é carregar sua cruz. Mais vale a aprovação de Deus do que a aceitação dos homens.
1.2 A fé sob ataque.
A LIÇÃO DIZ: Lucas nos conta que, em um momento do ministério de Estêvão, um grupo de judeus que vivia fora de Israel, chamado de judeus helenistas, se levantou contra ele. Esses judeus faziam parte da Diáspora, ou seja, eram pessoas que tinham se espalhado por outras regiões, fora do território de Israel. Eles não concordaram com o que Estêvão estava ensinando e começaram a se opor ao seu trabalho (At 6.9).Então alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e da província da Ásia se levantaram e discutiam com Estêvão. (At 6.9 NAA). A chamada “Sinagoga dos Libertos” (Synagōgē tôn Libertinōn) provavelmente era composta por judeus descendentes de escravos libertos do Império Romano. Muitos estudiosos, como Schnabel, Keener e Marshall, apontam que o termo “libertos” (grego libertinoi) se refere a judeus que haviam sido escravizados em Roma e depois libertos, cujos descendentes retornaram a Jerusalém e formaram sua própria sinagoga. Pelo histórico de cativeiro e retorno, esses judeus tendiam a ser especialmente zelosos quanto à identidade judaica e à pureza da fé, o que pode explicar a reação intensa contra Estêvão, visto por eles como uma ameaça. Keener acrescenta que o termo poderia abranger também judeus libertos de outras regiões do Império, não apenas de Roma.Além deles, o relato menciona Cirineus, Alexandrinos, bem como judeus da Cilícia e da Ásia, representando a presença judaica da diáspora em várias regiões do Império Romano. Cirene, localizada no norte da África (atual Líbia), possuía uma grande colônia judaica, e é de lá que provavelmente vinha Simão de Cirene, que carregou a cruz de Jesus. Alexandria, no Egito, era a maior comunidade judaica fora de Israel e um importante centro intelectual, onde o judaísmo se desenvolvia sob forte influência helenista. A Cilícia, por sua vez, era uma região da Ásia Menor cuja principal cidade era Tarso, local de nascimento de Saulo (Paulo), o que sugere que ele mesmo pode ter participado da oposição inicial a Estêvão. Já a referência à Ásia diz respeito à província romana que incluía cidades como Éfeso, onde também havia comunidades judaicas significativas. Esses judeus, oriundos de contextos greco-romanos, falavam grego e compartilhavam da mesma língua que Estêvão, o que indica que o embate ocorreu no campo do judaísmo helenista, em debates teológicos travados dentro da própria tradição judaica.
1.3 A disputa com Estêvão.
A LIÇÃO DIZ: Uma outra palavra usada nesse texto merece nossa atenção. É o vocábulo “suzéteó”, traduzido aqui como “disputavam”: “E disputavam com Estêvão” (At 6.9). Os léxicos, ou dicionários de grego português, observam que este termo era frequentemente usado no contexto de discussões religiosas ou filosóficas, onde diferentes pontos de vistas estavam sendo examinados ou desafiados. Era uma forma de debater ideias e impor aos outros sua forma de enxergar as coisas.
O texto bíblico diz:
[…] se levantaram e discutiam com Estêvão. Mas eles não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava. (At 6.9b-10 NAA). O verbo usado, suzēteō, não indica uma briga, mas um debate formal. Lucas não nos fornece o conteúdo da discussão, mas parte dos argumentos de Estêvão pode ser inferida das acusações feitas contra ele (6.13-14) e de seu discurso diante do Sinédrio. O centro do debate certamente envolveu a morte, a ressurreição e a messianidade de Jesus, bem como a incapacidade da lei mosaica e do ritual do templo para conceder salvação.Seja qual for o conteúdo preciso, Estêvão saiu vencedor. Seus opositores não conseguiam resistir à sabedoria e ao espírito com que ele falava. Seu raciocínio humano era insuficiente diante da sabedoria concedida por Deus. A expressão “o espírito com que falava” provavelmente não se refere diretamente ao Espírito Santo, mas ao fervor, à sinceridade, à energia e ao zelo que caracterizavam sua fala. Assim, Estêvão possuía as duas qualidades essenciais para vencer em debates públicos: a verdade indiscutível e uma comunicação poderosa. O impacto dessa combinação era irresistível para seus adversários.
