21 de janeiro de 2026 07:52

O PAI ENVIOU O FILHO

A SANTÍSSIMA TRINDADE
O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas

INTRODUÇÃO
Como podemos medir a verdadeira dimensão do amor? Não apenas por palavras, mas pela magnitude da renúncia envolvida e pelas ações empreendidas. Ao observarmos a narrativa bíblica, notamos que a redenção humana foi uma iniciativa soberana de Deus planejada desde a eternidade. Nesta lição, abordaremos o envio do Filho Unigênito. Veremos como esse evento, ocorrido na “plenitude dos tempos”, é a prova suprema do amor do Pai e a revelação clara da Santíssima Trindade trabalhando em perfeita harmonia para garantir a nossa salvação. Preparados? Vamos juntos aprender a Palavra de Deus.

TEXTO ÁUREO
Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. (1Jo 4.9, NVI). Foi assim que Deus mostrou o seu amor por nós: ele mandou o seu único Filho ao mundo para que pudéssemos ter vida por meio dele. (1Jo 4.9, NTLH). Apenas quatro vezes no Novo Testamento encontramos afirmações sobre o que Deus é, três delas feitas por João: Deus é “espírito” (Jo 4.24), “luz” (1.5) e “amor” (4.8). A quarta é “Deus é fogo consumidor” (Hb 12.29; cf. Dt 4.24). Essas afirmações não são definições completas de Deus, mas revelam o que ele é em sua natureza. Afirma que “Deus é amor” significa que ele não somente é a fonte de todo amor (4.7), mas é amor em sua própria essência. É importante, entretanto, lembrarmos que se Deus é amor, ele também é espírito, luz e fogo consumidor. Temos de manter em harmonia esses aspectos do ser de Deus, pois só assim poderemos compreender como um Deus, que é amor, castiga os ímpios com ira eterna. João, portanto, apresenta uma prova cabal de que Deus é amor. “Manifestar” significa tornar plenamente conhecida, com detalhes, mediante revelação clara, alguma coisa que estava oculta. A vinda do Senhor Jesus ao mundo tornou plenamente conhecido o amor de Deus pelo seu povo.

VERDADE PRÁTICA
O envio do Filho revela o amor do Pai e a perfeita unidade da Trindade no plano da salvação, garantindo a redenção e a adoção dos crentes. A verdade prática resume bem o conteúdo que abordaremos na lição:
1 Graduado em teologia pela UniCesumar; Tecnólogo em coaching e desenvolvimento humano pela Unopar; pós-graduando em educação cristã e graduando em teologia pela Faculdade Batista do Cariri (FBC); Presbítero na Assembleia de Deus em Pernambuco
1. O envio do Filho revela o amor do Pai. O ato de Deus Pai enviar o Filho ao mundo é a suprema demonstração de Seu amor. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito…” (Jo 3.16).
2. A perfeita unidade da Trindade no plano da salvação. O plano salvífico é, portanto, trinitário em sua origem, execução e consumação.
3. A garantia da redenção. A redenção é eficaz porque foi realizada pelo próprio Filho eterno, plenamente divino e plenamente humano, capacitado para satisfazer a justiça divina pela unção do Espírito, cujo o ministério foi aprovado pelo Pai.

1. O ENVIO DO FILHO E O AMOR DO PAI
Ideia central do ponto: O Pai revela seu amor ao enviar o Filho, por iniciativa soberana, e isso expõe a unidade trinitária na redenção.
1.1 O amor incondicional do Pai.
Ideia central: O amor (agápē) de Deus é gracioso e imerecido, e se expressa no envio do Filho (Jo 3.16–17; 1Jo 4.8–10).
O aluno deve sair sabendo: definir ágape como amor que envolve decisão e ação, e rejeitar a ideia de que o amor de Deus se baseia em algum mérito humano.
