A IGREJA DOS GENTIOS
Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos.













INTRODUÇÃO
Ao longo do trimestre, acompanhamos o avanço do Evangelho desde o envio de Barnabé e Saulo pela igreja de Antioquia (At 13.1-3) até a chegada de Paulo a Roma. O livro de Atos termina com o apóstolo sob custódia, anunciando o Reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo com toda a ousadia e sem impedimento (At 28.30,31). Nesta última lição, deixamos a sequência narrativa do livro para estudar os textos que fundamentam a missão da Igreja em todas as gerações. Estudaremos a ordem de Cristo para fazer discípulos de todas as nações, fundamentada na autoridade que ele recebeu (Mt 28.18-20); a capacitação do Espírito Santo para o testemunho do Evangelho de Jesus (At 1.8);e a continuidade dessa missão, desde a inclusão dos gentios no corpo de Cristo (Ef 2.13-18) até o compromisso da Igreja atual até que o Senhor venha. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.

TEXTO ÁUREO
E é necessário que antes o evangelho seja pregado a todas as nações. (Mc 13.10, NVI). Pois, antes de chegar o fim, o evangelho precisa ser anunciado a todos os povos. (At 13.10, NTLH). Dentro da escatologia assembleiana tradicional, pré-tribulacionista e pré-milenista, a Segunda Vinda é compreendida em duas fases: primeiro, Cristo arrebata a Igreja antes da Grande Tribulação; depois, ao final desse período, retorna de maneira visível para estabelecer seu Reino milenar. A própria Declaração de Fé da CGADB afirma expressamente essa distinção: CREMOS,professamos e ensinamos que a Segunda Vinda de Cristo é um evento a ser realizado em duas fases. A primeira é o arrebatamento da Igreja antes da Grande Tribulação, momento este em que “nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados” (1 Ts 4.17); a segunda fase é a sua vinda em glória depois da Grande Tribulação e visível aos olhos humanos: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim! Amém!” (Ap 1.7). Nessa vinda gloriosa, Jesus retornará com os santos arrebatados da terra: “na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos” (1 Ts 3.13). (SILVA, 2017, p. 185). O quadro a seguir, coloca em
perspectiva as múltiplas correntes teológicas sobre o assunto. Não é o nosso foco, nesta lição, tratar do aspecto escatológico, mas precisamos entender corretamente o texto bíblico em análise.

VERDADE PRÁTICA
Importa que a Igreja pregue o Evangelho a todas as nações, pois essa missão deve avançar até os confins da Terra. A palavra “missão” vem do latim missio, “envio”. Falar de missão, portanto, é falar de alguém que envia, de alguém que é enviado e de uma tarefa recebida. No Evangelho de João, o Jesus ressuscitado relaciona o envio dos discípulos ao seu próprio envio pelo Pai. O texto bíblico diz: E Jesus lhes disse outra vez: — Que a paz esteja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: — Recebam o Espírito Santo (Jo 20.21- 22, NAA). Portanto, a Igreja deve cumprir sua missão como povo enviado. A mensagem que ela anuncia foi recebida do Senhor, e o poder para anunciá-la vem do Espírito. O comentarista foi muito feliz na Verdade Prática ao atribuir essa tarefa à Igreja, e não apenas aos apóstolos ou aos missionários. O livro de Atos confirma essa atribuição com uma informação que costuma passar despercebido. Quando a perseguição que se seguiu à morte de Estêvão espalhou os crentes de Jerusalém, Lucas registra que todos foram dispersos, exceto os apóstolos (At 8.1), e que os dispersos anunciavam a Palavra por onde passavam (At 8.4). Alguns deles, homens de Chipre e de Cirene, chegaram a Antioquia e falaram também aos gregos (At 11.19-21). A igreja que enviou Barnabé e Saulo, assunto da primeira lição do trimestre, foi formada a partir do testemunho de crentes cujos nomes Lucas não registra. O verbo “avançar” indica direção e continuidade. Ao dizer que seus discípulos seriam suas testemunhas até os “confins da terra”, Jesus deixou claro que a proclamação do evangelho não deveria permanecer restrita a uma cidade, região ou povo. Cada geração de cristãos recebe, desse modo, a responsabilidade de continuar esse trabalho a partir do lugar onde está. A história das Assembleias de Deus no Brasil oferece um bom exemplo desse movimento. Os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren chegaram ao país e, em 1911, iniciaram em Belém do Pará o trabalho que daria origem às Assembleias de Deus no Brasil. A partir dali, a fé pentecostal se espalhou pelas diferentes regiões do país até alcançar todos os estados. Com o passar dos anos, muitas igrejas estabelecidas no Brasil também passaram a enviar missionários para outras partes do mundo. Portanto, o Brasil, que um dia recebeu missionários estrangeiros, tornou-se também uma base de envio para que o Evangelho chegasse a outras nações.
A participação na obra missionária, porém, não se limita àqueles que deixam sua terra para servir em outros lugares. A igreja inteira pode cooperar por meio da oração, da contribuição, do acompanhamento dos missionários e da evangelização onde cada crente vive. Em Antioquia, enquanto os líderes serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo separou Barnabé e Saulo para o trabalho ao qual os havia chamado. Em consequência disso, a igreja jejuou, orou, impôs as mãos sobre eles e os enviou para o campo missionário (At 13.2,3). Já os cristãos de Filipos participaram de outra maneira, contribuindo financeiramente para o ministério de Paulo quando outras igrejas não fizeram o mesmo (Fp 4.15,16). Dessa forma, a obra missionária envolve tanto aqueles que vão quanto aqueles que permanecem e cooperam para que outros possam ir. Nem todos serão enviados para outros povos, mas todos podem orar, contribuir, apoiar quem foi enviado e anunciar Cristo no lugar onde Deus os colocou.





1. O MANDATO UNIVERSAL DE JESUS
Pergunta chave: Em que se apoia a missão da Igreja e em que ela consiste?
Ideia central do ponto: A Grande Comissão apoia-se na autoridade que o Pai concedeu ao Cristo ressuscitado, define a tarefa da Igreja como fazer discípulos de todas as nações e assegura a presença do Senhor com os seus até a consumação do século.