1.4 A falsa narrativa.
A LIÇÃO DIZ: A Igreja sempre teve de lidar e combater as falsas narrativas. Nos dias de Jesus, Ele foi acusado de enganar o povo (Jo 7.12); quando Ele ressuscitou, criaram a narrativa de que seu corpo havia sido roubado pelos discípulos (Mt 28.13). O apóstolo Paulo foi acusado de pregar contra os decretos de César (At 17.7) e pelo fato de pregar a respeito de Jesus e da ressurreição, o acusaram de pregar “deuses estranhos” (At 17.18). Hoje não é diferente. A igreja luta em várias frentes com falsas narrativas que a todo custo querem minar o seu testemunho e desacreditá-la. Você pode reconhecer algumas dessas narrativas? Eu consigo pensar em várias: “A fé cristã é anticientífica; a ciência ‘matou’ Deus.” “A Bíblia foi alterada/corrompida; não é confiável.” “Cristianismo copiou mitos pagãos; Jesus é só mais um mito.” “Religião causa a maioria das guerras (logo o cristianismo é socialmente nocivo).”
Vamos voltar ao texto bíblico?
Então subornaram alguns homens para que dissessem: — Ouvimos este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Atiçaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo contra Estêvão, o agarraram e levaram ao Sinédrio. Apresentaram testemunhas falsas, que disseram: — Este homem não para de falar contra o lugar santo e contra a lei. Nós o ouvimos dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos deu. Todos os que estavam sentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo. (At 6.11-15 NAA).Como não podiam derrotá-lo em um debate justo, recorreram a outra estratégia. Subornaram homens para acusá-lo: “Ouvimos este homem proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus” (6.11). O verbo hupoballō, traduzido por “subornar” ou “incitar secretamente”, significa “sugerir ou instruir com más intenções”. Recrutaram falsas testemunhas, repetindo a mesma tática usada no julgamento de Jesus (Mt 26.59-61). Até mesmo as acusações de blasfêmia contra Estêvão lembram as feitas contra Cristo. As testemunhas acusaram Estêvão de falar blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Seu zelo pela lei era tão grande que colocaram Moisés antes mesmo de Deus. A blasfêmia, isto é, falar mal daquilo que Deus considera sagrado, fosse a Lei ou o templo, era um crime gravíssimo, punível com a morte (Lv 24.16). Acusar Estêvão de blasfemar contra Moisés mostra que entendiam suas palavras como uma negação da capacidade da Lei de salvar. E acusá-lo de blasfemar contra Deus refletia sua defesa de Cristo como a verdadeira habitação divina, em contraste com o templo (v. 14; cf. Jo 10.36).O verbo sunarpazō (“arrastar”) significa “agarrar com violência”. É usado em Lucas 8.29 para descrever a possessão de um homem por um espírito maligno e em Atos 19.29 para relatar a apreensão dos companheiros de Paulo por uma turba revoltosa. A mesma multidão que antes respeitava Estêvão por seus sinais e maravilhas agora se voltou violentamente contra ele, assim como fizeram com Jesus: da aclamação à rejeição. Esse contraste mostra como é tênue a linha entre ouvir o evangelho e odiá-lo, a linha da apostasia, que, uma vez cruzada, frequentemente se transforma em violência.Lucas não informa quanto tempo se passou entre a prisão e o julgamento. É improvável que o Sinédrio já estivesse reunido, aguardando. Mas, no início do julgamento, os helenistas trouxeram suas falsas testemunhas (6.13), sem dúvida as mesmas mencionadas no versículo 11. Elas repetiram diante do conselho as acusações que haviam inflamado a multidão: Estêvão “não cessa de falar contra este lugar santo (o templo) e contra a Lei”. Não eram falsas por inventarem palavras inexistentes, mas por distorcerem as afirmações de Estêvão.
O versículo 15 é espantoso.