A LIÇÃO DIZ: O envio de Jesus Cristo — o Filho Unigênito do Pai, é a maior demonstração do amor de Deus ao mundo (Jo 3.16). O verbo grego para este amor é “aqapáō” e o substantivo é “agápē”. Expressam a natureza essencial de Deus (1Jo 4.8) e a busca pelo bem-estar de todos (Rm 15.2). Conforme usado, acerca de Deus, manifesta interesse profundo e constante de um Ser perfeito para seres completamente indignos (Vine, 2002, p. 395). O idioma grego possui uma riqueza de termos para descrever o amor, permitindo distinções que muitas vezes se perdem em outras línguas. No grego do Novo Testamento, há três palavras frequentemente associadas a tradução do termo amor:
1.1.1 Ágape (Agepê / agapáō). Esta é a palavra mais frequente no Novo Testamento para descrever o amor cristão e o amor divino. Refere-se a uma “benevolência invencível” e uma “infinita boa vontade”. Não é apenas uma emoção, mas uma atitude da vontade que busca o maior bem do outro, independentemente de seus méritos. É um amor abnegado, inteligente, com propósito e ativo. Diferente do eros (que busca satisfação própria), o agápe busca o bem do objeto amado, mesmo que este seja indigno ou inimigo.
1.1.2 Philia (phileõ). Descreve o amor de amizade, o afeto caloroso e a comunhão. É usada para descrever o amor entre amigos verdadeiros e o amor do Pai pelo Filho, bem como o amor de Jesus por Lázaro. Embora alguns tentem classificar philia como inferior a agápe, em muitos contextos do Novo Testamento (especialmente em João), os termos são usados como sinônimos intercambiáveis.
1.1.3 Storgê. Descreve o amor familiar, a afeição natural entre pais e filhos. O substantivo não aparece no Novo Testamento, mas o conceito existe e formas compostas (como philostorgos, “amar cordialmente”) são usadas, como em Romanos 12.10.
1.1.4 Eros. Refere-se ao amor passional, sexual e ao desejo de posse. Esta palavra não aparece no Novo Testamento. É descrita como um amor que busca a autossatisfação, em contraste com o agápe que busca o outro.
1.2 A iniciativa soberana de Deus.
Ideia central: A salvação procede do propósito de Deus em Cristo e antecede qualquer resposta humana (Ef 1.4–5,9; Rm 5.8).
O aluno deve sair sabendo: explicar que a iniciativa da salvação não parte do ser humano, mas de Deus.
A LIÇÃO DIZ: Desde a eternidade, antes da Queda no Éden, Deus traçou um plano de redenção em Cristo (Ef 1.4,5). Até mesmo anterior a fundação do mundo, o Filho já estava destinado para nossa salvação (1Pe 1.18-20). Deus, em sua soberania e seu imensurável amor, tomou a iniciativa de enviar o Salvador, cumprindo seu eterno propósito de redenção (Ef 1.9). A Escritura ratifica que o amor divino antecede qualquer atitude humana: “não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).
Vamos compreender, em primeiro lugar, o texto de Efésios 1.4-5 (NAA) que diz:
Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou para ele, para sermos adotados como seus filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o propósito de sua vontade,Deus, em Sua onisciência, previu a queda do homem e planejou a redenção antes mesmo da criação. As Escrituras revelam que o plano de salvação remonta à eternidade passada, onde Deus estabeleceu que Cristo seria o Cordeiro morto desde a fundação do mundo. Portanto, a eleição é um ato eterno fundamentado na presciência de Deus, onde Ele, antecipadamente, conheceu aqueles que responderiam ao Seu chamado pela fé.A eleição “olha” para o aspecto passado da salvação. Refere-se ao ato de Deus escolher um povo para Si mesmo. É o ato pelo qual Deus escolhe homens para si. A eleição é baseada na presciência de Deus. Deus elege para a salvação aqueles que Ele previu que aceitariam o Seu chamado e creriam em Jesus.A predestinação “olha” para o aspecto futuro. Ela se refere ao destino ou ao propósito pré-determinado por Deus para aquele povo que Ele elegeu. Portanto, A predestinação não é um decreto de quem será salvo ou condenado, mas a definição do futuro e dos benefícios daqueles que já são de Cristo. Deus predestinou que os que estão em Cristo desfrutem da posição de filhos (adoção), com todos os direitos e privilégios de herdeiros. É um ato da graça soberana que nos coloca na família de Deus, uma realidade presente que será plenamente realizada na redenção do nosso corpo. Tudo isso ocorre de acordo com o beneplácito (a boa vontade) de Deus. Não depende de obras ou mérito humano, mas da graça. A vontade de Deus não é restritiva (escolhendo apenas alguns para salvar), mas inclusiva no sentido de que Ele deseja que todos se salvem, embora a eficácia dessa vontade dependa da resposta humana de fé, que é possibilitada pela graça.