1.1 A autoridade de Cristo sobre todas as nações (Mt 28.18).
Verdade central: A missão da Igreja está firmada na autoridade que o Pai concedeu ao Filho ressuscitado. Por causa dessa autoridade, discípulos fracos e hesitantes puderam receber a Grande Comissão.
Para refletir: O que essa cena ensina a você sobre sua participação na obra de Deus, apesar das suas limitações?
A LIÇÃO DIZ: Ao declarar que toda autoridade lhe foi dada no Céu e na Terra, Jesus afirma seu domínio absoluto e estabelece o fundamento da missão da Igreja. Essa autoridade, confirmada após a ressurreição, garante que a ordem missionária não se apoie em força humana, mas no senhorio do Cristo glorificado.
O texto bíblico diz:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes havia designado. E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns duvidaram. Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: — Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.16-18, NAA). Mateus faz questão de informar que foram “os onze discípulos” que seguiram para a Galileia (Mt 28.16). Judas já não fazia parte do grupo, pois havia seguido “para o seu próprio lugar” (At 1.25). Os demais foram para a Galileia porque Jesus já havia anunciado que os encontraria ali depois da ressurreição (Mt 26.32). Posteriormente, tanto o anjo quanto o próprio Jesus repetiram essa orientação às mulheres, dizendo que os discípulos deveriam ir para a Galileia, onde o veriam (Mt 28.7,10). O texto, porém, não explica quando Jesus indicou especificamente o monte em que esse encontro aconteceria. Nas referências anteriores, a Galileia é mencionada, mas nenhum monte é identificado. É possível que Mateus tenha resumido instruções mais detalhadas dadas anteriormente ou que Jesus tenha indicado esse lugar em alguma de suas outras aparições depois da ressurreição. Como o texto não fornece essa informação, não é possível determinar com segurança em que momento o monte foi escolhido. Quando os discípulos viram Jesus, prostraram-se diante dele em adoração, embora Mateus acrescente que alguns ainda duvidaram (Mt 28.17). Essa dúvida não precisa ser entendida como uma incredulidade permanente sobre a ressurreição. Depois de toda a dificuldade inicial para aceitar que Jesus havia ressuscitado, os discípulos já tinham recebido outras evidências e até Tomé, que resistira por mais tempo, havia reconhecido o Senhor ressuscitado (Lc 24.10,11; Jo 20.24-29).
Hendriksen considera mais provável que essa hesitação estivesse relacionada ao reconhecimento de Jesus naquele momento. Como o encontro ocorreu na Galileia e o texto não informa a distância em que ele surgiu diante deles, alguns podem ter demorado alguns instantes para ter certeza de que realmente era Jesus. À medida que ele se aproximou, a dúvida teria desaparecido. Essa explicação, porém, deve ser apresentada com cautela, porque Mateus não descreve os detalhes da cena nem informa diretamente a razão da dúvida. O ponto mais seguro do texto é que os discípulos reconheceram Jesus e o adoraram. A breve referência aos que hesitaram mostra, ao mesmo tempo, que Mateus não tenta esconder as dificuldades enfrentadas pelos próprios discípulos diante dos acontecimentos extraordinários da ressurreição.
Que contraste havia nessa cena na Galileia com os gemidos no Getsêmani e com a escuridão do Gólgota! Jesusafirmou a sua onipotência e soberania universal. Na cruz, ele foi proclamado “rei dos judeus”, mas, quando João o vê glorificado em sua visão apocalíptica, na sua cabeça havia muitos diademas, e em seu manto e em sua coxa havia um nome escrito: “Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Jesus tem toda a autoridade (ARA) e todo o poder (ARC). Exousia, “autoridade”, nesse contexto, refere-se ao poder e à jurisdição absolutos. Nada existe fora do controle soberano do Cristo ressurreto. É nesse fundamento que os discípulos deverão ir, fazendo discípulos de todos os povos. Essa declaração mostra que quem dá a ordem tem autoridade e competência para fazê-lo. Havia autoridade em seus ensinamentos (7.29); ele exerceu autoridade para curar (8.1-13) e até mesmo para perdoar pecados (9.6). Jesus tinha autoridade sobre Satanás e delegou autoridade a seus apóstolos (10.1). Ao final de seu evangelho, Mateus deixa claro que Jesus tem toda a autoridade (28.18). A. T. Robertson diz que o Cristo ressurreto, sem dinheiro, ou exército, ou estado governamental, comissiona esse grupo num dos montes da Galileia para conquistar o mundo. Esse é o maior empreendimento que os seres humanos foram chamados a executar.
A participação na obra missionária, porém, não se limita àqueles que deixam sua terra para servir em outros lugares. A igreja inteira pode cooperar por meio da oração, da contribuição, do acompanhamento dos missionários e da evangelização onde cada crente vive. Em Antioquia, enquanto os líderes serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo separou Barnabé e Saulo para o trabalho ao qual os havia chamado. Em consequência disso, a igreja jejuou, orou, impôs as mãos sobre eles e os enviou para o campo missionário (At 13.2,3). Já os cristãos de Filipos participaram de outra maneira, contribuindo financeiramente para o ministério de Paulo quando outras igrejas não fizeram o mesmo (Fp 4.15,16). Dessa forma, a obra missionária envolve tanto aqueles que vão quanto aqueles que permanecem e cooperam para que outros possam ir. Nem todos serão enviados para outros povos, mas todos podem orar, contribuir, apoiar quem foi enviado e anunciar Cristo no lugar onde Deus os colocou.
Aplicações:
• Quem anuncia o Evangelho o faz sob a autoridade de Cristo. O missionário enviado a uma cidade, região ou povo onde a mensagem do Evangelho enfrenta certa resistência, assim como o cristão que testemunha de Cristo no trabalho, na família ou entre amigos, não anuncia em nome de sua própria influência nem depende de autoridade política ou poder humano para cumprir essa tarefa. Ele anuncia o Evangelho sob a autoridade daquele que declarou possuir todo o poder no céu e na terra.
