23 de junho de 2026 16:34

TikTok destrona Facebook e torna-se o aplicativo mais baixado do mundo

TikTok é um dos aplicativos da companhia chinesa ByteDance – Drew Angerer/ AFP

Em 2020, nenhum aplicativo foi mais baixado que o TikTok. Foi o que informou pela primeira vez o jornal de negócios japonês Nikkei, que começou a organizar um ranking de popularidade dos apps em 2018. Ano passado, de acordo com o Nikkei, a plataforma chinesa aparece no topo da lista, ultrapassando o Facebook. Essa mudança mostra uma disputa geopolítica por meio da tecnologia, avalia o pesquisador das redes digitais e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Sérgio Amadeu.

Autor de livros sobre a intersecção entre internet e política, Amadeu avalia que a empresa dona do TikTok, a ByteDance, é especialista em extração e personalização de conteúdo por meio do aprendizado de máquina, daí parte do sucesso do app chinês em “fidelizar” seus usuários com conteúdos altamente personalizados.

“A China é uma potência tecnológica que disputa em pé de igualdade com tecnologias que originalmente foram criadas no Ocidente”, analisa Amadeu em entrevista ao Brasil de Fato.

Apesar da nova liderança tecnológica, o professor da UFABC destaca que a lógica de funcionamento do TikTok não difere da adotada e promovida pelas redes estadunidenses. Para ele, o mundo caminha na direção apontada pelo sociólogo Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, publicado em 1967: há um superexploração das imagens acima das ideias e uma superexploração do corpo. “A China não está invertendo o padrão de uso da tecnologia, ela está somente fazendo melhor que os americanos, que criaram o padrão de uso e desenvolvimento”, acredita Amadeu.

Geopolítica dos apps

O TikTok já esteve na mira da Casa Branca. Em 2020, o então presidente Donald Trump acusou a companhia de espionagem e assinou decretos para tentar forçar a venda do TikTok para uma empresa dos Estados Unidos. Microsoft e Oracle aproximaram-se e tentaram uma aquisição, mas o negócio não prosperou. O TikTok é apenas um dos pontos de fricção entre Pequim e Washington na área de tecnologia, que também estão envolvidos em disputas pelo domínio da rede 5GO CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, afirmou em reunião com Trump, em outubro de 2020, que o aumento de poder de companhias chinesas deveria ser uma preocupação maior do que a regulação do próprio Facebook e conversou sobre o app chinês com congressistas, de acordo com reportagem do The Wall Street Journal.

No TikTok, o aplicativo chinês que cresce rapidamente em todo o mundo, as menções a protestos são censuradas, até mesmo nos EUA. É essa a internet que queremos?”, afirmou Zuckerberg em discurso na Universidade Georgetown, em 2019.


No aniversário de independência dos EUA, 4 de julho, Zuckerberg publicou vídeo com a bandeira do país. / Reprodução redes sociais de Mark Zuckerberg

Em outro episódio, a Índia baniu o TikTok e outros 58 aplicativos chineses. O Ministério da Tecnologia da Informação indiano alegou danos “prejudiciais à soberania, integridade e defesa da Índia, segurança do Estado e ordem pública”. Para Sérgio Amadeu, a proibição teve como objetivo “reduzir a influência chinesa na Ásia” e deve ser entendida dentro do contexto da disputa regional entre Nova Delhi e Pequim.

“Essas plataformas de tecnologia não carregam só algoritmos e técnicas, elas carregam um modo de vida, um modo de se comportar, elas carregam influência e isso é muito importante, é por isso que os EUA estão desesperados. Eles não imaginavam que, enquanto a cultura californiana colonizava o planeta ao mesmo tempo que extrai dados do mundo inteiro pelas grandes plataformas, um país com uma cultura tão distinta conseguiria montar uma empresa e um aplicativo que disputasse com os americanos no mesmo terreno da espetacularização”, analisa o professor da UFABC. Amadeu também destaca que é uma “crença perigosa” acreditar que as plataformas são neutras, quando na verdade elas atuam de acordo com interesses de determinados grupos de poder e Estados. O pesquisador cita as denúncias de Edward Snowden, que em 2013 demonstrou que os Estados Unidos espionavam líderes mundiais, como a então presidenta Dilma Rousseff (PT) e a chanceler alemã Angela Merkel, com a intermediação de plataformas norte-americanas como Microsoft, Google e Facebook.

“Há uma interessante disputa e essa disputa, por outro lado, abre fissuras no sistema para que a gente crie novas oportunidades. Então eu nem sou iludido com o sucesso chinês do TikTok e nem acho que seja tão pior que o Facebook, eu acho que a gente deveria compreender que existe uma disputa geopolítica e geoestratégica cujo elemento crucial chama-se tecnologia.”

Edição: Arturo Hartmann

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