Em segundo lugar, corroborando com a ideia de que o amor de Deus antecede qualquer resposta humana, O apóstolo Paulo escreveu: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores. (Rm 5.8 NAA). A causa do amor de Deus não está no objeto amado, mas nele mesmo. Cristo não morreu por alguém que merecia o amor de Deus. Ao contrário, Paulo diz que éramos fracos (5.6), ímpios (5.6), pecadores (5.8) e inimigos (5.10). Numa linguagem crescente, o apóstolo elenca quatro predicados sombrios da deplorável condição humana. Embora fôssemos merecedores do juízo divino, ele graciosamente derramou em nosso coração seu imenso amor. Deus não poderia achar nos fracos, ímpios, pecadores e inimigos algo que atraísse seu amor. O caráter incomum e singular do amor de Deus se revela no fato de que ele foi exercido a favor daqueles cuja condição natural era absolutamente repugnante diante da sua santidade. Deus amou infinitamente os objetos da sua ira. Portanto, fica mais que evidente que a salvação, além de ser uma iniciativa divina, é um dom gracioso da parte de Deus.
1.3 O envio do Filho e a Trindade.
Ideia central: “O envio do Filho é uma expressão do amor do Deus Triúno, que resplandece em toda a história da salvação. O aluno deve sair sabendo: destacar o envolvimento da Trindade no plano da redenção, afirmando a unidade de essência entre as pessoas da Trindade e distinguir as funções na economia da salvação.
A LIÇÃO DIZ: Embora a missão do Filho seja descrita por meio do verbo “enviar” (Jo 3.17,18,34), a ideia aqui é de um presente gracioso de Deus (1Jo 4.10). Em seu amor soberano, o Pai ofereceu sua dádiva mais preciosa — o seu Filho Unigênito: “para que por Ele vivamos” (1Jo 4.9).
O texto bíblico nos diz:
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é condenado; mas o que não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (Jo 3.16-18, NAA). Aprendemos desde cedo, no discipulado, que a palavra graça significa favor imerecido. Contudo, à luz do texto bíblico que acabamos de ler, podemos ampliar esse conceito e afirmar que a graça é a maior de todas as dádivas concedidas a quem merecia o maior de todos os castigos. A graça é um presente de Deus aos homens: ela é oferecida gratuitamente, mas custou o sangue precioso de Jesus Cristo. João 3.16, é talvez, um dos versículos mais conhecidos Bíblia, é o Evangelho em miniatura, o Evangelho em ponto pequeno. Como em uma só gota de orvalho se vê todo o universo, aqui, nestas poucas palavras, vê-se toda a boa nova da salvação de Deus. Notem-se estes pontos: 1) Deus, o maior Ser. 2) Amou, o maior sentimento. 3) O mundo, o maior grupo. 4) De tal maneira, o maior grau. 5) Que deu, o maior ato. 6) O Seu Filho unigénito, a maior Dádiva. 7) Para que todo aquele, a maior oportunidade. 8) Que nEle, a maior atração. 9) Crê, a maior simplicidade. 10) Não pereça, a maior promessa. 11) Mas, a maior diferença. 12) Tenha, a maior certeza. 13) A vida eterna, a maior possessão. Portanto, o plano da redenção revela o envolvimento do Deus triúno. Nas obras de Deus na história, especialmente na salvação, vemos o Pai enviando, o Filho vindo e obedecendo ao Pai para realizar a redenção, e o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, aplicando com eficácia ao crente a obra de Cristo consumada na cruz.
Essa dinâmica corresponde ao que chamamos de Trindade econômica, isto é, as ações distintas do Pai, do Filho e do Espírito na história da salvação. Nesse âmbito, há uma subordinação funcional do Filho ao Pai, porque o Filho é enviado e cumpre a vontade do Pai. Contudo, essa subordinação não é ontológica. Ontológica diz respeito ao ser de Deus. Assim, na Trindade ontológica, não existe hierarquia de essência: Pai, Filho e Espírito são igualmente Deus, coeternos e consubstanciais. Logo, a ordem das missões na redenção expressa funções, não inferioridade.