• A hesitação não impede Jesus de continuar tratando seus discípulos. Entre aqueles que receberam a Grande Comissão havia homens falhos e alguns que ainda hesitavam diante do que estavam vendo. Jesus não os abandonou por causa dessa fraqueza, mas se aproximou, falou com eles e reafirmou sua autoridade. Da mesma forma, o cristão que enfrenta dúvidas não deve escondê-las nem permitir que elas o afastem do Senhor. Precisamos permanecer perto de Cristo, ouvir sua Palavra e permitir que ele fortaleça a nossa
fé.
• Nenhum lugar está fora da autoridade de Cristo. Se o senhorio de Jesus se estende por toda a terra, nenhum povo, cidade, bairro ou classe social deve ser considerado fora do alcance da pregação. A Igreja anuncia o Evangelho porque pertence a um Rei cuja autoridade não encontra fronteiras.
1.2 A ordem de fazer discípulos em todas as etnias (Mt 28.19).
Verdade central: A Grande Comissão tem um único imperativo: fazer discípulos. Ir, batizar e ensinar descrevem como essa ordem se cumpre, e o seu alcance inclui todas as nações.
Para refletir: A nossa igreja está apenas esperando que as pessoas venham até nós ou também procura alcançar aqueles que estão fora do nosso convívio habitual?
A LIÇÃO DIZ: A Grande Comissão revela que o Evangelho não reconhece fronteiras culturais, sociais ou étnicas. Fazer discípulos de todas as nações é o desdobramento natural da autoridade de Cristo sobre todos os povos (Mc 16.15). O discipulado vai além da conversão inicial: envolve ensino, formação espiritual e transformação de vida. Assim, a Igreja dos gentios confirma que o plano de Deus sempre foi incluir todos os povos em seu Reino. Essa missão continua vigente, chamando cada cristão a testemunhar com fidelidade até a volta de Cristo.
Vamos ao texto bíblico:
Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28.19-20, NAA). A palavra “portanto” mantém o versículo ligado à declaração anterior. Jesus havia acabado de afirmar que toda autoridade lhe fora dada no céu e na terra e, com base nessa autoridade, enviou os discípulos. No texto grego, “fazei discípulos” é o único verbo no imperativo. “Ide”, por sua vez, traduz um particípio, e duas interpretações equivocadas costumam surgir a partir dessa informação. A primeira afirma que Jesus não mandou os discípulos irem, mas apenas fazerem discípulos “enquanto fossem”; a segunda acaba reduzindo a comissão ao simples deslocamento geográfico. Daniel Wallace explica que, nessa construção, o particípio se liga ao verbo principal e assume sua força imperativa, um padrão que também ocorre em outras passagens de Mateus, como Mt 2.8. Por essa razão, Wallace considera inadequado tratar o particípio apenas como indicação de tempo, pois isso acabaria transformando a Grande Comissão em uma “Grande Sugestão”. Grant Osborne chega a uma conclusão semelhante ao explicar que “ir” funciona, na prática, com força de imperativo, embora “fazer discípulos” continue sendo a ordem principal. Deste modo, Jesus realmente envia seus discípulos, mas o deslocamento não é o objetivo final. Eles vão para fazer discípulos. Ou seja, não é sair das quatro paredes, é sair com um alvo, um propósito. Os outros dois particípios, “batizando” e “ensinando”, explicam como esse trabalho deve ser realizado. Como estão no presente e vêm depois do verbo principal, não seguem a mesma construção gramatical de “ide”. Fazer discípulos envolve, portanto, batizar aqueles que creem e ensiná-los a viver de acordo com aquilo que Jesus ordenou. A expressão “em nome”, no grego eis to onoma, indica a quem a pessoa batizada passa a pertencer e a quem deve lealdade. Além disso, o substantivo “nome” está no singular e se refere ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, as três pessoas também presentes na cena do batismo de Jesus (Mt 3.16,17).
Fica claro que Jesus não mandou fazer fãs. Quem precisa de fãs são os artistas. Jesus não mandou fazer admiradores. Os atores e jogadores de futebol é que buscam admiradores. Jesus não mandou apenas evangelizar e ganhar almas, abandonando os bebês espirituais. Ele quer discípulos. Jesus não mandou apenas recrutar crentes e encher as igrejas de pessoas. Ele quer convertidos maduros. Um discípulo é um seguidor. Isso implica: 1) fazer do reino de Deus seu tesouro; 2) renunciar a tudo por amor a Jesus; 3) guardar as palavras de Jesus. Hoje, temos muita adesão e pouca conversão. Temos grandes ajuntamentos e pouco quebrantamento. Temos igrejas cheias de pessoas vazias de Deus e vazias de pessoas cheias de Deus. Temos grandes multidões que buscam as bênçãos, mas não a Deus. São religiosos, mas não discípulos de Cristo.
1. O MANDATO UNIVERSAL DE JESUS
Pergunta chave: Em que se apoia a missão da Igreja e em que ela consiste?
Ideia central do ponto: A Grande Comissão apoia-se na autoridade que o Pai concedeu ao Cristo ressuscitado, define a tarefa da Igreja como fazer discípulos de todas as nações e assegura a presença do Senhor com os seus até a consumação do século.
1.1 A autoridade de Cristo sobre todas as nações (Mt 28.18).
Verdade central: A missão da Igreja está firmada na autoridade que o Pai concedeu ao Filho ressuscitado. Por causa dessa autoridade, discípulos fracos e hesitantes puderam receber a Grande Comissão.
Para refletir: O que essa cena ensina a você sobre sua participação na obra de Deus, apesar das suas limitações?
A LIÇÃO DIZ: Ao declarar que toda autoridade lhe foi dada no Céu e na Terra, Jesus afirma seu domínio absoluto e estabelece o fundamento da missão da Igreja. Essa autoridade, confirmada após a ressurreição, garante que a ordem missionária não se apoie em força humana, mas no senhorio do Cristo glorificado.