Esta cena apresenta um contraste impressionante. Estêvão estava diante do Sinédrio acusado de blasfemar contra Deus, contra o templo e contra a lei. No entanto, quando os membros do conselho fixaram seus olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo. Longe de refletir maldade, Estêvão irradiava a santidade e a glória de Deus. Deus respondeu às falsas acusações colocando a Sua glória no rosto de Estêvão, algo experimentado anteriormente apenas por Moisés (Êx 34.27-35). Assim, o Senhor demonstrou sua aprovação ao ministério de Estêvão da mesma forma como o fizera com Moisés. Cada crente deve lembrar-se de Estêvão e imitar suas qualidades. O homem que refletia a glória de Deus no rosto de um anjo deixou-nos um memorial não de pedra, mas de caráter e fidelidade. Esse é o tributo mais digno à sua vida.







2. ESTÊVÃO E A IGREJA QUE DEFENDE SUA FÉ
2.1 Deus na história do seu povo.
A LIÇÃO DIZ: Estêvão é conhecido como o primeiro defensor da fé cristã e o primeiro mártir da Igreja. Ele faz uma defesa apaixonada da fé, usando a própria história do povo de Israel como base. No capítulo 7 do livro de Atos, encontramos seu discurso completo, no qual, guiado pelo Espírito Santo, ele não apenas mostra como Deus sempre agiu na história do seu povo, mas também revela o propósito principal dessa história: provar que Jesus é o Cristo.
A defesa de Estêvão pode ser resumida em cinco aspectos, conforme observa Thomas Whitelaw:
2.1.1 Em primeiro lugar, a quem foi dirigida? Estêvão falou diretamente ao Sinédrio, ao povo judeu em geral e, de modo mais amplo, a todos os que em qualquer tempo enfrentassem situação semelhante.
2.1.2 Em segundo lugar, em que espírito foi proferida? Suas palavras transpareciam afeição e reverência, pois ele se dirigiu a eles chamando-os de “irmãos e pais” (7.2).
2.1.3 Em terceiro lugar, de que se compôs sua defesa? Estêvão percorreu a história de Israel, desde os patriarcas até o templo, evidenciando que José, Moisés e os profetas foram rejeitados, antecipando assim a rejeição de Cristo.
2.1.4 Em quarto lugar, com quais argumentos a sustentou? Ele mostrou que a verdadeira adoração não dependia nem da lei nem do templo, mas do Deus que se revelou a Abraão antes do Sinai e que não habita em casas feitas por mãos humanas.
2.1.5 Em quinto lugar, quais resultados produziu? Sua defesa gerou fúria nos ouvintes e levou ao seu martírio; contudo, confirmou que sua mensagem não era blasfêmia, mas a proclamação fiel do evangelho. O pastor José Gonçalves, em sua análise, também acrescenta importantes contribuições a essa discussão, ao afirmar: A pregação de Estêvão pode ser dividida em três partes seguidas de uma conclusão. Na primeira parte, ele faz referência aos patriarcas (At 7.2-16); na segunda, a referência é a Moisés (At 7.17-42); e, na terceira, faz alusão ao Tabernáculo e ao Templo (At 7.44-50); na conclusão, Estêvão mostra Cristo, o Messias, como a convergência e cumprimento de todas as profecias bíblicas (At 7.51-60). (GONÇALVES, 2025, p. 113).
2.2. Corações endurecidos.
A LIÇÃO DIZ: Concluindo sua defesa da fé, Estêvão disse: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais” (At 7.51). Mesmo diante dos fatos apresentados por Estêvão em uma defesa suficientemente convincente, seus adversários preferiram ignorar. Na verdade, ninguém convence quem não quer ser convencido. Deus não força ninguém a crer, nem tampouco o condena sem lhe dar, antes, oportunidade. O texto mostra que o Espírito Santo não tem espaço em corações endurecidos.
Vamos ao bíblico: Homens teimosos e incircuncisos de coração e de ouvidos, vocês sempre resistem ao Espírito Santo. Vocês fazem exatamente o mesmo que fizeram os seus pais. Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vocês agora se tornaram traidores e assassinos, vocês que receberam a lei por ministério de anjos e não a guardaram. (At 7.51-53 NAA). Na retórica clássica, a conclusão de um discurso recebia o nome de peroratio. Tratava-se do momento em que o orador aplicava as lições apresentadas em sua fala, de forma direta e muitas vezes emotiva, visando levar seus ouvintes à ação. Esse recurso, comum tanto na retórica grega quanto na profecia hebraica, tinha o objetivo de despertar consciência de culpa e mover os ouvintes ao arrependimento. Assim também Estêvão concluiu: não apenas para condenar seus acusadores, mas para conclamá-los ao retorno a Deus. Usando a linguagem profética, chamou-os de “duros de cerviz, incircuncisos de coração e ouvidos”, sempre resistindo ao Espírito Santo (7.51).