2. O FILHO E A PLENITUDE DOS TEMPOS
Ideia central do ponto: O Pai envia o Filho no tempo determinado, nascido de mulher, sob a lei, para redimir e conduzir o povo de Deus à adoção (Gl 4.4–6).
2.1 A preparação histórica e religiosa.
Ideia central: Deus prepara o cenário histórico-cultural e a expectativa messiânica para a chegada do Salvador e a expansão do evangelho. O aluno deve sair sabendo: identificar fatores providenciais (contexto romano, grego koiné, expectativa messiânica) como meios sob o governo de Deus.
A LIÇÃO DIZ: O envio de Cristo não foi um plano improvisado, mas um desígnio eterno, cumprido “na plenitude dos tempos” (Gl 4.4). Indica que a vinda do Messias se deu no tempo determinado pelo Deus Pai (Rm 5.6). A Trindade, em perfeita sabedoria e unidade, determinou o momento exato para a execução do plano redentor (Ef 1.10,11). O texto bíblico diz: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. A expressão “plenitude do tempo” (pleroma tou chronou) indica o momento cronológico decisivo, predeterminado por Deus Pai, que encerra o período de preparação e inicia o tempo do cumprimento. Não foi o tempo que forçou a ação de Deus, mas Deus quem determinou o tempo.
O “tempo oportuno” incluiu fatores como:
2.1.1 Pax Romana (O cenário político e infraestrutural). O mundo mediterrâneo desfrutava de um período de paz imposta por Roma (a Pax Romana), cessando as guerras entre nações rivais. Isso tornava as viagens relativamente seguras, visto que os mares estavam livres de piratas e as fronteiras estavam consolidadas. Roma construiu uma vasta rede de estradas excelentes (“as estradas romanas”), que conectavam os centros estratégicos do império à capital. Embora construídas para fins militares e administrativos, essas estradas facilitaram imensamente o movimento rápido de viajantes e, consequentemente, dos pregadores do Evangelho.
2.1.2 A Língua grega (O veículo cultural). Enquanto Roma forneceu as estradas, a Grécia forneceu a língua. As conquistas de Alexandre, o Grande, helenizaram o mundo antigo, estabelecendo uma língua comum. O grego koiné (comum) tornou-se a língua universal do comércio, da diplomacia e da literatura em todo o império. Isso permitiu que os apóstolos pregassem em qualquer lugar sem a necessidade de aprender novos idiomas locais e escrevessem o Novo Testamento em uma língua que quase todos podiam ler.
2.1.3 A Diáspora judaica (A base religiosa). A dispersão dos judeus (Diáspora) por todo o mundo conhecido criou “cabeças de ponte” estratégicas para o cristianismo. Em quase todas as cidades do império havia uma colônia judaica e uma sinagoga. As sinagogas serviam como locais de ensino e adoração, onde se lia a Escritura. Elas foram o ponto de partida natural para a missão de Paulo; ali ele encontrava judeus e gentios “tementes a Deus” (prosélitos) que já conheciam o monoteísmo e as Escrituras, mas precisavam ouvir sobre o Messias.
2.1.4 A falência moral e a fome espiritual (O contexto existencial). O cenário espiritual do mundo pagão era de decadência e vazio, criando um anseio por algo verdadeiro. Os antigos deuses mitológicos da Grécia e de Roma haviam perdido sua influência sobre o povo e não ofereciam mais satisfação espiritual ou esperança. As filosofias humanas mostravam-se vazias diante da morte e do sofrimento. A sociedade estava saturada de imoralidade, crueldade e idolatria. Em Roma e na Grécia, a vida familiar estava em colapso e a depravação era generalizada. Havia uma sensação generalizada de desespero e um desejo por um Salvador. O mundo estava consciente de sua falência moral e ansiava por uma religião que fosse real e satisfatória. O Evangelho chegou justamente quando o homem reconheceu que não podia salvar a si mesmo e que o “século presente” era mau.