O texto bíblico diz:
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes havia designado.E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns duvidaram. Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: — Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.16-18, NAA). Mateus faz questão de informar que foram “os onze discípulos” que seguiram para a Galileia (Mt 28.16). Judas já não fazia parte do grupo, pois havia seguido “para o seu próprio lugar” (At 1.25). Os demais foram para a Galileia porque Jesus já havia anunciado que os encontraria ali depois da ressurreição (Mt 26.32). Posteriormente, tanto o anjo quanto o próprio Jesus repetiram essa orientação às mulheres, dizendo que os discípulos deveriam ir para a Galileia, onde o veriam (Mt 28.7,10). O texto, porém, não explica quando Jesus indicou especificamente o monte em que esse encontro aconteceria. Nas referências anteriores, a Galileia é mencionada, mas nenhum monte é identificado. É possível que Mateus tenha resumido instruções mais detalhadas dadas anteriormente ou que Jesus tenha indicado esse lugar em alguma de suas outras aparições depois da ressurreição. Como o texto não fornece essa informação, não é possível determinar com segurança em que momento o monte foi escolhido.
1.3 A promessa da presença de Cristo até o fim (Mt 28.20).
Verdade central: A convocação missionária termina com uma promessa. O Cristo que envia permanece com os enviados em cada dia da missão, pela presença do Espírito Santo, até a consumação do século.
Para refletir: Em que situação recente você deixou de falar de Jesus por sentir-se sozinho, e como a promessa de Mt 28.20 muda essa avaliação?
A LIÇÃO DIZ: A ordem missionária vem acompanhada de uma promessa consoladora: Jesus estaria com sua Igreja todos os dias, até a consumação dos séculos. Essa presença constante, manifestada pelo Espírito Santo, sustenta a obra missionária mesmo em meio às adversidades. Não caminhamos sozinhos; o Senhor é nosso ajudador (Hb 13.5,6). O discipulado não constitui uma estrada solitária, porque o Senhor ressurreto promete que estará com os discípulos sempre, todos os dias, até a consumação dos séculos. Champlin esclarece que Jesus está conosco não meramente como um rádio orientador, mas como amigo e salvador. A presença de Jesus é contínua, em todo lugar. Ele nunca nos desampara, nunca nos deixa. Ele é como sombra à nossa direita. Ele é o vigia que não dormita nem dorme. Não há situação em que sua presença não esteja conosco. Ele está conosco na vida e na morte, no tempo e na eternidade. John Charles Ryle escreve da seguinte forma sobre a presença de Jesus conosco: Cristo está conosco todos os dias. Cristo está conosco em todo lugar que vamos. Ele está conosco diariamente para perdoar e absolver; conosco diariamente para santificar e fortalecer; conosco diariamente para defender e guardar; conosco diariamente para conduzir e guiar; conosco em tristezas e alegrias; conosco em saúde ou enfermidade; conosco na vida e na morte; conosco no tempo e na eternidade. A. T. Robertson diz que Jesus emprega aqui o presente profético. Ele está conosco todos os dias até que volte em glória.
O Evangelho de Mateus começa e termina com essa mesma verdade. Logo no primeiro capítulo, Jesus é apresentado como Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1.23), e, no encerramento do livro, o Ressuscitado promete aos discípulos que estará com eles todos os dias. Essa mesma ideia acompanha o desenvolvimento do Evangelho, pois Jesus também diz que estará presente onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome (Mt 18.20). Dessa forma, o “Deus conosco” do início continua sendo o Senhor que acompanha sua Igreja enquanto ela leva o Evangelho a todas as nações. A promessa feita em Mateus 28.20 segue um padrão estabelecido nas Escrituras para os que Deus envia. Quando Moisés foi enviado ao faraó, o Senhor lhe disse: “Eu serei contigo” (Êx 3.12). Mais tarde, ao comissionar Josué para conduzir Israel na entrada da terra, Deus prometeu estar com ele por onde quer que andasse (Js 1.9). A carta aos Hebreus retoma essa mesma ideia ao recordar a promessa do Antigo Testamento: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5, ARA). Jesus, portanto, não envia seus discípulos sozinhos. Aquele que lhes deu a missão também prometeu acompanhá-los no cumprimento dela.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 1):
1. Por que a comissão pôde ser entregue a discípulos que ainda vacilavam (Mt 28.17,18)?
2. Qual é o único imperativo de Mt 28.19, e como ir, batizar e ensinar se relacionam com ele?
3. Como o livro de Atos mostra o cumprimento da promessa “estou convosco todos os dias”?





2. O PODER DO ESPÍRITO SANTO NA MISSÃO
Pergunta chave: Como a missão confiada à Igreja se torna possível, e até onde ela deve chegar?
Ideia central do ponto: O Espírito Santo capacita a Igreja para testemunhar de Cristo, conduz o Evangelho de Jerusalém aos confins da terra por cima de barreiras geográficas, étnicas e religiosas, e faz de todo crente participante do anúncio pelo qual a fé é gerada.
2.1 A capacitação do Espírito Santo para testemunhar (At 1.8a).
Verdade central: Em At 1.8, o poder prometido por Jesus tem uma finalidade definida: capacitar os discípulos para testemunhar de Cristo. O Senhor que deu a ordem providenciou também o meio de cumpri-la.
Para refletir: Os discípulos haviam convivido com Jesus, ouvido seus ensinamentos e visto o Ressuscitado, mas ainda receberam a ordem de esperar o poder do Espírito Santo. O que esse fato diz a você sobre a tentativa de realizar a obra de Deus apenas com conhecimento, experiência e capacidade pessoal?
A LIÇÃO DIZ: Em Atos 1.8, Jesus afirma que a missão da Igreja só é possível mediante a capacitação do Espírito Santo. O poder prometido não é humano, nem resultado de preparo intelectual apenas, mas uma habilitação divina que concede ousadia, discernimento e autoridade espiritual para testemunhar de Cristo (Lc 24.49). Esse poder capacita o crente a viver em santidade e a comunicar eficazmente o Evangelho.