Todo o resumo histórico serviu justamente para mostrar esse padrão: Israel resistindo aos líderes enviados por Deus. Moisés e os profetas todos foram rejeitados. Agora, seus ouvintes haviam feito o mesmo com o Messias, o Justo. Para John Stott, essa acusação de Estêvão equivalia a chamar seus juízes de “pagãos de coração e surdos à verdade”. No fim, fica claro que Estêvão não buscava absolvição. Sabia que não conseguiria escapar sem negar suas convicções. Resolveu, então, usar aquele momento como última oportunidade para dar testemunho de Cristo e chamar seu povo ao arrependimento. Seu discurso não foi uma defesa judicial, mas uma proclamação profética e missionária.




3. ESTÊVÃO E O MARTÍRIO DA IGREJA
3.1 Contemplando a vitória da cruz.
A LIÇÃO DIZ: Diante de um grupo enfurecido (At 7.54), Estêvão contemplou a glória de Deus: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus” (At 7.56). Uma igreja que contempla o Cristo glorificado não nega a sua fé, pois ela contempla a vitória da cruz.
O texto bíblico diz:
Ao ouvirem isto, ficaram com o coração cheio de raiva e rangiam os dentes contra ele. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus. Então disse: — Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à direita de Deus. Eles, porém, gritando bem alto, taparam os ouvidos e, unânimes, avançaram contra ele. E, expulsando-o da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram as capas deles aos pés de um jovem chamado Saulo. (At 7.54-58 NAA).
O Sinédrio ouviu a primeira parte do discurso de Estêvão com interesse e até concordância. Afinal, ele estava apenas recitando a história, tema caro ao coração da nação. Contudo, à medida que sua linha de argumentação se tornava cada vez mais clara, eles começaram a ficar desconfortáveis. Quando ouviram a repreensão definitiva de Estêvão nos versículos 51-53, foram profundamente atingidos. As palavras de Estêvão rasgaram o verniz de sua falsa espiritualidade e os expuseram como os hipócritas blasfemos que eram.
Enfurecidos, em vez de quebrantados em arrependimento diante das palavras de Estêvão, começaram a ranger os dentes contra ele. Esse ato expressava raiva e frustração (cf. Sl 35.16; 37.12).
Enquanto o Sinédrio se enchia de fúria, Estêvão, cheio do Espírito, fixou os olhos no céu e teve uma visão extraordinária. Ele contemplou a glória de Deus e Jesus em pé à direita do Pai (At 7.55-56). Essa imagem é notável, pois em outros textos Cristo é descrito como assentado à direita de Deus (Sl 110.1; Cl 3.1; Hb 1.3). Aqui, porém, Ele está em pé, como quem se levanta para receber e honrar o primeiro mártir cristão. O céu se abriu não para livrá-lo da morte, mas para confirmar-lhe a vitória.
Ao declarar o que via, Estêvão provocou a ira máxima dos seus acusadores. Taparam os ouvidos e, unânimes, avançaram contra ele, arrastando-o para fora da cidade e apedrejando-o (At 7.57-58).
A morte de Estêvão não foi uma derrota, mas uma vitória. Ele entrou na glória, e sua vida se tornou um memorial permanente. Foi o primeiro a experimentar o que Jesus havia prometido: “Bem-aventurados sois quando vos injuriarem e perseguirem… porque grande é o vosso galardão nos céus” (Mt 5.11-12).
3.2 Perdoando o agressor.
A LIÇÃO DIZ: A última declaração de Estêvão antes de sua morte é marcante e cheia de significado: “E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu” (At 7.60). Aqui vemos um cristão que não teme a morte porque contempla a coroa da vida (Ap 2.10). Temos aqui a figura de uma igreja que, literalmente, se dá pelo perdido, que se sacrifica por ele. Esse deve ser o modelo a seguir.