A “plenitude do tempo” descreve um momento histórico único onde a paz romana facilitou o acesso físico, a língua grega facilitou a comunicação intelectual, a sinagoga judaica forneceu a base teológica, e a miséria espiritual do paganismo criou a necessidade existencial para a vinda de Cristo.
2.2. O Filho nascido sob a Lei.
Ideia central: Cristo assume verdadeira humanidade e cumpre integralmente a Lei, qualificando-se como o justo que oferece o sacrifício perfeito.
O aluno deve sair sabendo: explicar “nascido de mulher” (encarnação) e “sob a lei” (obediência completa), sem reduzir Jesus a um mero mestre de exemplo moral.
A LIÇÃO DIZ: A Escritura afirma que o Filho veio “nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4b). A expressão “nascido de mulher”, reafirma que Cristo assumiu nossa natureza humana (Hb 2.14; Fp 2.7,8). A declaração “nascido sob a lei” significa que Jesus cumpriu todas as exigências da Lei mosaica (Mt 5.17). Ele foi o único homem a cumprir plenamente a Lei de Deus, sem a transgredir em momento algum (1Pe 2.22).
Vamos expor este subponto ponto:
2.2.1 Nascido de mulher. Essa expressão enfatiza que o Filho de Deus assumiu a natureza humana completa. Ele não apenas “apareceu” como homem, mas entrou no mundo através do processo natural de nascimento, tornando-se participante da condição humana com todas as suas fragilidades (exceto o pecado). O Verbo eterno assumiu uma natureza que não possuía antes. Teologicamente, a expressão remete à primeira promessa do Evangelho em Gênesis 3.15, identificando Jesus como a “semente da mulher” que esmagaria a serpente. Além disso, ao nascer de mulher, Jesus tornou-se nosso parente de sangue, um de nós, nosso irmão. Essa identificação era necessária para que Ele pudesse agir como nosso representante e Sumo Sacerdote misericordioso.
2.2.2 Nascido sob a Lei. Ele nasceu sob a Lei para cumpri-la perfeitamente onde Adão e Israel falharam. Ele obedeceu plenamente e satisfez todas as exigências de justiça da Lei. Sua vida de perfeita obediência é a base da justiça que é imputada aos crentes. Por isso que ele é o Justo e o justificador daqueles que creem.
2.3 A adoção de filhos.
Ideia central: “A redenção inclui filiação adotiva: em Cristo, e pelo Espírito, o crente recebe o status de filho e pode clamar “Aba, Pai”.
O aluno deve sair sabendo: distinguir o Filho por natureza dos filhos por adoção e reconhecer a ação do Espírito na certeza e intimidade filial.
A LIÇÃO DIZ: A obra do Filho não apenas trouxe perdão, mas também nos concedeu a posição de filhos adotivos (Gl 4.5). Cristo é o único Filho de Deus por natureza (Jo 1.18); e os crentes tornam-se filhos por adoção (Jo 1.12,13).
O texto bíblico diz:
para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: “Aba, Pai!” Assim, você já não é mais escravo, porém filho; e, sendo filho, também é herdeiro por Deus. (Gl 4.5-7, NAA). Jesus não se tornou Filho de Deus em um determinado momento da história; Ele já era o Filho preexistente que o Pai enviou ao mundo. Ele é o Filho por natureza, possuindo a mesma essência do Pai, sendo o “unigênito”. A Sua filiação é eterna e intrínseca à Sua divindade. Ele é o “Filho do seu amor”. Diferentemente de Cristo, nós não somos filhos por natureza, mas nos tornamos filhos por adoção mediante a obra de redenção. O termo grego huiothesia (adoção) é usado por Paulo para descrever a nova posição legal e relacional do crente. A palavra é composta por huios (filho) e thesis (colocação/posição), significando literalmente “colocar na posição de filho”. Refere-se ao ato de Deus conceder o status de filho adulto a alguém que não pertencia à família por natureza. Paulo utiliza uma ilustração jurídica baseada na lei romana (patria potestas). A adoção era um processo legal sério que envolvia a transferência de uma pessoa da autoridade de um pai para outro. Isso implicava quatro consequências principais, que se aplicam espiritualmente ao texto:
2.3.1 Mudança de família. A pessoa perdia todos os direitos na antiga família (mundo/pecado) e ganhava todos os direitos de um filho legítimo na nova família (Deus).