Vamos ao texto bíblico:
Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra (At 1.8, NAA). O texto em análise contém três pontos importantes: a) o poder; b) a fonte do poder; c) o uso do poder. Há na língua grega duas palavras para poder: exousia e dunamis. A primeira refere-se ao poder no sentido de governo e autoridade; e a segunda significa habilidade e força. O poder que a igreja recebe não é político, intelectual ou ministerial, mas um poder espiritual, pessoal e moral. A fonte desse poder é o Espírito Santo, e esse poder é dado para que a igreja seja testemunha de Cristo até aos confins da terra. Nesse ponto, convém evitar uma explicação bastante conhecida, mas linguisticamente incorreta. Às vezes se afirma que dynamis significa “dinamite”, de modo que Jesus estaria prometendo um “poder explosivo”. A palavra moderna “dinamite” foi formada muitos séculos depois a partir do grego e, por isso, não pode determinar o sentido de dynamis no primeiro século. Lucas fala de poder, força ou capacidade concedida pelo Espírito. O sentido preciso vem do próprio versículo: esse poder seria recebido para que os discípulos fossem testemunhas de Jesus.
Conhecemos o termo “testemunha” do linguajar jurídico. Num processo judicial são interrogadas testemunhas. Não lhes cabe externar sua opinião em relatar seus pensamentos. Testemunha é uma palavra-chave no livro de Atos e aparece 29 vezes na forma de substantivo ou verbo. Uma testemunha é alguém que relata o que viu e ouviu (4.19,20). É alguém que está pronto a dar sua própria vida para testificar o que viu e ouviu. Mário Neves interpreta corretamente quando escreve: “A palavra testemunha, no grego, corresponde a mártir, de sorte que ser testemunha implica na disposição íntima, não só de sofrer, mas até de sacrificar a própria vida pela Causa”.
Aplicações:
• Conhecimento bíblico e experiência ministerial não substituem a dependência do Espírito Santo. Os apóstolos haviam aprendido diretamente com Jesus e visto o Ressuscitado, mas receberam a ordem de esperar. Estudar, preparar-se e adquirir experiência são responsabilidades necessárias, porém nenhuma delas torna dispensável a capacitação que vem de Deus.
• O batismo no Espírito Santo não deve ser tratado apenas como uma experiência para benefício pessoal. Em Atos 1.8, Jesus relaciona o poder recebido ao testemunho do Evangelho. Por isso, buscar o revestimento do Espírito inclui desejar ser usado para tornar Cristo conhecido, e não apenas experimentar manifestações espirituais.
• Precisamos avaliar o uso que fazemos dos dons e das experiências espirituais pelo propósito que Jesus estabeleceu. O livro de Atos registra poder, sinais, curas e ousadia, mas essas manifestações acompanham a proclamação de Cristo. Quando a experiência chama mais atenção para o mensageiro do que para Jesus, afastou-se da finalidade apresentada no texto.
2.2 A expansão geográfica e espiritual do Evangelho (At 1.8b).
Verdade central: At 1.8 descreve um avanço em círculos cada vez mais amplos, que atravessa fronteiras geográficas também barreiras étnicas e religiosas. O livro de Atos narra esse avanço e termina com a obra em andamento.
Para refletir: Antes de chegar aos gentios, os discípulos precisaram atravessar a antiga inimizade com os samaritanos. Existe perto de você um grupo de pessoas que você evitaria alcançar por preconceito ou por uma história de conflito?
A LIÇÃO DIZ: A missão cristã é progressiva e expansiva. O testemunho começa em Jerusalém, alcança a Judeia e Samaria e se estende até os confins da Terra. Essa progressão revela o Plano divino para a evangelização mundial e estrutura o próprio livro de Atos (1-7; 8-12; 13-28). A expressão “confins da Terra” aponta para todos os povos, culturas e regiões, sem distinção. As três etapas de Atos 1.8 correspondem, em linhas gerais, ao desenvolvimento do próprio livro. Nos primeiros capítulos, o testemunho do Evangelho se concentra em Jerusalém. A partir do capítulo 8, a perseguição dispersa os discípulos, e a mensagem chega à Judeia e à Samaria. Depois, especialmente a partir do capítulo 13, a obra missionária avança entre os gentios e alcança regiões cada vez mais distantes, até chegar a Roma. Lucas acompanha esse crescimento com pequenos sumários que registram como a Palavra continuava se espalhando e como o número de discípulos aumentava (At 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20). No encerramento do livro de Atos, encontramos Paulo justamente em Roma, pregando o Reino de Deus e ensinando a respeito de Jesus “sem impedimento algum” (At 28.31).
A menção conjunta da Judeia e da Samaria possui um significado que vai além da localização geográfica. No texto grego, “toda a Judeia e Samaria” aparecem ligadas por um único artigo, formando uma expressão conjunta. Alguns estudiosos relacionam essa construção com a esperança profética de que os antigos reinos divididos de Israel voltariam a ser reunidos sob um rei davídico. Além disso, a chegada do Evangelho aos samaritanos ultrapassava uma antiga barreira religiosa e étnica, pois judeus e samaritanos não mantinham boas relações (Jo 4.9). Na primeira missão dos Doze, Jesus ainda havia proibido seus discípulos de entrarem em cidades samaritanas (Mt 10.5). Em Atos 8, porém, Filipe anuncia Cristo em Samaria, os samaritanos recebem a Palavra, Pedro e João são enviados até eles e, por fim, recebem o Espírito Santo (At 8.5,14-17). A antiga hostilidade entre judeus e samaritanos não impediria que ambos fossem recebidos no mesmo povo de Deus e participassem do mesmo Espírito. A obra missionária registrada por Lucas também ultrapassou barreiras que não podem ser explicadas apenas pela distância entre uma região e outra. Logo depois da evangelização de Samaria, Filipe foi conduzido ao encontro de um eunuco etíope que voltava de Jerusalém enquanto lia o profeta Isaías (At 8.26-39). A Lei impedia o homem mutilado de entrar na assembleia do Senhor (Dt 23.1), mas Isaías já havia anunciado que eunucos e estrangeiros que se achegassem ao Senhor receberiam lugar em sua casa (Is 56.3-5). O encontro de Filipe com aquele etíope mostra essa promessa começando a se cumprir. Mais adiante, Cornélio e sua casa recebem o Evangelho (At 10), e, em Antioquia, a mensagem também passa a ser anunciada aos gregos (At 11.20).