3.2.1 Entrega. Estêvão morreu como alguém cheio do Espírito Santo (7.55). Suas últimas palavras, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (7.59), ecoam diretamente a oração de Cristo na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46). Essa entrega não é apenas um paralelo literário, mas uma confissão de confiança absoluta. O texto de fundo é o Salmo 31.5, oração judaica ensinada às crianças para a hora de dormir. Assim, Estêvão enfrenta a morte com a simplicidade da fé infantil, descansando inteiramente no Senhor.
3.2.2 Perdão diante da injustiça. Seu pedido “Senhor, não lhes imputes este pecado” (7.60) remete à intercessão de Jesus pelos que o crucificaram: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23.34). Esse detalhe mostra que a obra do Espírito não apenas capacita a enfrentar a morte, mas a amar e perdoar os inimigos no momento mais extremo. Estêvão não apenas testemunha de Cristo com palavras, mas imita Cristo em seu gesto de perdão.
3.2.3 Esperança na ressurreição. Lucas conclui dizendo que Estêvão “adormeceu” (7.60). Essa metáfora, recorrente no cristianismo primitivo, não banaliza a morte, mas a redefine à luz da vitória de Cristo sobre o túmulo. O “sono” exprime certeza de despertar, confiança na ressurreição final e descanso no Senhor. Para Estêvão, morrer não foi o fim, mas o início da vida plena junto ao Cristo glorificado, cuja visão ele ainda tinha diante dos olhos (7.55–56). Assim, sua morte se torna uma proclamação da esperança cristã: quem morre em Cristo adormece para acordar na eternidade.

CONCLUSÃO
William Barclay destaca três pontos importantes acerca de Estêvão neste texto:
3.2.4 O segredo do seu valor. O primeiro diácono da igreja viu o martírio como sua entrada à presença de Cristo.
3.2.5 O protomártir do cristianismo seguiu o exemplo de Cristo em sua vida e também em sua morte. Assim como Jesus orou pelo perdão daqueles que o executavam (Lc 23.34), também o fez Estêvão.
3.2.6 Para Estêvão, o terrível tumulto terminou em uma estranha paz. Ele dormiu na terra e logo foi recebido no céu pelo próprio Senhor Jesus.












REFERÊNCIAS
GONÇALVES, José. A igreja em Jerusalém: doutrina, comunhão e fé: a base para o crescimento da igreja em meio às perseguições. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.
ALISSON, Greg. Eclesiologia. São Paulo: Vida Nova, 2021.
OSBORNE, Grant. Atos dos Apóstolos. Natal, RN: Carisma, 2022.
LOPES, Hernandes Dias. Atos: a ação do Espírito Santo na vida da Igreja. São Paulo: Hagnos, 2012.
STOTT, Jonh. A mensagem de Atos: até os confins da terra. 1. ed. São Paulo: ABU Editora, 1994.
STAMPS, Donald C. (Org.). Bíblia de Estudo Pentecostal: Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, revista e corrigida. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
TENNEY, Merrill C. (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. Tradução de Luís Aron de Macedo e Degmar Ribas Júnior. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. São Paulo: Editora Vida, 1996.
KEENER, Craig S. Comentário Exegético Atos: introdução e 1.1–2.47. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2022.
GONÇALVES, José. A igreja em Jerusalém: doutrina, comunhão e fé: a base para o crescimento da igreja em meio às perseguições. Rio de Janeiro: CPAD, 2024.
Como já foi observado neste texto, o sermão de Estêvão é um dos mais longos da Bíblia. A sua exposição demonstra que Estêvão possuía um grande conhecimento da história e cultura do seu povo. Ele não apenas possuía um grande conhecimento teológico, como também sabia interpretar esses fatos à luz da profecia bíblica. Dessa forma, é possível observarmos claramente que a pregação de Estêvão pode ser dividida em três partes seguidas de uma conclusão. Na primeira parte, ele faz referência aos patriarcas (At 7.2-16); na segunda, a referência é a Moisés (At 7.17-42); e, na terceira, faz alusão ao Tabernáculo e ao Templo (At 7.44-50); na conclusão, Estêvão mostra Cristo, o Messias, como a convergência e cumprimento de todas as profecias bíblicas (At 7.51-60). (GONÇALVES, 2025, p. 113).