2.3.2 Cancelamento de dívidas. A vida antiga e todas as dívidas do adotado eram legalmente canceladas; ele começava uma vida nova.
2.3.3 Herança. O adotado tornava-se coerdeiro dos bens do novo pai.
2.3.4 Realidade jurídica. Aos olhos da lei, ele era absolutamente filho de seu novo pai.
A adoção é distinta da regeneração (novo nascimento), embora ocorram simultaneamente. A regeneração muda a nossa natureza (dando-nos vida), enquanto a adoção muda a nossa posição (dando-nos direitos legais).

3. A TRINDADE NO PLANO DA SALVAÇÃO
Ideia central do ponto: O único Deus opera trinitariamente na salvação: o Pai deseja e envia, o Filho realiza, e o Espírito aplica com eficácia a obra realizada pelo Filho.
3.1 A vontade do Pai realizada pelo Filho.
Ideia central: O Filho cumpre a vontade do Pai com obediência perfeita, garantindo vida eterna aos que o Pai lhe dá. O aluno deve sair sabendo: explicar a obediência filial de Cristo e sua centralidade na redenção.

A LIÇÃO DIZ: O Filho veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai: “eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Essa vontade, segundo Cristo, é que nenhum daqueles que o Pai lhe deu se perca, mas tenham a vida eterna (Jo 6.39,40). A obediência de Jesus é perfeita, revelando plena submissão ao Pai. Ele mesmo testifica: “porque eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29). Essa obediência alcançou o clímax na entrega voluntária de sua vida por amor: “sendo obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Por meio de sua vida sem pecado e morte sacrificial, a justiça de Deus foi plenamente satisfeita (Rm 3.24-26). Em Cristo, vemos a expressão sublime da obediência, do amor e da unidade perfeita na Trindade. Vamos tentar analisar esse subponto em partes. Em primeiro lugar, a afirmação “eu desci do céu” (Jo 6.38) atesta a pré-existência de Cristo e sua divindade. Ele não veio realizar uma vontade própria, desconectada ou oposta à do Pai; pelo contrário, embora tenha vontade própria, esta está em perfeita sintonia e submissão à vontade do Pai. Não existe choque entre as vontades na Trindade; o Filho age em total harmonia com Aquele que o enviou.
Em segundo lugar, a “vontade daquele que me enviou” é específica: a preservação absoluta dos salvos. Cristo recebeu do Pai um povo, “todos os que me deste”, e a vontade divina é que nenhum desses se perca. A vontade do Pai é que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna agora e a ressurreição garantida no futuro. Mesmo que morram, eles não estão “perdidos”, pois estão sob a custódia de Cristo, que tem o poder e a autoridade para trazê-los de volta à vida.
Em terceiro lugar, Jesus testifica: “Aquele que me enviou está comigo… porque eu faço sempre o que lhe agrada”. A obediência de Jesus não era esporádica, mas constante (“sempre”). Fazer a vontade de Deus era a “comida”, isto é, a satisfação da alma de Jesus. O Pai ama o Filho não apenas por sua natureza divina, mas também por causa dessa obediência voluntária e sacrifical, como declarado no batismo e na transfiguração: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.
Por fim, a obediência de Cristo não foi apenas viver sem pecado, mas submeter-se à morte. A expressão “obediente até a morte” indica a extensão da submissão. O acréscimo “e morte de cruz” enfatiza a profundidade da humilhação, pois era uma morte maldita e vergonhosa, reservada aos criminosos. Ao aceitar a cruz, Jesus desceu ao ponto mais baixo possível para redimir a humanidade, transformando o instrumento de vergonha em símbolo de glória.A obra de Cristo resolveu o dilema cósmico: como um Deus santo pode perdoar pecadores sem comprometer Sua justiça? No passado (Antigo Testamento), Deus, em sua tolerância, deixou impunes os pecados (ou seja, não executou o juízo final imediatamente), aguardando a cruz. Na cruz, Deus demonstrou Sua justiça ao punir o pecado em Cristo, permitindo-Lhe ser, ao mesmo tempo, “justo” (porque o pecado foi punido) e “justificador” (daquele que tem fé em Jesus). A cruz é o local onde o amor e a justiça de Deus se encontram perfeitamente.