O Evangelho, portanto, não avançava apenas de uma região para outra. À medida que a mensagem chegava a novos lugares, antigas barreiras étnicas, religiosas e sociais também eram vencidas. A expressão “até os confins da terra” retoma Isaías 49.6 na Septuaginta, passagem em que o Servo do Senhor é apresentado como luz para as nações. Lucas relaciona esse texto primeiro com Jesus (Lc 2.32), depois com os discípulos (At 1.8) e, posteriormente, com Paulo e Barnabé, que o citam em Antioquia da Pisídia ao explicar por que anunciavam o Evangelho aos gentios (At 13.47). Quanto ao significado de “confins da terra”, os intérpretes apresentam diferentes propostas. Alguns pensam em lugares distantes, como Roma, Espanha ou Etiópia, enquanto outros entendem a expressão principalmente como referência aos povos gentios.
O próprio Paulo explica como entendia sua responsabilidade dentro dessa obra missionária. Em Romanos 15.20, ele diz que procurava anunciar o Evangelho onde Cristo ainda não havia sido conhecido. Para explicar esse propósito, recorre novamente a uma passagem relacionada ao Servo do Senhor, Isaías 52.15, segundo a qual aqueles que nada haviam ouvido passariam a conhecer a mensagem (Rm 15.21). Para Paulo, portanto, os “confins da terra” não representavam apenas um lugar distante no mapa. A obra deveria continuar enquanto existissem povos e lugares onde o nome de Cristo ainda não tivesse sido anunciado.
Aplicações:
• A responsabilidade local não elimina a responsabilidade missionária para além de nossas fronteiras. Os discípulos deveriam testemunhar em Jerusalém e também avançar para outros povos. A Igreja pode trabalhar nas duas direções conforme Deus lhe concede pessoas e recursos.
• Nenhuma geração pode considerar que já chegou aos “confins da terra”. Paulo alcançou Roma, mas Lucas encerrou o livro sem declarar concluída a missão. Cada geração recebe a mensagem daqueles que vieram antes e assume a responsabilidade de levá-la a pessoas e lugares que ainda precisam ouvi-la.
2.3 A missão como responsabilidade de toda a Igreja.
Verdade central: Todo crente pertence ao povo chamado a proclamar as virtudes de Deus e participa dessa tarefa.
Para refletir: “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28). Ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário obedecer e acolher Cristo pela fé.
A LIÇÃO DIZ: Paulo mostra que a fé nasce ao ouvir a mensagem proclamada do Evangelho (Rm 10.13-15). A missão não é tarefa exclusiva de líderes, mas responsabilidade de toda a Igreja. Todos os crentes foram chamados para anunciar as virtudes de Deus (1Pe 2.9). A partir deste subponto, podemos destacar três observações importantes.
• O conhecimento salvífico de Deus vem pela proclamação do Evangelho. Por meio da criação, o ser humano pode reconhecer que Deus existe e perceber algo de seu poder e de sua divindade; sua própria consciência também testemunha sobre uma realidade moral diante da qual ele é responsável (Rm 1.19,20; 2.14,15). Esse conhecimento, porém, não lhe apresenta por si mesmo a obra salvadora de Cristo. Para conhecer o Evangelho, é necessário ouvi-lo. Por isso, Paulo pergunta: “E como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14). Portanto, grande é a nossa responsabilidade de pregar e anunciar o Evangelho.
• Todo crente participa da proclamação do Evangelho. O sacerdócio real apresentado em 1Pe 2.9 não é privilégio de pastores, evangelistas ou missionários. A dona de casa, o estudante, o trabalhador e qualquer outro cristão foram chamados para anunciar as virtudes daquele que os tirou das trevas para a sua maravilhosa luz. Nem todos exercerão o mesmo ministério, mas todos podem testemunhar de Cristo no lugar onde Deus os colocou.
• A igreja local precisa continuar reconhecendo, preparando e enviando aqueles que Deus chama. A obra missionária não depende somente da disposição de quem deseja ir. Romanos 10.15 também pressupõe alguém que envie. Por isso, a igreja não pode perder sua capacidade de perceber aqueles que demonstram vocação para o ministério, ajudá-los no preparo e enviá-los para o campo missionário.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 2):
1. Segundo Atos 1.8, qual é a relação entre o poder do Espírito Santo e o testemunho acerca de Cristo?
2. De que maneira toda a Igreja participa da missão, mesmo que nem todos sejam chamados para exercer a
mesma função ou atravessar fronteiras?





3. A GRANDE COMISSÃO E A CONTINUIDADE DO CHAMADO MISSIONÁRIO
Pergunta chave: O que a obra de Cristo realizou para que judeus e gentios fossem unidos em um só corpo?
Ideia central do ponto: A missão entre os gentios não produziu um povo paralelo ao lado dos crentes judeus. Pela cruz, Cristo reconciliou ambos com Deus e os reuniu em um só corpo. Essa união confirma que o Evangelho alcança pessoas de todos os povos e que a Igreja deve continuar anunciando Cristo até a sua volta.
3.1 A inclusão dos gentios no Corpo de Cristo (Ef 2.11-16).
Verdade central: Pela cruz, Cristo derrubou a barreira que separava judeus e gentios e, dos dois povos, formou uma nova humanidade reconciliada com Deus. Por isso, a missão aos gentios não é um acréscimo posterior ao Evangelho, mas uma consequência da própria obra de Cristo na cruz.
Para refletir: Se Cristo derrubou, em seu Corpo, aquilo que separava judeus e gentios, com que direito voltaríamos a levantar entre os irmãos barreiras baseadas na origem, na condição social ou em costumes que a própria Escritura não estabelece?
A LIÇÃO DIZ: Em Efésios 2.11-16, Paulo afirma que os gentios, antes separados, sem esperança e alheios às promessas, foram aproximados de Deus por meio do sangue de Cristo. Na cruz, Jesus derrubou a “parede de separação”, abolindo as ordenanças que dividiam judeus e gentios, criando em si mesmo um novo homem e estabelecendo a paz. A obra redentora de Cristo reconciliou ambos em um só corpo, formando uma nova comunidade espiritual.
Vamos ao texto bíblico:
Portanto, lembrem-se de que no passado vocês eram gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisão, que é feita na carne por mãos humanas.Naquele tempo vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo.Porque ele é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz, 16e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz, destruindo a inimizade por meio dela (Ef 2.11-16, NAA).
Paulo começa pedindo aos leitores gentios que se lembrem da condição em que viviam antes de Cristo (Ef 2.11). Eles eram chamados de “incircuncisão” pelos judeus, estavam sem Cristo, excluídos da comunidade de Israel, estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo (v. 12). Essa lista não pretende simplesmente humilhá-los, mas mostrar a distância que a graça de Deus havia vencido para alcançá-los. A palavra “longe”, no versículo 13, retoma a linguagem de Isaías 57.19, onde Deus anuncia paz tanto ao que está longe quanto ao que está perto. Pedro havia utilizado a mesma imagem no Pentecostes ao declarar que a promessa também alcançava “todos os que estão longe” (At 2.39). Aqueles que estavam distantes foram aproximados pelo sangue de Cristo, e Paulo chega a identificar essa paz com a própria pessoa do Senhor ao declarar que “ele é a nossa paz” (v. 14). A imagem da “parede de separação” podia ser facilmente compreendida pelos leitores de Éfeso. A expressão traduz o grego to mesotoichon tou phragmou e pode recordar uma barreira existente no templo de Jerusalém. Flávio Josefo descreve uma balaustrada de pedra que cercava os pátios internos, acompanhada de placas em grego e latim que proibiam a entrada de estrangeiros. Em 1871, Charles Clermont-Ganneau encontrou uma dessas inscrições, hoje preservada no Museu de Arqueologia de Istambul, e outro fragmento foi descoberto posteriormente. O aviso declarava que o estrangeiro encontrado além daquele limite seria responsável pela própria morte. Como Josefo utiliza outra palavra para designar a balaustrada, não podemos afirmar com certeza que Paulo esteja fazendo uma referência direta a ela, embora a associação seja bastante provável. A ligação entre essas ideias se torna ainda mais interessante quando lembramos o que aconteceu com o próprio apóstolo. Paulo foi agarrado no templo por judeus da Ásia que o acusavam de ter introduzido gregos no lugar santo porque o haviam visto na cidade com Trófimo, um efésio (At 21.27-29). Anos depois, escrevendo aos efésios da prisão, ele se apresenta como “prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vocês, gentios” (Ef 3.1). O apóstolo que anunciou a queda da parede de separação acabou preso justamente em meio ao conflito provocado por ela.
A obra de Cristo atingiu a própria inimizade que separava judeus e gentios. Paulo afirma que Jesus aboliu “a lei dos mandamentos na forma de ordenanças” (v. 15). O que Cristo aboliu foi a Lei enquanto conjunto de ordenanças que funcionava como marca de separação entre Israel e as demais nações, incluindo sinais como a circuncisão mencionada no versículo 11. Com o cumprimento realizado por Cristo, essas ordenanças deixaram de exercer a função que antes distinguia Israel dos gentios.
O resultado dessa obra foi a criação de uma nova humanidade em Cristo (v. 15). Os gentios não precisaram tornar-se judeus, nem os judeus precisaram abandonar sua identidade para se tornarem gentios. Ambos foram reconciliados e reunidos em Cristo. Essa reconciliação acontece em duas direções ao mesmo tempo, pois judeus e gentios são reconciliados entre si e, formando um só corpo, são também reconciliados com Deus por meio da cruz (v. 16).
3.2 A continuidade da missão até a volta de Cristo.
Verdade central: Em um único versículo, Paulo mencionou quatro gerações de discípulos (2Tm 2.2).
Para refletir: A Igreja é enviada ao mundo inteiro, chamada a anunciar a salvação sem barreiras étnicas, culturais ou religiosas.
A LIÇÃO DIZ: Jesus ensina que, antes do fim, “importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre todas as nações” (Mc 13.10). Mesmo em meio a perseguições, crises e instabilidades, a missão não pode ser interrompida. A pregação do Evangelho é parte do Plano soberano de Deus e deve prosseguir até a consumação dos tempos. A Igreja primitiva perseverou mesmo diante das adversidades, e o livro de Atos registra essa perseverança com clareza. Quando o Sinédrio proibiu Pedro e João de falar em nome de Jesus, eles responderam que não podiam deixar de falar daquilo que haviam visto e ouvido (At 4.20). Pouco depois, mesmo sendo açoitados, os apóstolos saíram alegres por terem sido considerados dignos de sofrer pelo Nome e continuaram, todos os dias, no templo e de casa em casa, ensinando e pregando Jesus, o Cristo (At 5.40-42). Desde o início, portanto, a continuidade da obra missionária dependeu de pessoas que, apesar da oposição, não aceitaram parar. Paulo também pensava na continuidade da obra de Deus entre as gerações. Por isso, ordenou a Timóteo que transmitisse aquilo que havia aprendido a homens fiéis, capazes de ensinar também a outros (2Tm 2.2). O versículo abrange quatro gerações: Paulo, Timóteo, os homens fiéis e aqueles que seriam ensinados por eles.
A espera pela volta de Cristo nunca foi apresentada no Novo Testamento como motivo para a Igreja interromper seu trabalho. Jesus chamou de bem-aventurado o servo que o senhor, ao chegar, encontrasse cumprindo sua tarefa (Mt 24.45,46), e, na parábola das minas, o nobre ordenou aos servos que negociassem até sua volta (Lc 19.13). Os tessalonicenses expressaram bem esse equilíbrio, pois se converteram dos ídolos para servir o Deus vivo e verdadeiro e, ao mesmo tempo, aguardar dos céus o seu Filho (1Ts 1.9,10). Serviço e expectativa caminham juntos. Esperar o Senhor não produz ociosidade, e trabalhar na obra missionária não elimina a esperança de sua volta.