3.2 A mediação exclusiva do Filho. Ideia central: Somente Cristo revela plenamente o Pai e provê acesso a Deus por seu sacrifício; por isso, ele é o único Mediador.
O aluno deve sair sabendo: definir “mediador” como o único que revela e reconcilia, e avaliar como “mediadores paralelos” deformam o conhecimento do Pai e conduzem o homem à idolatria.
A LIÇÃO DIZ: O Filho é o único caminho de acesso ao Pai: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Esse acesso é exclusivo porque Ele é a revelação plena do Pai (Jo 1.18), e o único que pode satisfazer a justiça divina mediante o seu sacrifício no Calvário (Hb 9.15). A exclusividade da mediação de Cristo está enraizada na estrutura trinitária. O Pai enviou o Filho (Jo 3.16), e o Espírito Santo testifica do Filho (Jo 15.26). A mediação de Cristo é exclusiva porque reúne, de modo único, requisitos que nenhuma criatura pode possuir ou cumprir. (1Tm 2.5; Hb 7.25). Vamos enumera-las:
3.2.1 Plena divindade (capacidade de representar Deus e satisfazer a justiça divina). O Mediador precisa ser Deus verdadeiro, porque somente Deus pode representar perfeitamente os interesses de Deus, sustentar a honra do seu nome e satisfazer plenamente sua justiça. Por isso, Jesus é apresentado como plenamente Deus, eterno e consubstancial com o Pai: “No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus” (Jo 1.1) e, nele, “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Essa verdade exclui anjos, santos ou qualquer criatura, pois todos são ontologicamente incapazes de mediar com base na justiça divina. Não por acaso, heresias como o arianismo foram rejeitadas, porque, ao negar a divindade plena do Filho, desmontam a própria base de uma mediação salvadora.
3.2.2 Plena humanidade sem pecado (representação legítima dos homens diante de Deus). O Mediador também precisa ser verdadeiro homem, pois deve representar os homens diante de Deus; entretanto, precisa ser sem pecado, para não necessitar de mediação em favor de si mesmo. Cristo é o “segundo Adão”, plenamente humano e, ao mesmo tempo, impecável: “foi tentado em todas as coisas… mas sem pecado” (Hb 4.15). A mediação exige alguém apto a carregar os pecados de outros, e isso exclui qualquer pessoa marcada pelo pecado original e por pecados pessoais.
3.2.3 A Posse de uma vida indissolúvel. Um mediador que morre e permanece morto não pode garantir uma salvação eterna. Os sacerdotes da ordem de Arão eram impedidos pela morte de continuar. Cristo, porém, vive para sempre para interceder. Ele foi constituído sacerdote “segundo o poder de vida indissolúvel” (Hb 7.16). Sua ressurreição garante a validade perpétua de Sua mediação. Além disso, a ideia de múltiplos mediadores paralelos contradiz a exclusividade afirmada pela Escritura: “há um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5).
3.3 A aplicação da salvação pelo Espírito.
Ideia central: O Espírito convence, regenera, ilumina, sela e santifica, confirmando a obra salvadora no crente.
O aluno deve sair sabendo: enumerar as ações do Espírito na aplicação da salvação e manter a lógica bíblica de que o Espírito conduz a Cristo e ao Pai.