Aplicações:
• A igreja precisa preparar sucessores. Temos a responsabilidade formar a próxima geração, não podemos ser omissos quanto a essa responsabilidade.
• A espera pelo Senhor deve nos conduzir ao serviço, não a acomodação. Aguardar a volta de Cristo a qualquer momento e trabalhar como se muitas gerações ainda viessem pela frente não são atitudes contraditórias. O Senhor quer encontrar sua Igreja fiel e trabalhando quando voltar.
3.3 O compromisso da Igreja atual com missões locais e transculturais.
Verdade central: A Igreja deve anunciar Cristo onde está e, ao mesmo tempo, contribuir para que o Evangelho alcance lugares e povos onde ainda não foi proclamado.
Para refletir: A sua igreja investe somente na evangelização próxima ou também participa, de maneira intencional, para que o Evangelho avance entre outros povos e regiões?
A LIÇÃO DIZ: Paulo exorta Timóteo a pregar a Palavra “a tempo e fora de tempo”, revelando que a missão exige perseverança, fidelidade e prontidão (2Tm 4.2). Esse chamado se estende à Igreja de hoje, que deve anunciar o Evangelho em contextos locais e transculturais, sustentando, enviando e indo. A missão é global, urgente e inadiável (Mt 28.19,20; Mc 16.15). Manter viva a chama missionária é um dever espiritual, pois “ai de mim se não anunciar o evangelho” (1Co 9.16).
Vamos ao texto bíblico:
Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu Reino, peço a você com insistência que pregue a palavra, insista, quer seja oportuno, quer não, corrija, repreenda, exorte com toda a paciência e doutrina (2Tm 4.1-2, NAA). A Segunda Carta a Timóteo é a última carta de Paulo. Preso e consciente de que sua morte se aproximava (2Tm 4.6-8), o apóstolo escreve ao seu filho na fé que havia deixado em Éfeso (1Tm 1.3). A ordem dada a Timóteo é apresentada com uma solenidade incomum, pois ele é colocado diante de Deus e de Cristo Jesus, que julgará vivos e mortos, tendo em vista sua manifestação e seu Reino (v. 1). Logo, a pregação da Palavra é colocada dentro de uma perspectiva escatológica. Timóteo deveria cumprir seu ministério lembrando que prestaria contas ao Senhor que voltará, e é sob essa mesma expectativa que a Igreja continua sua missão.
No versículo 2, Paulo reúne cinco imperativos: pregar a Palavra, insistir, corrigir, repreender e exortar, sempre com paciência e doutrina. A expressão “quer seja oportuno, quer não” (ARA), ou “a tempo e fora detempo” (ARC), indica disposição para cumprir essa tarefa em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. Os versículos 3 e 4 explicam a urgência, pois chegaria o tempo em que muitos não suportariam a sã doutrina e procurariam mestres de acordo com os próprios desejos. O primeiro campo dessa ordem, portanto, é o ministério de Timóteo dentro da igreja, especialmente diante do falso ensino. A aplicação do texto para a obra missionária é legítima, desde que entendida como uma ampliação desse princípio. O próprio Paulo fornece essa ligação quando acrescenta: “faze a obra de um evangelista” (v. 5). Mesmo pastoreando uma igreja estabelecida, Timóteo também deveria anunciar o Evangelho aos que ainda não conheciam Cristo. Por fim, finalizamos fazendo menção do Myer Pearlman, em texto reproduzido pela revista, o qual apresenta um bom princípio para manter o equilíbrio entre o trabalho local e o envio para outros povos: “O amor que transformará o mundo tem que começar em casa, embora não termine ali.” Para Pearlman, o zelo pelas pessoas que já estão ao nosso redor também serve como prova da seriedade de uma vocação missionária.
Verifique o aprendizado de seus alunos (ponto 3):
1. O que era a “parede de separação” que os leitores de Éfeso podiam reconhecer, e como a prisão de Paulo em At 21 se relaciona com ela?
2. Por que Ef 2.15 não ensina que a vontade moral de Deus foi anulada?
3. Como 2Tm 2.2 descreve a continuidade da missão entre as gerações?

CONCLUSÃO
Lucas abriu o livro de Atos lembrando que seu Evangelho narrara tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar (At 1.1). F. F. Bruce e outros intérpretes, observam que o verbo “começou” sugere continuidade: o segundo volume narra o que o Senhor continua a fazer depois da ascensão, por meio de testemunhas capacitadas pelo Espírito. O livro de Atos termina com Paulo pregando sem impedimento, e o relato fica aberto porque a obra continua. Agradecemos a Deus por concluirmos mais um trimestre de estudos bíblicos. No próximo trimestre, de outubro a dezembro, iniciaremos o estudo de O Deus da Aliança: Advertências, Promessas e Bênçãos no Livro de Deuteronômio. Esperamos você na próxima pré-aula.
REFERÊNCIAS
GARLAND, David E. Comentário expositivo Atos. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2019.
STOTT, John. A mensagem de Atos. São Paulo: ABU Editora, 1994.
PEARLMAN, Myer. Atos: estudo do livro de Atos e o crescimento da Igreja Primitiva. Tradução: Gordon
Chown. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2020.
WILLIAMS, David J. Atos. Tradução: Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 1996. (Novo Comentário
Bíblico Contemporâneo).
KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. Tradução: José Gabriel Said.
São Paulo: Vida Nova, 2017.
BEALE, G. K.; CARSON, D. A. (Org.). Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento.
Tradução: C. E. S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2014.
KEENER, Craig S. Comentário Exegético Atos. Rio de Janeiro: CPAD, 2024. 4 v.
LONGENECKER, Richard N. Acts. In: LONGMAN III, Tremper; GARLAND, David E. (Ed.). The
expositor’s Bible commentary. Rev. ed. Grand Rapids: Zondervan, 2007.
FERNANDO, Ajith. Acts. Grand Rapids: Zondervan, 1998. (The NIV Application Commentary).
POLHILL, John B. Acts. Nashville: Broadman & Holman, 1992. (The New American Commentary, v. 26).
LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A Carta da Liberdade Cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.
SILVA, Esequias Soares da (Org.). Declaração de fé: Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve
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