A LIÇÃO DIZ: O Espírito Santo, chamado de Consolador e Espírito da verdade, foi enviado pelo Pai e pelo Filho. Jesus disse que o Espírito viria para convencer o mundo “do pecado, e da justiça, e do juízo” (Jo 16.8-11). É o Espírito que ilumina a mente para o conhecimento de Deus (2Co 4.6), ensina a verdade (Jo 14.26), regenera os pecadores (Tt 3.5), sela os que creem (Ef 1.13), opera a santificação progressiva (2Ts 2.13), e assegura a perseverança dos crentes (Fp 1.6). Além disso, o Espírito glorifica o Filho, pois foi enviado para testificar de Cristo (Jo 15.26), revelando sua Pessoa e obra ao coração humano. O Espírito nunca age independentemente do Filho ou do Pai. Sua missão é, intrinsecamente, a de exaltar a glória do Deus Triúno (Jo 16.13,14).Vamos explorar melhor esse tema quando abordarmos as lições que tratam especificamente da Pessoa do Espírito. Além disso, este subponto contém tanta informação que é impossível examinar seus detalhes no tempo disponível para a exposição em sala. Portanto, quero apenas enumerar seus pontos principais:
3.3.1 O Espírito é enviado pelo Pai e pelo Filho como Consolador e Espírito da verdade. Ele não é uma força impessoal, mas a terceira Pessoa divina que vem em missão, para continuar a obra de Deus na história da salvação (Jo 14.26; Jo 15.26, NAA).
3.3.2 O Espírito convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo. É a ação divina que desmascara o pecado, evidencia a justiça de Cristo e anuncia o juízo de Deus (Jo 16.8-11, NAA).
3.3.3 O Espírito ilumina a mente para o conhecimento de Deus. Ele abre o entendimento para que a luz do evangelho seja recebida, de modo que o pecador reconheça a glória de Deus revelada em Cristo (2Co 4.6, NAA).
3.3.4 O Espírito ensina a verdade e conduz o crente na revelação de Deus. Ele faz a Palavra ser compreendida e aplicada, formando discernimento espiritual e firmeza doutrinária na vida cristã (Jo 14.26; Jo 16.13, NAA).
3.3.5 O Espírito regenera e renova o pecador. A entrada na vida cristã ocorre por novo nascimento, como ato soberano de Deus que cria vida espiritual onde antes havia morte (Tt 3.5, NAA).
3.3.6 O Espírito sela os que creem, garantindo pertencimento e segurança em Deus. O selo confirma que o crente é de Deus e antecipa a consumação da redenção, funcionando como marca de propriedade e garantia (Ef 1.13, NAA).
3.3.7 O Espírito santifica de modo progressivo, conformando o crente a Cristo. A santificação é obra contínua do Espírito que combate o pecado e produz maturidade espiritual (2Ts 2.13, NAA).
3.3.8 O Espírito assegura a perseverança dos crentes, sustentando a “boa obra” até o fim.
3.3.9 O Espírito glorifica o Filho e testifica de Cristo ao coração humano. Sua missão é cristocêntrica: ele revela a Pessoa e a obra de Cristo, levando o pecador a confiar no Filho (Jo 15.26; Jo 16.13-14, NAA).
3.3.10 O Espírito aplica a salvação sem agir isoladamente, preservando a lógica trinitária da redenção. Ele conduz a Cristo e, por Cristo, ao Pai, de modo que a aplicação da salvação exalte a unidade do Deus Triúno (Jo 14.6; Jo 16.13-14; Ef 2.18, NAA).

CONCLUSÃO
Chegamos ao final deste estudo com a certeza de que o envio do Filho é a prova suprema e irrefutável do amor de Deus. Aprendemos que a salvação não foi um improviso, mas um projeto eterno da Santíssima Trindade: o Pai planejou e enviou por iniciativa soberana; o Filho obedeceu e executou a obra da redenção na “plenitude dos tempos”; e o Espírito Santo aplica essa obra eficazmente em nós. Mais do que perdoados, fomos elevados à posição de filhos adotivos que clamam “Aba, Pai”. Diante dessa “benevolência invencível”, nossa resposta deve ser de adoração contínua. Que a revelação desse amor sacrificial nos motive a viver exclusivamente para a glória do Deus Triúno, servindo-O com gratidão e anunciando essa verdade ao mundo.

REFERÊNCIAS
PAMPLONA, Pedro. Como Deus é um e três ao mesmo tempo? Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2023.
LETHAM, Robert. A Trindade: na Escritura, história, teologia e adoração. São Paulo: Vida Nova, 2022.
FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 155-197.
HORTON, Stanley M. (ed.). Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p. 157-187.
Santo Agostinho. A Trindade. São Paulo: Paulus, 1994.
ERCKSON, Millard J. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015.

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